Nick Oxford para The New York Times
Nick Oxford para The New York Times

Juiz denuncia mau comportamento de pais em competições juvenis

A iniciativa visa evitar atos violentos contra quem apita jogos em que os atletas são crianças

Bill Pennington, The New York Times

05 Agosto 2018 | 11h00

TULSA, OKLAHOMA - Circulou recentemente na cidade um vídeo que mostra uma torcedora que assiste a um jogo de futebol berrando palavras vulgares e chuta violentamente uma bola que atinge uma juíza adolescente nas proximidades. Ela discordou da marcação de um pênalti.

Outro vídeo capta pais em um jogo de basquete de times juvenis na abeira da quadra agitando ameaçadoramente os punhos contra a juíza. Um outro mostra pais agredindo juízes que estão indo  pegar o carro depois de apitarem um jogo. Os jogadores tinham 8 anos de idade.

Os vídeos foram postados em uma página do Facebook, Offside, por Brian Barlow, 44, um juiz frustrado de equipes de futebol juvenis em Oklahoma. Ele oferece uma recompensa de US$ 100 para cada vídeo que denuncie pais e espectadores turbulentos em jogos juvenis.

"Faço isso para que estas pessoas sejam responsabilizadas - para identificar e chamar a atenção de alguns pais que criam um ambiente agressivo nos eventos esportivos dos próprios filhos", disse Barlow.

Uma enxurrada de agressões verbais, e ocasionalmente físicas, que juízes vêm sofrendo em todo o país está perturbando a prática dos esportes juvenis. Estes abusos estão se tornando tão frequentes que mais de 70% dos novos juízes abandonam o emprego no prazo de três anos, segundo juízes integrantes da Associação Nacional de Esportes.

Consequentemente começa a haver escassez de juízes nos Estados Unidos, onde dezenas de jogos foram cancelados e ligas, desfeitas. O presidente da associação, Barry Mano, contou que recebe um ou dois telefonemas por semana de membros pedindo orientação.

No ano passado, a Associação de Times de Futebol Juvenis da Carolina do Sul adotou uma medida,  criando o chamado "setembro silencioso". Os pais e os visitantes de jogos estaduais foram proibidos de torcer ou zombar de jogadores ou juízes durante o mês todo. Bater palmas era permitido. "Foi um enorme sucesso", disse um juiz.

Aqui no leste de Oklahoma, Barlow preferiu reagir. Na opinião de jogadores, pais, técnicos e administradores da região, suas mensagens online contribuíram para modificar o comportamento na margem do gramado.

"Se um pai começa a gritar com um juiz, todos os outros pais se afastam e dizem: 'Cara, você não quer aparecer no vídeo do Barlow na página do Facebook'", contou Kristin Voyles, cujo filho de 14 anos, Easton, é juiz e jogador de futebol em Broken Arrow, um bairro de Tulsa. "Nós sabemos que todo mundo que está assistindo ao jogo na beira do campo tem um smartphone na mão".

Travis Featherstone, um treinador de Tulsa, também juiz e pai de jogadores juvenis, elogiou a iniciativa de Barlow, mas questionou se a página não estaria indo longe demais.

"Talvez haja outra maneira de tratar o caso, como atrair mais pais em vez de apenas apontar o dedo para eles e fazer com que pareçam gente horrorosa", disse Featherstone.

Alguns pais pediram a Barlow que retire certos vídeos, e ocasionalmente foram atendidos. Bralow acredita ter evitado problemas legais porque vídeos são gravados em ambientes públicos e postados com a permissão da pessoa que os faz.

Como a página é dele, não significa necessariamente que pais e torcedores se comportem sempre melhor ao lado de Barlow, mesmo sua filha de 12 anos, que é juíza de jogos de crianças menores.

Depois de um jogo realizado em junho, ele e dois outros juízes precisaram da escolta policial armada para chegar até seus carros. Em junho, sua filha, Zoe, teve de permanecer por 90 minutos no interior de um prédio depois de um jogo, a pedido dos juízes do torneio, para protegê-la das ameaças de pais que estavam irados porque os juízes tinham apitado alguns pênaltis. O jogo teve de ser cancelado.

"Às vezes, preciso interceder dizendo a estes pais que esta não é a Copa do Mundo e lembrá-los de que os jogadores têm 6 anos e a juíza, 12”, falou Lori Barlow, esposa de Brian.

Além dos vídeos, os clubes de Oklahoma também estão tomando medidas para fazer os pais mudarem seu comportamento, como a nomeação de supervisores dos jogos a fim de documentar como eles agem e até mesmo convencendo seus filhos a censurá-los.

"Uma mãe não deu a menor atenção e manteve sua atitude agressiva; o treinador tirou a jogadora, filha desta pessoa, do jogo e a mandou para o outro lado do gramado para falar com a mãe", explicou Eric Edwards, pai de três crianças que jogam futebol na região de Tulsa. "Foi constrangedor para a criança e para a mãe. A menina voltou para o jogo logo depois, mas a maioria dos outros pais comentou: 'Graças a Deus o treinador tomou esta providência'".

No começo de maio, Barlow participou de um café da manhã com treinadores  e administradores. Um dos treinadores, Richard Beattie, admitiu que já havia sido o tipo de pessoa que poderia ter acabado como astro de um vídeo na página do Facebook de Barlow.

"Eu já provoquei o maior vexame", assumiu Beattie, "e se agora posso dizer que meu comportamento era inaceitável e tive de mudar, outras pessoas podem perfeitamente fazer o mesmo".

Barlow sorriu. "É isso que eu penso, é isso que estamos tentando fazer", disse. "Nós ganhamos a guerra? Não. Estamos tomando alguma medida? Sim, estamos".

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