Brian ReaThe New York Times
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Jovem volta ao orfanato vietnamita que, durante 25 anos, tentou esquecer

Kacey passou por traumas familiares no Vietnã e foi adotado por família dos Estados Unidos; mais de duas décadas depois, ele retorna para seu país

Kacey Vu Shap, The New York Times - Life/Style

09 de agosto de 2020 | 05h00

O portão do orfanato era menor, pelo que me lembro. Quase 25 anos se passaram desde que o deixei. E me perguntei se retornar ali era uma boa ideia. Meus melhores amigos, Phu, Francis e Will haviam planejado uma viagem ao Vietnã e me convidaram para ir junto com eles. Eu os conheci 15 anos antes quando estava na escola. Eles agora estavam na faculdade e fundaram um grupo de apoio para jovens gays asiáticos.

Nesta ocasião, eu usava luzes no cabelo, lentes de contato azuis e camisetas da Abercromble & Fitch com jeans largos. Phu e Francis achavam que eu exagerava, mas deixaram que os acompanhasse. Hoje eles se tornaram meus irmãos superprotetores. Meus amigos sabiam que vivi num orfanato perto da cidade de Ho Chi Minh e sugeriram visitarmos o local durante nossa viagem. Mais do que isto, eles realizaram uma campanha no Kickstarter para arrecadar dinheiro para os órfãos que ali viviam.

Sabia que era uma ideia maluca. Iríamos partir dentro de uma semana. E eu não queria voltar a um local que passei a maior parte da minha vida tentando esquecer. “Esta é uma oportunidade única”, disse-me Francis. “Você não vai estar sozinho. Estaremos juntos com você”. Eles conseguiram me convencer e em questão de dias arrecadamos mais de US$ 5 mil para comprar roupas, brinquedos e outros artigos básicos.

Na semana seguinte, quando descarregamos as doações de um caminhão alugado e nos dirigimos para o orfanato, fomos recebidos por rostos pequenos e mãos raquíticas que se estendiam para nós. Como era estranho o fato de uma vez ter estado entre esses rostos ansiosos disputando a atenção de um estranho.

Na época em que lá vivi, o grande prédio estava dilapidado, as paredes brancas sujas, avariadas. Mas depois foi reformado e ampliado. Entretando uma coisa permaneceu: o cheiro característico do talco para bebês, de suor, urina, decadência, desespero.

Embora eu tivesse cinco anos de idade quando cheguei a esse orfanato, era muito pequeno para me alojar com crianças mais velhas e muito grande para ficar na ala dos bebês, de modo que fui colocado ao lado de crianças com deformidades, membros amputados ou doentes mentais. As lembranças voltaram à minha mente enquanto caminhávamos pelo prédio. Meus olhos começaram a inchar, meu coração a bater e a ansiedade tomou conta de mim. Não demorou para eu tentar fugir do local, com meus amigos atrás, me chamando.

Quando criança, como contava às pessoas, fui adotado. Eu costumava dizer que fui pré-fabricado. Simplesmente apareci numa noite de verão no aeroporto de Baltimore e fui recebido por minha mãe, meu pai e minha irmã, com doces, flores e beijos. Era mais fácil suavizar minha história falando somente da minha vida como Kacey, uma pessoa amada e querida, do que falar para as pessoas da minha vida como Vu, que foi uma criança abandonada e indesejada.

Nunca soube da minha mãe biológica, que morreu quando eu tinha dois anos durante o parto do meu irmão. Também não soube do paradeiro do meu pai biológico, um trabalhador imigrante que nunca apareceu. Quando tinha cinco anos de idade, minha irmã mais velha morreu afogada em um rio perto da casa da minha avó. Eu estava a alguns passos quando a vi se afogando na água lamacenta. Eu a convidei para brincar no rio com outras crianças, mesmo com minha avó proibindo, só permitindo quando estivesse perto. Nesse dia, eu queria ter me afogado no lugar dela.

Mais tarde apenas eu e minha avó vivíamos juntos num vilarejo pobre na zona rural, ao sul do Vietnã. Eu a acompanhava onde ela fosse, adorava ficar ao seu lado na cozinha. Temperos exóticos misturados com a carne temperada e as ervas frescas nos envolviam no seu delicioso abraço enquanto eu a interrogava sobre nosso assunto favorito: minha mãe. “Vovó, a senhora acha que minha mãe era parecida comigo?”.

