Christinne Muschi para The New York Times
Christinne Muschi para The New York Times

'Sair do armário me aproximou de Deus', diz rabina lésbica

Em vez de abandonar sua vocação, ela optou por aderir ao movimento Reforma Judaica

​Dan Bilefsky, The New York Times

23 de agosto de 2019 | 06h00

MONTREAL - Quando Lisa Grushcow, primeira rabina declaradamente gay de um grande sinagoga no Canadá, estava se preparando para começar os estudos religiosos, ela se viu diante de uma difícil escolha: amar ou servir a Deus. O mundo dela virou de cabeça para baixo no fim dos anos 1990, quando estudava religião em Oxford graças a uma bolsa de estudos Rhodes, e se apaixonou por uma mulher. Isso era um problema: a escola religiosa conservadora que ela pretendia frequentar não ordenava rabinos declaradamente gays.

Em vez de abandonar sua vocação, ela optou em vez disso por aderir ao movimento Reforma Judaica - uma denominação progressista que aceita rabinos gays e o casamento entre pessoas do mesmo sexo. “Sair do armário”, disse ela, “me aproximou de Deus”. “Foi a primeira vez na minha vida em que ser boa no que faço e esforçada não foram o suficiente para abrir as portas", disse a rabina de 44 anos. “Ao seguir minha vocação e ser fiel a mim mesma, assumi as duas partes essenciais da minha identidade.”

Agora divorciada, envolvida em um novo casamento, com duas filhas e uma terceira a caminho, ela disse que as lutas que enfrentou ajudaram a moldar sua abordagem inclusiva para o judaísmo quando trabalhou em Manhattan e no seu cargo atual de rabina principal do Templo Emanu-El-Beth Sholom, de 137 anos, uma vasta sinagoga da reforma no chique bairro de Westmount, em Montreal.

Apontada como “uma das rabinas mais inspiradoras da América do Norte” pela influente publicação judaica The Forward, ela editou um influente livro a respeito do judaísmo e da sexualidade, trabalha para a melhoria das relações entre judeus e muçulmanos no Canadá, e orienta judeus gays, bissexuais e transgênero do México até Terra Nova e Labrador.

E ainda que o judaísmo tenha uma longa história de pioneirismo na igualdade - a primeira rabina, Regina Jonas, foi ordenada em Berlim em 1935, e o movimento da Reforma defendeu formalmente a ordenação de sacerdotes gays em 1990 - a rabina Grushcow desempenha um papel de protagonismo ao romper o que ela chama de “teto de vitral” no Canadá, onde as rabinas de destaque ainda são uma raridade.

Ela observou que, em uma religião historicamente patriarcal, “as pessoas esperam que o rabino seja um representante de Deus, que eles imaginam como um sujeito barbudo sentado em uma nuvem - não é essa a minha aparência". “Sendo uma rabina lésbica, divorciada e mãe foi algo que aprofundou meu entendimento da experiência humana", acrescentou ela. “Consigo me identificar com uma gama maior de situações.”

Nascida em Ottawa em uma família judaica conservadora e criada em Toronto, a rabina Grushcow diz que a mãe, consultora de investimentos, e o pai, dono de uma empresa de software, inspiraram nela desde cedo a sensação de que as meninas podem fazer qualquer coisa. Ainda assim, ela se lembra de ler aos 8 anos uma passagem da Torá que descrevia a homossexualidade como “abismo da depravação” e sentir uma pontada ao entender que a escritura “se referia a mim".

Depois de estudar ciência política na Universidade McGill, em Montreal, ela estudou judaísmo e cristianismo no mundo greco-romano em Oxford, onde obteve seu doutorado. Em 2001, casou-se com a primeira mulher, uma estudante de religião; dois anos mais tarde, a rabina Grushcow foi ordenada pelo Hebrew Union College-Jewish Institute of Religion, em Nova York.

Ao se formar, ela aderiu à Congregação Rodeph Sholom, conhecida sinagoga ligada à reforma em Nova York, com 1.600 famílias. Ela permaneceu com o grupo por quase uma década. Um ano depois de se mudar para Montreal em 2012, seu primeiro casamento ruiu. Ela disse ter compreendido melhor que o divórcio tem seus próprios “estágios de luto". 

A rabina Grushcow se viu em um malabarismo para manter o trabalho de rabina e ser a principal cuidadora das duas filhas pequenas, hoje com 9 e 15 anos. “Posso fazer um sermão a respeito do Yom Kippur para um público de mil pessoas", disse ela. “Mas, quando voltou para casa, as crianças não me dão ouvidos.” Ela conheceu a segunda mulher, Shelley, na internet. Shelley, 39 anos, foi a primeira pessoa a quem ela escreveu no site, e as duas partilhavam o amor pelos sebos e a dança de salão. As duas se casaram no ano passado.

A rabina Grushcow disse que o judaísmo aceita muito mais do que as pessoas imaginam. “Gênese é o melhor livro já escrito a respeito de famílias disfuncionais", disse ela. “Abraão quase sacrificou o filho, Isaque, em uma montanha - duvido que Sara, mulher dele, tenha gostado disso.” / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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