Hilary Swift para The New York Times
Hilary Swift para The New York Times
Hilary Swift, The New York Times

16 de junho de 2019 | 06h00

LEH, ÍNDIA - Mais de 3.350 metros acima do nível do mar, um grupo de 30 mulheres assumiu posição e começou a trabalhar na limpeza de um ringue de patinação descoberto. Armadas com pás, esfregões feitos de pequenos galhos e tacos de hóquei, elas limparam a superfície do Novo Ringue após a tempestade de neve que tinha caído durante a noite.

Depois da limpeza, chegou o momento da seleção feminina de hóquei no gelo da Índia começar o que as jogadoras chamam de “acampamento". Durante 15 dias, 20 jogadoras da seleção nacional e 10 aspirantes treinaram em Leh, remota cidade do Himalaia com aproximadamente 31 mil habitantes. Estavam se preparando para a Copa Desafio da Ásia, realizada este ano em Abu Dhabi em abril.

Elas sonham em disputar a Olimpíada, mas a Copa Desafio, único torneio internacional do qual o time participou, é para os países da divisão mais baixa da Federação Internacional de Hóquei no Gelo. Este ano, a Índia participou ao lado de Filipinas, Kuwait e Emirados Árabes Unidos.

De acordo com a federação, há 311 jogadoras na Índia, que tem apenas cinco ringues cobertos. “Até os nossos parentes comentam, ‘O que estão fazendo? Arranjem um emprego de verdade’”, disse Diskit Angmo, 22 anos, participante do acampamento. A maior parte das jogadoras da seleção nacional é de Leh ou outras partes da região de Ladakh, às vezes chamada de Pequeno Tibet. Apenas uma delas é da cidade grande. Suas idades variam entre 15 e 29 anos, e todas são estudantes, com exceção de duas delas. A equipe começou a disputar partidas em 2016.

O ringue onde elas treinam está entre os dois que foram abertos no ano passado. Quando Adam Sherlip, ex-técnico de times masculinos que ajudou a equipe feminina, veio à região em 2009, havia apenas três ringues de gelo e pouco interesse. Agora, ele diz, “no inverno, as pessoas só querem saber do hóquei".

O secretário-geral da Associação de Hóquei no Gelo da Índia, Harjinder Singh, disse que o esporte era “um ímã para a reunião entre os jovens", especialmente nos meses de inverno, quando todas as estradas que saem e chegam a Leh ficam fechadas por causa da neve.

Meses antes, as integrantes da seleção feminina viajaram até o Canadá para um festival organizado por Hayley Wickenheiser, dona de quatro ouros olímpicos. As jogadoras conheceram Wayne Gretzky, Connor McDavid e Jujhar Khaira, o único jogador da Liga Nacional de Hóquei (NHL) de ascendência indiana.

“Como jogadora de hóquei, vir ao Canadá é um sonho", disse Diskit. “Tive que me beliscar quando vimos Gretzky e McDavid. Eu pensava, ‘Não pode ser verdade’.” Em 2017, Hayley viu um vídeo das mulheres jogando com as montanhas mais altas do mundo acima delas. Em janeiro de 2018 ela viajou até Ladakh com Andrew Ference, diretor de impacto social da NHL. “É como jogar hóquei no paraíso", disse ela.

Os canadenses trouxeram 100 malas cheias de equipamento de hóquei. Como o hóquei no gelo é jogado em poucas partes da Índia, o governo não o reconhece como um esporte nacional oficial, e não oferece muito apoio. “Estamos engatinhando ainda", disse Rinchen Dolma, 28 anos, que joga como ala.

Nenhuma das atletas, treinadoras e técnicas da equipe recebe compensação. Noor Jahan, 28 anos, goleira do time, disse que o avanço mais importante seria a construção de um ringue onde as jogadoras pudessem treinar o ano todo. Estradas intransponíveis no inverno afetam a dieta da equipe; torna-se difícil encontrar legumes e carne fresca.

Enquanto a primavera não chega, o time come lentilhas e arroz. A Índia esperava vencer a Copa Desafio, mas perdeu suas duas primeiras partidas. A equipe encerrou sua participação derrotando o Kuwait pelo placar de 11 a 0, sua terceira vitória em competições internacionais.

Noor disse que, para ela, disputar uma olimpíada seria “um sonho grande demais para o momento". Em vez disso, ela pensa em ser técnica de uma equipe olímpica no futuro. “Somos a primeira geração de jogadoras de hóquei", disse Noor. “E, como sempre digo, não seremos as últimas a jogar.” / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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