Nana Kofi Acquah para The New York Times
Nana Kofi Acquah para The New York Times

Jovens africanos se dedicam à agricultura para mudar comportamentos 

Agricultores de Gana estão ficando velhos, enquanto os jovens rumam em massa para as cidades em busca de trabalho em meio ao desemprego

Sarah Maslin Nir, The New York Times

08 de junho de 2019 | 06h00

AGOTIME BEH, GANA - Depois de se formar na universidade, Vozbeth Kofi Azumah relutou em contar aos outros como pretendia ganhar a vida. “Sou um agricultor", disse ele em uma tarde recente. “Aqui, isso é motivo de constrangimento". Em partes do mundo, os agricultores são vistos com respeito. Mas, em uma região onde a maior parte da agricultura ainda é voltada para a subsistência, o trabalho agrícola é sinônimo de pobreza. Azumah é parte de um crescente número de jovens africanos com ensino superior que lutam para profissionalizar a agricultura. Estão aplicando abordagens científicas e aplicativos de processamento de dados não apenas para aumentar o rendimento, mas também mostrar que a agricultura pode ser lucrativa. Identificam-se como “agroempreendedores”.

Redes de distribuição à espera do desenvolvimento, estradas precárias e o inconstante fornecimento de água são obstáculos difíceis até para o mais competente dos agricultores, e muitos desses aspirantes têm pouco treinamento e experiência. Entretanto, esperam ao mesmo tempo ganhar dinheiro e enfrentar o bizarro cálculo que envolve um continente que abriga cerca de 65% das terras mais férteis e não cultivadas do mundo, mas que importa anualmente mais de US$ 35 bilhões em alimentos, de acordo com relatório do Banco de Desenvolvimento Africano.

Em Gana, eles receberam apoio do governo, que está no meio de um ambicioso plano nacional de implementação para ampliar a capacidade agrícola e atrair os jovens de volta às fazendas. Como ocorre em boa parte do continente, os agricultores de Gana estão ficando velhos, enquanto os jovens rumam em massa para as cidades em busca de trabalho em meio ao galopante desemprego entre os jovens.

Alguns jovens agricultores deixaram para trás empregos confortáveis. Tendem a ser pessoas com recursos para comprar ou arrendar terras substanciais, e suportar um eventual prejuízo. Seu trabalho é sublinhado pela ideia segundo a qual o que está em jogo é o futuro econômico da África. “Temos que tornar a agricultura atraente", disse Emmanuel Ansah-Amprofi, enquanto trabalhadores da sua fazenda em Gomoa Mpota plantavam mudas de mandioca em fileiras organizadas.

Ansah-Amprofi, de 39 anos, trabalhava com direito e imigração quando se deu conta que comprava cebolas da Holanda. “Como é possível que, com toda essa terra, clima favorável e incontáveis recursos hídricos, ainda tenhamos que importar cebolas?”, questionou. Dois anos depois, em 2016, ele fundou uma fazenda cultivando frutas e legumes, e ajudou a financiar o aplicativo Trotro Tractor, que permite aos agricultores encontrar e alugar tratores compartilhados.

Para Azumah, de 27 anos, o futuro está nos ratos gigantes. E nos caracóis gigantes. Ambos são iguarias locais, e costumam ser caçados no ambiente silvestre. Ele enxergou uma oportunidade: reprodução em cativeiro. Quando contou isso à mãe, Martha Amuzu, ela chorou. “Minha expectativa era de que ele se aprofundasse nos estudos, trabalhando em um escritório e vestindo terno e gravata", lembrou.

O filho dela transformou um antigo terreno usado para a agricultura de subsistência na West African Snail Masters [Mestres do caracol da África Ocidental]. Começou com 500 caracóis de terra recolhidos da floresta. Em uma tarde recente, ele caminhava pelas gaiolas, testando a acidez e umidade do solo. Em outro edifício, ele cria ratos.

Quando a mãe viu os métodos modernos usados pelo filho, ela reconheceu o valor da ideia dele. “Há pessoas trabalhando em escritórios e ganhando muito menos", comparou. Embora cerca de 60% da população da África tenha menos de 24 anos, a média de idade dos agricultores é 60 anos, de acordo com a Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação. De acordo com os especialistas, na ausência de uma intervenção, a África corre o risco de não ter quem substitua seus agricultores quando estes morrerem.

Ao mesmo tempo, o rendimento das colheitas é apenas 20% ou 30% do que poderia ser produzido, de acordo com pesquisas. A maioria dos agricultores da África Subsaariana cultiva menos de 1,25 acre. Muitos deles mal conseguem alimentar as próprias famílias. Depois que o presidente Nana Akufo-Addo assumiu o cargo em 2017, Gana fez da elevação da produtividade do setor agrícola uma iniciativa central. Mais de 2.700 trabalhadores foram mobiliados para ensinar aos agricultores práticas mais eficientes. No ano passado, o governo distribuiu 9,3 milhões de mudas para promover a diversificação do cultivo.

Richard Nunekpeku, de 34 anos, quer mostrar o que um agroempreendedor é capaz de fazer. Cinco anos atrás, ele abandonou um emprego de bom salário como gerente de marketing internacional da Samsung para criar gansos, cultivar cereais e legumes por meio de uma cooperativa. No primeiro ano, ele investiu quase US$ 80 mil no plantio do milho - mas uma seca acabou com a colheita. Ele obteve renda de apenas US$ 8 mil. Nunekpeku recomeçou, contratando pesquisadores para avaliar o solo e comprando fertilizante, além de investir na irrigação de alta tecnologia. Tudo indica que este ano ele sairá do prejuízo pela primeira vez.

E Nana Adjoa A. Sifa, de 31, formada em psicologia, tornou-se agricultora depois de anos trabalhando para envolver jovens e mulheres na atividade rural. “Quero transformar as mentalidades, e a própria África", afirmou. “Se fracassarmos, isso significará que a indústria fracassou. Significará que falhamos com muitos jovens”. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

 

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