Caroline Tompkins para The New York Times
Caroline Tompkins para The New York Times

Aos 80 anos, Judy Collins gosta de perucas, gatos e faz 120 shows por ano

“Quando me ouvem, as pessoas voltam à sua juventude. É como se estivessem em uma máquina do tempo”, afirmou Judy

Amanda Hess, The New York Times

01 de janeiro de 2020 | 06h00

Ao uma certa idade, acredita-se que cantoras perdem a voz. Suas cordas vocais endurecem e se tornam mais lentas. As notas altas se tornam inalcançáveis. Mas não foi isto que aconteceu com Judy Collins. Nos seus 80 anos, a “voz suave em plena luta”, como a revista Life a definiu em uma capa de maio de 1969 desta soprano etérea que encantou os ouvintes durante toda a década de 1960 - ainda reverbera.

Quando o público assiste às suas apresentações, o que acontece a cada três noites, vai em êxtase. “Quando me ouvem, as pessoas voltam à sua juventude”, disse Judy. “Aos sonhos daquela época. É como se estivessem em uma máquina do tempo”, afirmou falando das emoções que sua voz desperta.

Judy mora no mesmo apartamento no Upper West Side, há quase 50 anos. Ali, ela está cercada de lembranças do governo Clinton, espalhadas pelo espaço, que ela chama de “ambiente”. A iluminação vem de abajures de vitrais coloridos com imagens de libélulas, e almofadas bordadas têm mensagens suaves como “Amigos são o melhor presente” e “Você não pode ter gatos demais”.

Judy tem três. São gatos persas com pelos brilhantes e olhos celestiais. Recentemente, uma tarde, ela os procurou, e ao encontrar cada um deles - Coco Chanel, de smoking; Rachmaninoff, cinza-azulado. e Tom Wolfe, totalmente branco - o cumprimentou em sua voz alta e trêmula de soprano: “Olá”, disse. “Vocês querem dizer olá?”

A caçada nos levou para o quarto do marido, Louis Nelson, que estava contemplando o desenho de um cachorro. “Eu projeto memoriais”, ele me disse - Nelson projetou o Memorial da Guerra da Coreia no National Mall - e naquele momento, trabalhava em um memorial para Samantha, o cachorro idoso de um amigo, que seria sepultado em um cemitério para bichos de estimação, no norte do estado.

Na volta toda do quarto de Judy, havia uma série de perucas. A voz de Judy não mudou, mas o cabelo é novo. Há dois anos, ela operou a mão, e quando acordou da anestesia, seu cabelo havia caído. “Eu tinha um cabelo fabuloso”, contou; o cabelo sedoso de uma deusa hippie. Ficou indiferente quando ele voltou a crescer; por isso, agora ela raspa totalmente a cabeça.

É aqui, neste ambiente, que Judy faz a manutenção de sua máquina do tempo. “Em geral, na maior parte do dia, faço várias coisas”, explicou. “Faço exercícios vocais. Canto um pouco, escrevo alguma coisa. Faço minhas palavras cruzadas. Escrevo nos meus diários. Tento fazer algo interessante. Vou assistir a um filme engraçado. Encontro amigos engraçados”.

Judy sempre tem um repertório de piadas, histórias e observações curiosas que recolhe para contar no palco. Antes, ela se posicionava no palco, fechava os olhos e cantava uma música atrás da outra; mas com o tempo, em 1978, começou a falar. “Descobri que eu tinha muitas coisas para dizer, e não tinha me dado conta”, explicou.

O álbum mais recente de Judy, Winter Stories, é uma colaboração com o cantor norueguês Jonas Fjeld e a banda bluegrass Chatham County Line. Nele, Judy canta The River de Jony Mitchell, Mountain Girl de sua autoria, e Highwayman, a canção de Jimmy Webb sobre um homem que reencarna como ladrão, marinheiro, construtor de diques e comandante de uma nave estelar, música esta que  posteriormente recebeu uma releitura musical de Glen Campbell, e depois do supergrupo de country The Highwaymen. Há anos, ela pensou em gravar esta música.

“Ocorre que, na realidade, nunca tive coragem”, disse. A canção parecia propriedade dos “caras”, como ela falou. “Mas então pensei, e daí?” A versão de Judy não se assemelha a nenhuma outra. Na tradução do hino country masculino para a sua voz diáfana, ela o desmantelou e reconstruiu em uma espécie de homenagem à capacidade de resistir das mulheres. Depois de ouvi-la, as outras versões soam um pouco apagadas. Agora, é a música de Judy Collins.

Toda uma geração de artistas silenciou, mas Judy continua cantando. Com a sua voz, ela está transformando antigas canções, e neste processo a não só as revive, mas as recria. “Observei que nas antigas culturas, quando alguém está doente, as pessoas dizem: Perdemos a nossa voz”.

Gloria Steinen, que conhece Judy desde os anos 1960, escreveu em um e-mail: “A magia de Judy está em nos trazer de volta as nossas canções”. Em geral, há uma tendência a considerar artistas mais velhos como sombras. Assistimos às suas apresentações e ouvimos um eco do astro na plenitude da sua forma. Mas Judy é a coisa em si”. Sou uma cantora melhor agora”, afirmou. “Uma cantora muito melhor”.

Recentemente, passou a se apresentar no Joe’s Pub de Nova York com Fjeld e o grupo Chatham County Line. Quando eles se lançaram na interpretação de Mountain Girl, parecia que os homens no palco estavam fazendo um exercício extremamente difícil. Judy estava tranquila. Seu violão parecia feito de ar. Ela pegava as notas mais altas da música com o ar relaxado de uma mulher em seu ‘ambiente’, chamando os gatos. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

Tudo o que sabemos sobre:
Judy Collins

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.