Giulia Marchi para The New York Times
Giulia Marchi para The New York Times

Jornalistas da China obrigados a calar no governo de Xi

Uma ‘era de censura total’ em que a crítica pode levar à prisão

Javier C. Hernández, The New York Times

07 de agosto de 2019 | 06h00

PEQUIM - Anteriormente, ela era uma das mais temidas jornalistas da China; percorria o país à procura de histórias sobre a brutalidade da polícia, condenações ilegais e desastres ambientais. Mas hoje em dia, Zhang Wenmin luta para ser ouvida.

A polícia intimida as fontes de Zhang. As autoridades fecharam as contas da sua mídia social. Incapaz de encontrar veículos de comunicação que publiquem o seu trabalho, ela vive em grande parte de suas poupanças.

“O espaço para a liberdade de expressão ficou limitado”, comentou Zhang, 45. “Agora é perigoso dizer que você é jornalista independente”.

Antes, os repórteres investigativos da China eram as raras vozes confiáveis e críticas de uma sociedade rigorosamente controlada pelo Partido Comunista que governa o país. Mas sob o presidente Xi Jinping, estes jornalistas praticamente desapareceram, desde que as autoridades passaram a persegui-los e a prendê-los. A imprensa chinesa agora quase não publica matérias críticas, ao contrário, está repleta de retratos otimistas da vida no governo de Xi. Os críticos  a definem como uma “era de censura total”.

“Nós estamos praticamente extintos”, afirmou Liu Hu, 43, um repórter que ficou preso quase um ano depois de investigar políticos corruptos. “Não sobrou ninguém para revelar a verdade”.

Xi transformou a paisagem da imprensa na China, restaurou a primazia dos veículos de informação controlados pelo partido e silenciou as vozes independentes. Ele disse que a missão do noticiário deve ser difundir “energia positiva” e “amar o partido, proteger o partido e servir ao partido”.

A repressão deixou a China em uma espécie de vácuo da informação. O discurso público no país é consideravelmente monolítico. Em lugar dos debates sobre política, há apelos na imprensa para defender o sistema socialista da China. Em lugar da pesquisa minuciosa, há hinos a Xi e ao partido. Há uma lista que se ampliou rapidamente de tópicos que só podem ser tratados pelos órgãos oficiais do partido, como a guerra comercial com os Estados Unidos, o movimento #MeToo, as crianças geradas pela manipulação do material genético e o alastrar-se da febre suína.

Clayton Dube, diretor do U.S.-China Institute da Universidade do Sul da Califórnia, disse que Xi está indicando que somente o partido tem o poder de criticar.

“Em lugar de considerar o jornalismo investigativo uma contribuição para sanar as mazelas sociais e melhorar a governança”, acrescentou, “o partido-Estado de Xi o considera uma ameaça à estabilidade social”.

O Q Daily, um site de notícias online, era conhecido por publicar artigos sobre questões sociais, inclusive problemas enfrentados por migrantes rurais nas grandes cidades. Mas as autoridades fecharam reiteradamente o Q Daily no ano passado, inclusive no final de maio. O governo o acusa de “manipular reportagens originais” o que é danoso para a opinião pública.

Yang Ying, a editora-chefe do site, disse que o site tentou ater-se aos rigorosos controles do governo evitando temas sensíveis como a política e os militares. Entretanto, muitas vezes não estava claro o que poderia irritar as autoridades. “Não há nenhuma dignidade em dirigir um veículo de informação aqui”, afirmou.

Antes que Xi assumisse o controle do país, o jornalismo chinês ingressara em uma espécie de idade do ouro, com reportagens sobre vacinas defeituosas e edifícios mal construído, que ruíam com os terremotos.

Mas no governo de Xi, a repressão aos jornalistas se intensificou. No mês de dezembro, havia pelo menos 48 jornalistas em prisões na China, mais do que em qualquer outro país, segundo o Comitê de Proteção dos Jornalistas.

“Fora da China, os jornalistas são demitidos por escreverem falsas reportagens”, disse Liu. “Na China, eles são demitidos por dizerem a verdade”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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