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Jornalismo investigativo perde espaço na China de Xi Jinping

Queda na receita levou jornais a demitirem jornalistas investigativos

Helen Gao, The New York Times

12 Maio 2018 | 10h00

Quando o capitalismo sem limites chegou a um ponto febril na China no início da década de 2000, a prosperidade do jornalismo investigativo foi celebrada como exemplo mais evidente do crescente poder dos cidadãos. A política nacional, que desapareceu das conversas públicas após o massacre de Tiananmen, em 1989, voltou a ser tratada como tema de importância imediata e pessoal.

Na época, eu cursava o ensino fundamental, e passava as tardes do fim de semana lendo o Southern Weekly, baluarte do jornalismo investigativo, devorando denúncias de crimes urbanos e escândalos corporativos, uma realidade que parecia outro mundo se comparada à minha vida protegida num bairro universitário.

Anunciando uma nova era, os jornalistas da publicação escreveram num editorial de 1999 que o jornalismo investigativo deveria “dar poder aos impotentes, e motivar os pessimistas a insistir na luta”.

Mas não ouvimos hoje nenhuma promessa do tipo, nem nada remotamente semelhante.

Mais de cinco anos após o início do governo do presidente Xi Jinping, as implicações mais nefastas da sua retomada autoritária começam a tomar forma. Uma das baixas é o jornalismo investigativo. 

Depois de sofrerem um declínio tão rápido quanto sua ascensão, os jornalistas interessados em revelar a sujeira se sentem perdidos.

E essa é uma sensação generalizada, que vai além do mundo do jornalismo. A opressão do estado dizimou a sociedade civil e reverteu anos de progressos sociais, criando uma atmosfera pública sufocante. O moral baixo ameaça limitar a inovação, o profissionalismo e o ethos da praticidade que há muito prevalece entre os chineses. As consequências podem ser ruinosas para as aspirações da liderança chinesa de transformar o país numa superpotência econômica.

O boom do jornalismo investigativo emergiu de um alinhamento propício de condições políticas e sociais. Como parte de um amplo recuo no controle econômico, o governo tinha decidido cortar os subsídios para os jornais estatais, obrigando-os a buscar mais receita com as vendas. Os editores, por sua vez, acreditaram ter licença para testar os limites. Sentindo um apetite público pelo trabalho de jornalismo investigativo consequente, eles incentivaram os repórteres a buscar matérias com impacto social.

O resultado desse trabalho alimentou entre os cidadãos a esperança de mudanças sociais. Reportagens revelando a verdadeira dimensão da epidemia de SARS de 2003 pressionaram autoridades omissas a agir.

Uma investigação de uma morte misteriosa ocorrida sob custódia policial levou ao encerramento de um sistema nacional de detenções ilegais. Em todo o país, burocratas corruptos foram derrubados por causa de crimes que variavam de demolições urbanas ilegais ao desvio de recursos estatais que não podiam mais ser varridos para baixo do tapete por causa do grande número de denúncias.

Na esteira desses sucessos, jornais regionais como Southern Weekly, Southern Metropolis Daily e Dahe Daily ganharam destaque nacional. Apesar de seus elos com o governo, esses jornais desfrutavam de relativa liberdade graças a líderes políticos de mentalidade liberal que consideravam os repórteres investigativos como aliados políticos. Os poucos jornalistas investigativos que perderam o emprego naqueles anos são muito menos numerosos do que aqueles que seguiram no trabalho, unidos pela crença na importância e no poder do seu trabalho.

Conforme a censura aumentou sob o governo de Xi, o jornalismo investigativo perdeu o brio e, em seguida, o público. A queda na receita levou os jornais a demitir jornalistas investigativos e, em determinados casos, a eliminar departamentos inteiros. O número de jornalistas investigativos caiu mais de 50% em seis anos, chegando a um total de 175 profissionais, de acordo com um relatório da Universidade Sun Yat-sen apresentado em dezembro.

Para os jornalistas que restaram, a sobrevivência depende da sua capacidade de se orientar pela nova realidade. Quando Xi iniciou sua alardeada campanha de combate à corrupção em 2013, muitos jornalistas investigativos interpretaram isso como um sinal para entrar em ação. O otimismo se transformou em medo quando aqueles que denunciaram funcionários corruptos que não estavam entre os alvos do governo acabaram presos, enquanto repórteres que revelavam provas de corrupção envolvendo quadros já condenados eram elogiados por sua lealdade política.

Em raras ocasiões, projetos investigativos ainda podem influenciar as políticas nacionais, especialmente quando o foco são temas que já constam na pauta política. Um documentário de 2015 a respeito da catastrófica poluição aérea na China teve permissão para circular durante dias como crítica implícita às autoridades locais, que não controlaram as indústrias poluentes. Um filme mais recente a respeito da reciclagem do plástico é considerado responsável por acelerar a proibição do governo à importação de certos tipos de lixo estrangeiro.

Mas os poucos triunfos não servem de consolo para os jornalistas investigativos. Num ensaio, Chu Chaoxin, destacado repórter político, pediu as leitores que “não me chamem de jornalista investigativo", dizendo que o trabalho ao seu alcance não pode mais ser considerado tal.

A alienação é cada vez mais a escolha dos desiludidos jovens jornalistas. Onde havia brio e idealismo dez anos atrás, hoje vê-se uma superficial aceitação do status quo.

E a sensação de resignação em resposta à opressão do presidente Xi é tão generalizada entre os jovens que tem nome próprio: a atitude da juventude budista. O termo indica uma existência não competitiva, laissez-faire, baseada na ideia de que há pouco fora do alcance pelo qual valha a pena ansiar.

Os jornalistas da geração dos millennials adotaram relutantemente a atitude budista. Afinal, seu preparo para a vida profissional (um ensino rigoroso que valorizava o esforço, a experiência nas sociedades liberais do exterior, histórias inspiradoras de jornalistas mais velhos) mal pôde prepará-los para o ambiente que os cerca agora: a fortaleza reluzente que é a Nova China de Xi Jinping, onde visões sociais alternativas são suprimidas metodicamente, e não há lugar para ambições individuais, a não ser enquanto tijolos formando uma parede.

Em suas palavras e ações, Xi parece acreditar que o nacionalismo e a riqueza financeira distribuída de cima para baixo podem inspirar autores, cientistas e empreendedores que ajudarão a China a alcançar sua grandeza nacional. Trata-se de uma crença equivocada.

Não foi por coincidência que a era dourada do jornalismo investigativo acompanhou um florescimento generalizado na sociedade. Os escândalos revelados pelos jornalistas motivaram debates animados nos campi universitários. A transparência fomentada pelo trabalho dos repórteres conferiu aos empreendimentos uma base mais firme para enfrentar mercados voláteis: alguns dos maiores conglomerados da China, como a gigante do comércio eletrônico Alibaba, foram fundadas naquele período.

Os princípios e crenças que se enraizaram nos jornais há mais de uma década não permaneceram nas redações. E, ao destruir o ecossistema social que os jornalistas investigativos ajudaram a construir, Xi Jinping corre o risco de exaurir não apenas a vitalidade da sociedade, mas também sua própria visão para o futuro do país.

Helen Gao é analista política de uma firma de pesquisas.

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