Anush Babajanyan para The New York Times
Anush Babajanyan para The New York Times

Jovens trabalhadores do setor tecnológico lideram a revolta na Armênia

Armênios usaram a desobediência civil para derrubar um regime cada vez mais autocrático

Neil MacFarquhar, The New York Times

24 Maio 2018 | 15h00

YEREVAN, Armênia - Lilit Petrosyan,  26 anos, estava muito ocupada, com o emprego de desenvolvedora de recursos para o PicsArt, um aplicativo de sucesso internacional usado para manipular fotografias na mídia social.

Seus pais porém a aconselhavam a seguir o caminho das jovens armênias, há décadas: usar o próprio sucesso para obter um visto de imigração e sair do país.

“Eu sempre dizia: ‘Não, não quero viver em outro país’”, contou Lilit. “Prefiro mudar este país para melhor”.

Sua chance chegou quando aderiu ao movimento de centenas de milhares de outros jovens que protestavam para derrubar o partido governista nas semanas anteriores à eleições de 8 de maio.

Os armênios abaixo dos 30 anos, conhecidos como a Geração Independente, porque a maioria deles nasceu depois que o país se separou da União Soviética em 1991, constituem a espinha dorsal dos protestos. Os que trabalham no setor tecnológico mostraram-se particularmente eficientes em seu apoio às manifestações.

Eles usaram aplicativos de mensagens como o Telegram para coordenar os protestos. Confundiram o trânsito organizando uma circulação interminável de pedestres nos cruzamentos. Doaram dinheiro para um sistema de som e água na Praça da República, o centro dos protestos.

Os trabalhadores deste setor afirmaram que se deram conta de que agindo em uníssono poderiam finalmente pôr fim ao asfixiante controle do partido único sobre o governo e a economia herdado da União Soviética.

“A nova geração nunca viu o comunismo; ela não cresceu com as imagens de Lenin, Stalin ou Brezhnev”, disse Arsen Gevorgyan, 44, fundador de uma empresa de software, a SFL. “A nova geração é mais ativa. Ela viu a internet, viu a Europa, viu a democracia”.

O de tecnologia é um setor florescente, com pelo menos 10 mil funcionários bem pagos, em uma economia que de outro modo estaria estagnada. Os que trabalham nele acreditam que dispõem de prestígio suficiente para fazer avançar suas reivindicações de democracia.

“Ele ajudou a convencer outras pessoas, que disseram: ‘Se estes caras da tecnologia vão sair, por que nós vamos continuar em cima do muro?’”, disse Maria Titizian, editora chefe da “EVN Report”, uma revista online.

Não foi fácil explicar para as companhias estrangeiras que os funcionários precisavam abandonar o trabalho para protestar, porque elas tinham projetos para concluir. “É difícil dizer para elas: ‘Vocês sabem que há uma revolução aqui, nós não podemos trabalhar esta semana’ ”, disse Vahe Evoyan, 30, físico que se dedica à área de programação.

Mas as manifestações foram crescendo, muitos trabalhadores do setor de tecnologia reconheceram que tinha chegado o momento: ou agora ou nunca. “A gente se deu conta de que precisava cuidar do seu futuro”, disse Armine Hakobyan, 26, especialista em marketing digital da SFL.

Nikol Pashinyan, o líder dos protestos que foi eleito primeiro-ministro este mês, pediu uma campanha de desobediência civil, e os trabalhadores do setor tecnológico traduziram a ideia na linguagem da internet. Eles compararam a sua estratégia a um “blockchain”, a tecnologia por trás das moedas online, ou  a um ataque de negação de serviço que quebra um site.

O governo ajudou respondendo de maneira desastrada aos protestos, que começaram o dia 17 de abril quando Serzh Sargsyan, presidente desde 2008, tentou driblar os limites de mandato tornando-se primeiro-ministro sob uma nova Constituição que transferia a maior parte do poder político ao seu gabinete. Ele advertiu que poderia repetir a repressão das manifestações do dia 1º de março de 2008, quando os soldados abriram fogo contra os manifestante depois que  muitos declararam fraudada a eleição que dava a vitória a Sargsyan. Dez pessoas morreram.

Como muitos dos jovens da sua idade  que ficaram traumatizados com o derramamento de sangue há dez anos, Lilit se revoltou com a ameaça, e se sentiu mais disposta a protestar do que nunca.

“Desde o primeiro dia que sai às ruas, compreendi que algo muito poderoso estava acontecendo”, afirmou.

As administrações de várias companhias, pequenas e grandes, olhando as mesas vazias, curvaram-se ao inevitável.

No dia 19 de abril, a SFL ajudou a criar uma sala de conversas privada no Telegram para discutir as táticas. No fim da noite, havia 800 membros representando cerca de 20 companhias de tecnologia, e um plano para bloquear simultaneamente as ruas às 11 horas da manhã seguinte.

As companhias com centenas de funcionários como a Synopsys e a PicsArt deram folga aos trabalhadores, assim como firmas menores.

Os manifestantes ficaram extasiados com o sucesso e muitos afirmaram que queriam manter aquela sensação de efervescência com a possibilidade de mudança.

Acima de tudo, eles permaneceram na Armênia em vez de fazer planos para emigrar.

“Eu desejava que o meu país  fosse o lugar em que eu quero viver”, disse Vigen Sargsyan, um desenvolvedor da Inomma, de 37 anos. “Basicamente, nós atingimos o nosso objetivo”.

O exército dos trabalhadores da área de tecnologia possibilitou a revolta da Armênia.

Usando aplicativos para organizar os protestos contra um governo unipartidário.

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