Khadija Farah The New York Times
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Jovem queniana se populariza com vídeos de humor sobre quarentena

Suas piadas são compreensíveis para qualquer pessoa presa no carrossel emocional da quarentena

Tariro Mzezewa, The New York Times - Life/Style

20 de setembro de 2020 | 05h00

Centenas de milhares de pessoas querem saber duas coisas sobre Elsa Majimbo. Onde conseguiu seus óculos de sol Matrix? E que tipo de batata chips está comendo? Nos últimos quatro meses, a comediante queniana de 19 anos tem usado óculos escuros e mastigado salgadinhos enquanto se grava fingindo desprezar todos aqueles que se sentem tristes com a quarentena. "Desde que o novo coronavírus começou, estamos todos isolados, e não sinto falta de ninguém. Por que eu sentiria falta de você? Não existe motivo para que eu sinta sua falta", diz ela em um de seus vídeos mais populares no Instagram, rindo antes de falar em suaíli e depois voltar para o inglês.

Uma pausa. "As pessoas continuam me dizendo que 'você não tem participado de desafios do coronavírus, não se cadastrou no Houseparty (aplicativo de bate-papo que permite conversas de vídeo em grupo) ou criou uma conta no TikTok' – não é por engano. Não mesmo", diz ela com um sorriso malicioso, jogando uma batata chip na boca.

Quando ela publicou esse vídeo em 30 de março, Majimbo tinha dez mil seguidores, a maioria deles do Quênia. Houve comentários elogiosos no "The Guardian" e na CNN (e centenas de milhares de novos seguidores). Suas piadas sobre não querer trabalhar, mas querer ser rica; não querer ficar com as pessoas, mas desejar um namorado; não querer entrar no Zoom todos os dias, mas ainda assim ficar conectada, são compreensíveis para qualquer pessoa presa no carrossel emocional da quarentena, não importa em qual país o espectador esteja vivendo.

Majimbo nasceu e foi criada em Nairóbi, onde é estudante de jornalismo. Seu pai, um decorador de interiores, não entende direito a fama repentina da filha na internet, especialmente porque pediu a ela no início deste ano que parasse de fazer postagens, depois de ver um vídeo em que ela sugeria a alguém que publicasse suas fotos nua no Instagram, no Twitter ou no Facebook, para que pudesse seguir os passos de Kim Kardashian rumo à riqueza. (Era uma piada.)

"Meu pai disse: 'Não é assim que uma garota cristã em um lar cristão se comporta', e tentei explicar que era para ser engraçado. Ele retrucou: 'Não estou vendo nada de engraçado nisso. Pare de fazer vídeos desse tipo imediatamente'", contou Majimbo. Ela bloqueou todas as pessoas que seu pai conhecia nas redes sociais e continuou postando. Quando seu pai descobriu em maio que ela era uma sensação viral, ele comentou que não entendia o lado cômico, mas estava feliz por ela.

Em uma entrevista recente por telefone da casa de sua família, Majimbo refletiu sobre a parte mais estranha da recém-descoberta fama na internet: "As pessoas estão obcecadas por batatas chips." Ela disse que compartilhou alegremente que comprou os óculos de sol de um ambulante do lado de fora de sua escola em Nairóbi por U$ 2, mas agora, com tanto interesse pelas batatinhas que come em seus vídeos, ela não tem a menor intenção de contar a ninguém qual o sabor ou a marca delas.

"Vai ser uma grande revelação e vou dizer algo do tipo: 'Esta noite, às 19h, vou revelar quais são as batatas que eu como.' Mas não vou fazer isso tão cedo", brincou ela. Existem muitos desafios em tentar aumentar seu público internacional como uma jovem africana, comentou Majimbo. Mas os últimos meses desaceleraram alguns de seus detratores.

"Sou jovem, sou africana, sou mulher e, ainda por cima, sou negra, portanto as coisas são bem mais difíceis para mim do que para outras pessoas, especialmente os homens. Tem homens – são sempre os homens, não sei por quê – que dizem online: 'Você está na África, por isso não pode fazer comédia aí', o que não é verdade", afirmou ela. Seu iPhone 6 rosa e dourado é seu bem mais precioso, uma ferramenta essencial para sua carreira de comediante. "Trabalhei duro e economizei por seis meses. Que trabalho fiz? Durante seis meses, vendi meu almoço e, quando ganhei o suficiente, fiz um upgrade." (Isso também é uma piada.)

Agora, Majimbo está em negociações com a empresa de cosméticos MAC Cosmetics Africa. Ela trabalhou em dois projetos para o canal Comedy Central. E, à medida que seu público vem aumentando, ela está fazendo alguns ajustes. A maioria de seus vídeos no Instagram costumava ser em inglês e em suaíli, mas agora eles são principalmente em inglês. "Algumas coisas são mais divertidas em suaíli, por isso não vou mudá-las ou tentar traduzi-las", revelou ela.

A boa notícia é que agora ela pode adivinhar o país de um seguidor a partir das palavras usadas. "Os americanos dizem muito 'OMG' ('Oh my God'), os africanos usam a língua materna, os seguidores árabes comentam em árabe, e nunca entendo o que estão dizendo, mas agradeço, e ainda estou tentando descobrir como separar os europeus", disse ela, rindo. As batatas chips não estavam longe do alcance.

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