Ramona Rosales para The New York Times
Ramona Rosales para The New York Times

Jordan Peele aborda lado sombrio do ser humano em novo projeto

Fã de terror, diretor aposta em remake da série 'Além da Imaginação', de Rod Serling

Dave Itzkoff, The New York Times

05 de abril de 2019 | 06h00

LOS ANGELES - A mulher no programa em preto e branco passando na TV estava à beira da loucura, produzindo um monólogo a respeito de mundos paralelos e a possibilidade de nossas duplicatas caminharem entre nós. Enquanto a câmera pairava diante da expressão consternada do rosto dela, Jordan Peele assistia a tudo sentado, fascinado. “Linda tomada", disse ele.

No seu escritório, Peele, o comediante convertido em cineasta de filme de terror premiado com Oscar, assistia a um episódio de The Twilight Zone (Além da Imaginação), a antológica série de ficção científica que ele está ajudando a devolver à vida. O diretor escolheu um episódio de 1960 chamado “Mirror Image", a respeito de uma mulher convencida que está sendo seguida por sua duplicata, e de um homem que não acredita nela até ser tarde demais.

Peele indica Mirror Image como inspiração por trás do seu novo filme, Us, no qual Lupita Nyong’o e sua família são perseguidos por duplicatas assassinas. “Gosto quando os seres humanos são os monstros, a fonte do horror", disse Peel sobre suas histórias de terror favoritas. Este é um momento de suspense para o diretor, que cresceu idolatrando Rod Serling, criador de Twilight Zone, por incluir no programa um pouco de conscientização social enquanto abordava as ansiedades dos Estados Unidos da época da Guerra Fria.

Quatro anos após o fim de Key & Peele e dois anos após sua estreia na direção, o thriller de sucesso Get Out, Peele é agora produtor executivo da nova série Twilight Zone transmitida pela CBS All Access. Também acumula a função de narrador, como fazia Serling. Peele aceitou com cautela seu papel no programa, e temia a ideia de trazer de volta The Twilight Zone. Tem dificuldade em aceitar as comparações com Serling.

Mas, nessa história de improváveis paralelismos, Peele tem seguido de perto a trajetória de Serling desde o começo. Ele também usou o gênero do entretenimento para apresentar verdades difíceis de engolir, usando a comédia para comentar a brutalidade policial ou os filmes de horror para caçoar dos liberais satisfeitos. “Quando podemos prever a direção que o público espera para uma história, aprendemos a usar isso contra eles. E o público vai adorar.”

O sucesso de Get Out (que teve renda mundial superior a US$ 255 milhões) possibilitou que Peele produzisse outros projetos, incluindo BlacKkKlansman, de Spike Lee, e a série documental Lorena, para a Amazon, bem como obras de horror ainda não lançadas como a série Lovecraft Country, da HBO, e uma nova versão do filme Candyman.

Antes de fazer sucesso imitando o presidente Barack Obama e jogadores de futebol americano com nomes como L’Carpetron Dookmarriot, Peele era um nerd da cultura pop que passou a infância cercado por filmes como Gremlins, Tubarão e as obras de Tim Burton. Outro programa consumido por ele com avidez era The Twilight Zone: foi ao ar originalmente de 1959 a 1964, e a mãe dele lhe mostrou as reprises.

Seu olhar pop foi moldado por clássicos criados por Serling: The Monsters Are Due on Maple Street e I Am the Night - Color Me Black, que lidavam diretamente com preconceitos sociais e racismo, e episódios cruelmente irônicos como Time Enough at Last, no qual o erudito sobrevivente de um apocalipse nuclear se vê isolado com material ilimitado para a leitura e um par de óculos quebrados.

“Adoro aqueles que, essencialmente, exploram um defeito trágico de alguém", disse Peele. “Criamos um personagem e mostramos a ele seu pior pesadelo.” Nos anos mais recentes, Simon Kinberg (roteirista, produtor e diretor envolvido na série de filmes dos X-Men) pensou em criar uma nova encarnação para a TV. “Parecia não haver muita relevância histórica no programa, porque tínhamos a impressão de viver um momento de aparente estabilidade", disse ele.

Então, duas coisas aconteceram: primeiro, a eleição presidencial de 2016. Em seguida, Kinberg e seus colegas assistiram Get Out, considerando-o uma obra moderna digna de Twilight Zone. Logo, Peele e Kinberg estavam se reunindo para pensar em ideias, percebendo que talvez a fórmula clássica da série não precisasse de atualização, afinal.

“Sob muitos aspectos, temos a sensação que houve um curto-circuito na fiação e viemos parar na dimensão errada - não é assim que as coisas deveriam ser", disse Peele. “Era como pensar que, se Serling estivesse aqui, ele teria muito a dizer, criando episódios que não poderia ter escrito na sua própria época.”

De acordo com Peele, essa versão de Twilight Zone e a original criada por Serling partilham de uma “sensação de simplicidade” - um arco narrativo de revelações cada vez mais surpreendentes, “para, no fim, subvertermos os padrões ou aprofundá-lo ainda mais". Cada episódio exigem também aquilo que ele chamou de “autoironia Serling”: “Levamos as histórias a sério, mas sem exagerar", disse Peele. “Não queremos algo tão sombrio a ponto de fazer o espectador se encolher em posição fetal.”

O tema da identidade dupla é recorrente na obra de Peele. “Toda a minha obra aponta para essa ideia de um lado sombrio da humanidade", disse Peele. “Temos demônios costurados no nosso DNA. A evolução nos trouxe a um ponto em que desejamos ser bons, em geral. Mas nunca seremos inteiramente bons. Sempre teremos esse outro lado.” / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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