Jim Huylebroek/The New York Times
Jim Huylebroek/The New York Times
Thomas Gibbons-Neff e Fatima Faizi, The New York Times - Life/Style

01 de janeiro de 2021 | 05h00

CABUL, AFEGANISTÃO – Tiros de rifle, passos apressados e explosões distantes. Barulho de tiroteio. Carros destroçados por granadas. O jovem estava paralisado. Poderia ter sido qualquer dia em Cabul, onde os assassinatos encomendados, os ataques terroristas e a violência desenfreada se tornaram rotina, e a cidade muitas vezes parece estar sob cerco.

Mas, para Safiullah Sharifi, sentado em uma varanda empoeirada no bairro de Qala-e Fatullah, a morte e a destruição se desencadeavam no seu celular, que ele segurava na horizontal. "Na sexta-feira, jogo desde a madrugada até por volta das quatro da tarde. E quase toda noite, das oito às três da manhã", disse Sharifi, de 20 anos, com um sorriso malicioso, como se soubesse que estava detalhando a rotina de um vício a um transeunte.

Sua mão esquerda tem a tatuagem de uma caveira no chapéu de um bobo da corte, imagem sombria compensada por seu comportamento desengonçado e jovial. O jogo se chama PlayerUnknown Battlegrounds, mas, para seus milhões de jogadores em todo o mundo, não importa o idioma, é referido como PUBG. Violento, está sendo jogado amplamente em todo o Afeganistão, quase como uma fuga da realidade, enquanto a guerra de 19 anos continua.

No jogo, o participante cai em um grande terreno, encontra armas e equipamentos e mata todos os outros, que também são pessoas jogando. A vitória é da última pessoa ou equipe em pé. Isso torna sua crescente popularidade no Afeganistão peculiar, uma vez que pode quase descrever o estado da guerra – apesar das negociações de paz em andamento no Catar. Mesmo com o fim da guerra parecendo cada vez mais indefinível, os legisladores afegãos estão tentando proibir o PUBG, argumentando que ele promove a violência e distrai os jovens de seus trabalhos escolares.

Mas Sharifi riu da menção da proibição proposta, sabendo que poderia contorná-la facilmente instalando um software em seu telefone. Ele contou que usa o jogo para se comunicar com os amigos e, às vezes, para falar com as meninas que também jogam. Isso por si só é um feito notável, já que apenas nos últimos anos as redes de celular do Afeganistão se tornaram capazes de fornecer os dados necessários para jogar, por exemplo, o PUBG, e para uma pessoa se comunicar com outras simultaneamente.

Os centros de jogos se popularizaram em Cabul nos anos posteriores à invasão dos Estados Unidos, em 2001, uma vez que esta reverteu a proibição do Taleban de entretenimento, incluindo videogames e música. Mas o PUBG e outros jogos para celular estão usurpando esses itens básicos porque podem ser baixados em um smartphone, e de graça, em um país onde 90% da população vive abaixo da linha de pobreza.

Às vezes, os jogadores pagam a um fornecedor local para baixar o jogo, solução alternativa para evitar a tributação de planos de dados limitados e frequentemente caros para telefones. Isso custa apenas 60 centavos de dólar. Abdul Habib, de 27 anos, dirige uma sala de videogame em Cabul Ocidental, que oferece principalmente jogos de futebol. É um espaço do tamanho de um closet no piso inferior de um shopping center, com TVs, sofás e Playstations.

Existem outras casas de jogos no shopping, separadas por portas e diferentes proprietários, mas conectadas por luzes de neon e um átrio mal iluminado onde os jovens correm de um lado para outro em busca de um sofá e controles. Uma barraca de lanches vende sanduíches de linguiça. "Se você não pode lutar na guerra real, pode fazer isso virtualmente", observou Habib a respeito dos videogames violentos, incluindo o PUBG.

Ele aluga seu espaço há quatro anos. Normalmente, mais de cem pessoas frequentam o local por dia. Há uma mistura de crianças, adolescentes, pais e adultos que pagam cerca de 65 centavos de dólar para brincar por uma hora. Mas seu negócio foi duramente atingido nos primeiros meses da pandemia do coronavírus, quando fechou por dois meses – bem como dezenas de outras casas de jogos em Cabul. Foi quando o PUBG virou uma grande atração.

Agora, sua popularidade está afetando os negócios de Habib e de outras empresas do setor. Abdullah Popalzai, de 20 anos, tem o próprio negócio de jogos em frente à casa de Sharifi. É uma pequena loja, com portas de enrolar, gerador, quatro TVs, quatro Playstations e uma mesa velha de pebolim.

"Eu costumava ganhar 800 afeganes por dia", contou Popalzai. Isso corresponde a cerca de US$ 10. "Agora, mal tenho o suficiente para conseguir pão e comida para a família." Mohammad Ali, de 23 anos, vê o PUBG como uma fuga. Inclinando-se para fora da saleta de Habib, apontou para os fones de ouvido em volta do pescoço, comprados especificamente para jogar PUBG, com o objetivo de mergulhar no jogo com seus amigos.

"Fico tão ocupado com o jogo que me esqueço do mundo. Isso me distrai da cidade, dos ataques, dos roubos, dos ladrões e do crime", disse ele. Para Mohammad Akbar Sultanzada, presidente da Comissão de Transporte e Telecomunicações do Parlamento Afegão, o problema do PUBG não é apenas sua violência. Ele afirmou que o jogo também invadiu as já tensas salas de aula do país, frequentemente ameaçadas e com falta de pessoal.

O PUBG foi proibido no Iraque no ano passado por motivos semelhantes. "Pode ser muito negativo para a saúde mental das crianças. Sinto que incentiva e normaliza a violência e faz com que elas se tornem parte disso", opinou Freshta Karim, diretora da Charmaghz, organização sem fins lucrativos de Cabul, e ativista educacional.

As influências externas, inclusive na educação, são frequentemente menosprezadas entre os afegãos, mas os altos níveis de analfabetismo deixaram a população vulnerável a isso. Na década de 1980, os Estados Unidos forneceram a crianças afegãs milhões de livros didáticos que promoviam a violência por meio de textos e imagens que apresentavam conversas sobre jihad e armas de guerra como formas de ajudar a aprender o alfabeto e a matemática básica.

Mas o PUBG não é distribuído nas salas de aula. É jogado sob as carteiras escolares, nos pátios e, quando algumas crianças faltam à escola, nas esquinas. Muitas pessoas dizem que, se o jogo for banido, elas simplesmente recorrerão às redes privadas virtuais e continuarão jogando. "Se não querem que as pessoas sejam violentas, deveriam parar a guerra no campo de batalha", argumentou Habib, o proprietário do espaço de videogames.

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