Alecs Ongcal/EPA, via Shutterstock
Alecs Ongcal/EPA, via Shutterstock

Jornalista das Filipinas critica perseguição à imprensa no país

Maria Ressa está enfrentando acusações criminais e ameaças nas redes sociais

Kara Swisher, The New York Times

03 de março de 2019 | 06h00

Uma jornalista enfrenta processos na justiça e ameaças nas redes sociais. Intimidar jornalistas é uma das especialidades do presidente das Filipinas, Rodrigo Duterte. Há dois anos, a mão pesada do líder filipino desabou sobre Maria Ressa, ex-repórter da CNN e fundadora do site de notícias Rappler. A campanha contra ela usa acusações criminais e difamação no Facebook com o objetivo de manchar sua reputação e difundir mentiras a respeito de seu trabalho.

Em meados de fevereiro, Maria passou uma noite na prisão acusada de “difamação cibernética” por um artigo publicado em 2012 no Rappler a respeito de alegações de laços corruptos entre um empresário e um juiz. Quando conversamos via Skype no dia 21 de fevereiro, ela explicou sobre as tentativas de silenciá-la. “Preciso me adaptar à ideia de que isso é normal, embora não haja nada de normal a respeito do episódio".

“Isso não me assusta, mas a ideia é assustar todos os demais". Tecnicamente, ela passou a noite numa sala de reunião, e não numa cela - graças à “benevolência" da polícia federal, disseram a ela. Foi talvez uma pequena e única gentileza em meio à implacável série de ataques contra Maria e o Rappler.

O site jornalístico Rappler cobre de perto o regime brutal do presidente Duterte, publicando artigos a respeito de execuções extrajudiciais e outros abusos contra os direitos humanos. Em meados de 2017, em um discurso do Estado da União, o presidente retrucou criticando o Rappler por ter proprietários americanos (alguns dos investidores do site são dos Estados Unidos). Ele tentou fazer com que o alvará de funcionamento do site fosse revogado. Em seguida, Maria foi acusada de evasão fiscal. 

Então veio a prisão por difamação cibernética, considerada um crime. Apesar de parecer cansada desses entraves jurídicos, ela não parecia disposta a desistir, chegando a fazer piadas com a situação quando conversamos. “Acho que minha fiança foi mais cara que a de Imelda Marcos", disse ela, referindo-se à mulher colecionadora de sapatos do ditador filipino Ferdinando Marcos, que terminou a vida em desgraça.

Era manhã em Manila, mas ela não estava trabalhando com jornalismo. Em vez disso, cuidava da contratação de mais seguranças para o escritório do Rappler para proteger seus 100 funcionários, e gastava dinheiro com advogados. As despesas jurídicas já correspondem a um quarto do orçamento operacional da organização, disse ela.

Ela também enfrenta a implacável manipulação nas redes sociais por parte de fontes que ela diz serem ligadas ao governo, que divulgam informações falsas a respeito dela e do Rappler. Esses valentões se concentra no Facebook, onde a maioria dos filipinos consome notícias. Ela foi chamada de agente estrangeira, encrenqueira, caloteira do fisco, traidora e feia.

Em meados de fevereiro, duas pessoas que Maria suspeita terem agido a mando do governo conseguiram invadir o edifício do Rappler e transmitir um vídeo na plataforma Facebook Live bem do lado de fora, convocando manifestações e ataques nas redes sociais. Entre os comentários no vídeo: “Enforquem Maria Ressa", “Explodam Maria Ressa” e “Cortem-lhe a cabeça”.

Funcionários do governo disseram que ela está “aproveitando” a atenção. Não é verdade, e Maria denunciou o vídeo ao Facebook. Ela já tinha apresentado à empresa provas contundentes dos abusos cometidos pelo exército de valentões de Duterte contra ela na plataforma. Dessa vez, o Facebook respondeu bloqueando o usuário que publicou o vídeo por 30 dias (mas talvez ele tenha voltado a acessar o serviço do Facebook em Cingapura).

Trata-se de um jogo de gato e rato, e Maria disse que o Facebook não é suficientemente rigoroso no policiamento das regras. Ainda que os executivos tenham sido solícitos individualmente, disse Maria, ela teve dificuldades para lidar com o Facebook, dizendo que este responde lentamente.

“O Facebook é agora o maior distribuidor de notícias do mundo, mas, ainda assim, recusa-se a fazer o papel de porteiro", disse-me ela em uma entrevista recente. “E, ao abrir essa brecha, ao permitir que mentiras participem da mesma plataforma que os fatos, isso mancha toda a esfera pública.” Em algum momento, disse ela, o Facebook precisa “tirar do ar as mentiras".

Como ela me disse no dia 21 de fevereiro, “Uma mentira repetida um milhão de vezes se torna verdade". Mas, nas redes sociais, essa repetição pode chegar aos bilhões de vezes. Maria disse se arrepender de não ter tentado impedir o abuso online mais cedo. “Ignoramos o problema por tempo demais, e essa é a lição que aprendi".

Ela disse que continuaria a tentar trabalhar com o Facebook e outras redes sociais. “É impossível olhar para minha página das redes sociais agora, pois não posso me defender enquanto assisto à implosão da minha reputação", disse ela. Ultimamente, disse Maria, os ataques a ela no Twitter pioraram. E, depois de publicar no Twitter que estava conversando com ela, comecei a ser bombardeada por críticas de usuários chamando Maria de farsante.

Para tentar lidar com tudo isso, Maria disse que pensa muito na prece da serenidade de Reinhold Niebuhr. “Tento me concentrar naquilo que está na minha zona de controle, como garantir que os funcionários estejam em segurança e que tenhamos um negócio para tocar e continuar fazendo o que fazemos", disse ela, com um suspiro cansado. “Não quero ser a notícia.”

Kara Swisher é editora contribuinte do site de tecnologia Recode e produtora do podcast Recode Decode e da Code Conference.

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