“Claro. Quem você acha que deu à sua mãe esses traços tão belos?” E ela sorria, a boca sem dentes. Depois parava de cortar os vegetais e dizia: “vou lhe contar um grande segredo. Sua mãe era a minha favorita de todos os meus filhos. Ela sempre fazia as pessoas rirem. Quero que você seja bom, como sua mãe. Ok?” “Ok”, respondia.

Depois da morte da minha irmã, soube que meu pai também morrera e não demorou para minha avó me mandar arrumar minha mala para uma viagem. Fiquei entusiasmado pois nunca havia viajado antes. E acabamos chegando num grande edifício branco repleto de crianças. Depois de visitar o local minha avó pareceu vacilar em me deixar ali. Mas finalmente ela se abaixo e me disse: “Vou para casa, mas você vai ficar aqui”. Fiquei ali, diante dela, paralisado.

Ela passou suas mãos no meu rosto, sua face colada na minha, seus olhos repletos de tristeza. Tirou um lenço florido do pescoço e colocou em mim. Era seu lenço favorito, tinha um perfume familiar. E depois se levantou e partiu, sem olhar para trás. Quis segui-la, mas mãos fortes me agarraram. Gritei, implorei para ela me levar de volta para casa. Passei dias na entrada do orfanato, esperando que ela retornasse.

Alguns meses depois um casal judeu do Norte da Virgínia estava nos estágios finais de uma adoção que fracassou. Devastados, quase desistindo, eles receberam minha foto de uma agência de adoção e decidiram me adotar. Um processo difícil que durou dois anos. Eu não sabia absolutamente nada da minha adoção até o dia em que fui levado ao aeroporto. E vim a saber depois que, das centenas de crianças no orfanato, apenas algumas iam para os Estados Unidos. Muitas eram bebês. Eu tinha sete anos de idade.

Vinte e cinco anos se passaram desde que minha avó me deixou lá naquele dia. Ainda tenho comigo o lenço dela, que carrego onde vou, mas o perfume evaporou. Há tantas coisas que gostaria de contar a ela sobre a minha vida americana, meus pais adoráveis, os amigos, o cachorro, o apartamento de Los Angeles e meu diploma em psicologia social. E tantas perguntas que gostaria de fazer a ela.

Quando contei às pessoas que fui adotado não falei sobre o dia em que fui abandonado, temendo que meus amigos e família achassem que eu não tinha nenhum valor para merecer o que tinha agora. Hoje meus amigos tiveram conhecimento. E souberam. Quando saíram do orfanato e me encontraram no portão, perguntaram porque eu havia partido de modo tão abrupto. “Sabia que quando vissem meu orfanato vocês iriam me menosprezar e não seriam mais meus amigos”, disse.

“Sério?”, disse Phu. “Atravessamos o planeta, ficamos cobertos de picadas de mosquitos, ensopados de suor, e você está preocupado de que podemos menosprezá-lo? Já fomos submetidos a coisas piores: Kacey está sempre atrasado, Kacey é meio arrogante, Kacey vai atrás de homens emocionalmente inacessíveis. Se tudo isso não nos assustou, nada o fará”. Meus amigos me cercaram e me abraçaram calorosamente.

“Você é nossa família”, disse Francis. “Nós o amamos. Além disto, ser seu amigo é como pegar herpes. É muito contagioso, facilmente tratável, mas impossível de se livrar dele. E estamos tratando isto há mais de 15 anos”. E Will disse: “talvez sua avó realmente o amasse. Talvez o fato de deixá-lo tenha sido seu último ato de amor, para você ter a chance de uma vida melhor”. Sempre me pergunto: ela me deixou porque eu era um peso ou para me poupar de uma vida brutal de pobreza?

Meus amigos, quando já estávamos fora do orfanato, me disseram que haviam descoberto o último endereço conhecido de minha avó nos arquivos do orfanato. Talvez ela ainda estivesse lá e ficava a 30 minutos dali. Se ela ainda estivesse vivendo lá, eu teria a resposta. Pensei nisto e no amor e no apoio dos meus amigos, da minha família e outras pessoas que tornaram isso possível.

“Não, não preciso do endereço. Vamos embora. Por uma vez decidi não ser definido pelo meu abandono. E assim, deixamos o orfanato e fomos para Ho Chi Minh, onde o doce aroma de porco assado se misturava com as risadas das crianças brincando, correndo uma atrás da outra, como se as ruas fossem um enorme playground.

TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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