Lam Yik Fei para The New York Times
Lam Yik Fei para The New York Times

Jornal de Hong Kong promove uma China renovada

A gigante chinesa Alibaba está investindo no jornal South China Morning Post com o objetivo de mudar a visão que o Ocidente tem da China

Javier C. Hernández, The New York Times

06 Abril 2018 | 10h00

HONG KONG - Em uma tarde recente, a equipe do South China Morning Post, um jornal de 114 anos, reuniu-se em sua nova e luxuosa sede em Hong Kong para celebrar uma notável reviravolta. O número de leitores está aumentando. O Morning Post lançou novos produtos digitais e contratou dezenas de jornalistas. Depois de mais de uma década de declínio, a redação vibra como uma startup.

O renascimento começou com a aquisição do Morning Post, há dois anos, pelo Alibaba Group, o gigante de tecnologia e varejo chinês. Mas o Alibaba deu a ele uma nova missão: melhorar a imagem da China no exterior e combater o que considera um viés antichinês na mídia estrangeira.

O Alibaba assumiu o jornal de Hong Kong, em inglês desde o domínio britânico, e colocou-o na vanguarda dos esforços da China para projetar uma estratégia de soft power no exterior. Todos os dias, o Morning Post publica dezenas de artigos sobre a China, muitos dos quais procuram apresentar uma visão mais positiva do país. Enquanto isso, os críticos dizem que ele está se afastando do jornalismo independente.

O Alibaba, que tem sido honesto sobre suas ambições, prevê um dia em que o Morning Post será a organização de notícias dominante no mundo. "Vamos ser vigiados e as pessoas vão prestar atenção em nós", disse Joseph C. Tsai, cofundador do Alibaba.

Mas os jornalistas temem que o Alibaba, uma das empresas mais valorizadas do mundo, esteja deixando de lado o histórico de reportagens desagradáveis do Morning Post para agradar Pequim. “Ao declarar explicitamente que o seu objetivo é contar uma trajetória positiva da China e publicar matérias questionáveis, a gestão enfraquece os próprios atributos que fazem o Morning Post útil em primeiro lugar ”, disse Yuen Chan, professor de jornalismo na Universidade Chinesa de Hong Kong.

Gary Liu, um empresário com formação em Harvard e principal executivo do Morning Post, disse que o jornal poderia oferecer um retrato mais sutil da China do que os veículos ocidentais de notícias, com uma equipe de 350 jornalistas na Ásia, incluindo cerca de 40 no continente. Ele disse: "Nós não estamos aqui, certamente, para promover os pontos de vista e desejos de Pequim".

Mas uma cultura de autocensura no jornal antecede sua compra pelo Alibaba, disse Wang Feng, que trabalhou como editor do material digital de 2012 a 2015. Ele disse que os editores rotineiramente reescreviam, minimizavam ou retinham matérias críticas por medo de ofender funcionários chineses influentes ou executivos de negócios. Wang, agora editor do site em chinês do jornal The Financial Times, disse: "Você pode ver que as pessoas não são exatamente livres para falar o que pensam".

Esse acanhamento persistiu sob o Alibaba, de acordo com mais de uma dúzia de jornalistas que, sob condição de anonimato, descreveram como o jornal evita reportagens investigativas sobre líderes do Partido Comunista e assuntos contenciosos como direitos humanos.

No ano passado, o Morning Post retirou uma coluna de negócios que sugeria que um investidor em Hong Kong tinha laços com um conselheiro de confiança do presidente Xi Jinping e usara suas conexões para acumular riquezas. Sua autora, Shirley Yam, uma respeitada comentarista financeira, se demitiu e defendeu sua coluna.

Em fevereiro, segundo os jornalistas, o Ministério de Segurança Pública pressionou o jornal a entrevistar Gui Minhai, um crítico político e cidadão sueco que a polícia chinesa havia detido. Gui foi citado dizendo que violou a lei chinesa e não queria ajuda do mundo exterior. O Morning Post disse que a entrevista com Gui foi "organizada pelo governo".

Mas mesmo com sua missão pró-China, os artigos do Morning Post ainda abordam tópicos que estão fora dos limites do continente, e seu site está bloqueado por lá. Enquanto muitos de seus cerca de 850 artigos semanais parecem sob medida para um público asiático, seu maior mercado é agora os Estados Unidos.

O sucesso do Morning Post pode depender de persuadir os leitores estrangeiros de que ele oferece um jornalismo confiável sobre a China. Robert Delaney, correspondente do Morning Post em Nova York, disse que tinha dificuldade em fazer entrevistas com os americanos porque eles supunham que ele trabalhava para uma agência de notícias controlada pelo Partido Comunista. Agora Delaney faz questão de esclarecer.

"No primeiro minuto, eu só me preocupo em deixar claro: 'Só para você saber, não somos um jornal chinês continental, apesar de termos a China em nosso nome'", disse ele. "Isso fica um pouco estranho".

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