Erin Trieb para The New York Times
Erin Trieb para The New York Times

Jovem viúva afegã relata o drama de se casar com os cunhados

O Afeganistão considera que é dever dos irmãos casar-se com as viúvas de seus irmãos

Rod Nordland, The New York Times

02 Junho 2018 | 11h15

CABUL, AFEGANISTÃO - Khadija tem 18 anos, um ano mais que a própria Guerra do Afeganistão, e já se casou três vezes, com três irmãos.

Um deles era um insurgente do Taleban, morto em combate com os fuzileiros navais americanos. Outro era policial, e morreu combatendo o Taleban. E outro era um intérprete que trabalhava para os fuzileiros e agora é caçado pelo Taleban.

A história de Khadija e dos três irmãos com quem ela se casou é um relato de guerras e tradições que são tragicamente afegãs. Ela traz o amargo desenrolar da Guerra do Afeganistão em seu ponto mais violento, o reduto do Taleban na província de Helmand, no sul do país.

É também a história das mulheres numa sociedade que luta contra a falta de escolha que sua cultura lhes concede em relação às as próprias vidas. A sociedade pashtun considera que é dever dos irmãos casar-se com as viúvas de seus irmãos, deixando a essas viúvas pouca escolha senão obedecer, ou perder seus filhos e lares.

A jornada de Khadija começou numa comunidade rural do sul chamada Marja. Os agricultores de lá costumam cultivar papoulas para a produção do ópio, pagando impostos regularmente ao Taleban.

Mesmo antes de nascer, Khadija se tornou noiva do primo de primeiro grau, Zia Ul Haq. Seus pais eram irmãos e agricultores que viviam perto um do outro em Marja. Aos 6 anos, Khadija, que tem apenas um nome, como a maioria das mulheres da zona rural afegã, foi casada formalmente com Haq, 15 anos mais velho - embora o casamento só fosse consumado quando ela alcançasse a idade de 11 anos ou a puberdade (o que viesse primeiro), de acordo com a família dela. O casamento infantil é ilegal, mas amplamente tolerado no Afeganistão.

Contudo, antes que isso pudesse ocorrer, um ataque aéreo americano atingiu uma casa próxima onde insurgentes do Taleban estariam escondidos, em 2010. Estilhaços do ataque mataram a irmã do marido dela, Farida, de 8 anos. Após o ataque, Haq se juntou ao Taleban. “Fizeram lavagem cerebral nele", disse o irmão mais novo de Haq, Shamsullah Shamsuddin, 19 anos. “No começo ele foi obrigado a entrar para o grupo, mas, depois, eles o persuadiram.”

De tempos em tempos, o irmão integrante do Taleban vinha visitar. Mas isso se tornou cada vez mais difícil com a chegada de mais fuzileiros a Marja.

Um ano se passou sem notícias do marido de Khadija, até que, certa noite, uma delegação do Taleban chegou com o cadáver dele numa mortalha, entregando-o à família.

Khadija tinha 10 anos e era viúva.

Dois outros irmãos de Haq se tornaram policiais, pois o salário era bom e não havia muitos outros empregos no meio da guerra.

Então, Khadija se casou com um deles: o segundo irmão mais velho de Haq, Aminullah. A decisão coube ao pai dela; a jovem sabia que não tinha escolha.

Aminullah, 22 anos, era um famoso combatente da polícia afegã, disseram seus parentes. “Ele sabia atirar com todo o armamento pesado, e o Taleban tinha medo dele", Shamsuddin disse.

Khadija também elogia Aminullah. “Ele prometeu que, quando voltasse para casa, tiraria minha burqa, e me traria roupas bonitas, e teríamos uma vida boa", disse ela. “Era um bom homem, e um bom marido”.

Ele também era muito dedicado à causa do governo, contou Khadija. “Ele dizia, ‘Jamais abandonarei meu país a eles; vou combatê-los enquanto houver sangue no meu corpo’. Sempre que ele saía, eu ficava olhando para a porta até ele voltar”.

Ela estava grávida da filha do casal quando Aminullah não voltou, em 2014. Foi morto numa estrada por um explosivo.

“Eu o perdi, e pensava, ‘Como isso pôde me acontecer?’. “Mas é a decisão de Deus, e não posso dizer nada”, lamentou.

Shamsuddin disse que a família deixou Marja e se mudou para Lashkar Gah. Aos 14, Khadija deu à luz sua filha, Roqia. Depois de esperar os quatro meses e dez dias estipulados pelo Alcorão após a morte de Aminullah, Khadija se casou com Shamsuddin em 2015.

Shamsuddin, que aprendeu inglês com os soldados americanos, trabalhou como intérprete para os fuzileiros navais. O trabalho chegou ao fim quando os Marines deixaram o Afeganistão, em 2013. Hoje, Shamsuddin ganha US$ 5 por dia como motorista de riquixá.

Khadija e Shamsuddin tiveram juntos um filho, Sayed Rahman, de 1 ano. O Taleban sabe o número do celular de Shamsuddine telefona com frequência, disse ele. “Eles dizem que vão matar a mim e a Sayed Rahman.”

“Minha mulher é muito forte. Outra pessoa não teria sobrevivido como ela sobreviveu", contou Shamsuddin. “Ela não espera muito de mim; financeiramente, não tenho muito a oferecer, apenas boas palavras e bom comportamento. Embora eu acredite que os homens devem bater nas mulheres quando elas não escutam, eu nunca tive que bater nela”. Segundo ele, casar-se com a viúva de um irmão morto é uma responsabilidade triste. “Quando olho para ela, sempre vejo meu irmão”.

A tristeza também foi forte para Khadija.  “Certa vez eu tive sonhos, mas não posso contá-los a ninguém, pois sou uma mulher", disse ela. “Já sonhei em estudar e me tornar uma mulher letrada, para caminhar com as próprias pernas, mas, na minha cultura, isso não é possível. Agora, meu maior sonho é que este marido não seja morto pelo Taleban. Peço a Deus que o proteja”.

Mas, para Khadija, seu coração estará para sempre com Aminullah. “Nenhum homem me beijou além dele", explicou. “Agora só posso beijar meu filho”. Ao pensar em Aminullah, a respiração fica difícil, disse ela. “Choro quando estou sozinha”. / Fatima Faizi contribuiu com a reportagem.

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