Eduardo Verdugo/Associated Press
Eduardo Verdugo/Associated Press

Julgamento de El Chapo coloca política de combate às drogas sob questionamento

Se ela continuar, em mais 25 anos provavelmente estaremos caçando um novo chefão

Ioan Grillo, The New York Times

24 de novembro de 2018 | 06h00

CIDADE DO MÉXICO - Uma foto icônica de 1993 mostra policiais colombianos sorrindo curvados sobre o corpo crivado de balas de Pablo Escobar, que, segundo a revista “Forbes”, era o narcotraficante mais rico do planeta. A fotografia foi tirada por Steve Murphy, um agente da Administração Americana de Combate  às Drogas, que ajudou a encontrar o paradeiro do chefão acusado de fomentar assassinatos em massa em sua pátria. “O fim (de Escobar) deveria servir de exemplo para outros que se dedicam ao tráfico da morte e da miséria”, afirmou o czar da droga Lee Brown, entre as comemorações ocorridas em Bogotá e em Washington.

Vinte e cinco anos mais tarde, um novo supervilão, Joaquin Guzmán Loera, conhecido como El Chapo, está em uma sala de tribunal na cidade de Nova York, acusado de ter comandado o tráfico de heroína, cocaína, maconha e cristais de metanfetamina para o mercado americano que lhe permitiu amealhar 14 bilhões de dólares ao longo de duas décadas e meia. A ignomínia de Guzmán e suas fugas de duas prisões de segurança máxima no México, o colocam ao lado de Escobar e até mesmo do mafioso contrabandista Al Capone como os mais notórios traficantes dos tempos modernos.

Nos anos entre a morte de Escobar e o processo de Guzmán, que começou no dia 13 de novembro, a guerra às drogas avançou, ainda que aos tropeços. No que se refere à prisão de chefões e à destruição de montanhas dos seus narcóticos, o sucesso foi espantoso. Quanto à redução do número de americanos mortos por overdose ou latino-americanos assassinados por causa dos lucros do contrabando, foi decididamente um fracasso.

A Aliança para uma Política das Drogas calcula que a luta contra o comércio ilegal de narcóticos custa aos contribuintes dos Estados Unidos 58 bilhões de dólares ao ano. Mas o ano de 2017 assinalou um recorde de 15.900 mortes por overdose de heroína, e o aumento das causadas por cocaína, metanfetaminas e fentanyl. No México, acredita-se que a batalha travada em várias frentes tenha tirado a vida de mais de 119 mil pessoas em dez anos. O que pode ser comparado com alguns dos piores conflitos armados que ocorrem ao redor do mundo, e à desestabilização de inteiras regiões do país.

A maioria dos chefões da droga extraditados para os Estados Unidos fez algum tipo de acordo. Mas Guzmán se declarou inocente, obrigando os promotores a montar um processo que deverá durar meses. 

Eles prometem que convocarão testemunhas, incluindo os seus colegas traficantes, para que descrevam as maneiras engenhosas que ele usava para contrabandear drogas - por exemplo, em latas de pimenta jalapeño - o suborno pago à polícia mexicana em todos os níveis, e digam que ele foi o mandante de brutais assassinatos dos seus inimigos.

Eduardo Balarezo, um dos advogados de defesa de Guzmán, disse que impugnará as testemunhas e chamará a atenção para qualquer acordo que elas possam ter feito para o seu depoimento, e ainda questionará as táticas dos agentes da DEA (Órgão de Combate às Drogas). No passado, estes agentes foram criticados pelo uso de informantes discutíveis, ligados aos traficantes.

Os promotores poderão provar que Guzmán é culpado de crimes horrendos. Mas por outro lado, poderão chamar a atenção para dezenas de anos de fracassos no que se refere a estancar o fluxo da droga e o derramamento de sangue, e também para as táticas da DEA e a ajuda às forças de segurança mexicanas que sofrem com a corrupção. Enquanto o mundo olha, será difícil não indagar se o caso de Guzmán servirá de fato para processar a própria guerra às drogas.

Isto sem falar que Guzmán não merece passar a vida na prisão se o júri o considerar culpado. 

Cobrindo a violência dos cartéis no México desde 2001, vi centenas de corpos ensanguentados e ouvi a angústia de inúmeros dos seus entes queridos, o que permite avaliar o imenso custo humano. Por outro lado, os agentes da DEA arriscam suas vidas tentando deter esta ameaça.

Mas mesmo que Guzmám seja condenado a uma prisão de segurança máxima, isto não salvará as famílias de ambos os lados da fronteira de mais overdoses e mais violência por causa da droga. As vítimas merecem mais do que isto.

A elaboração de uma política mais eficaz de combate ao tráfico é um desafio enorme, mas nós temos uma oportunidade histórica. Há apenas dez anos, muitos observadores diziam que era desaconselhável a legalização da droga. Mas no dia 6 de novembro, Michigan tornou-se o 10º estado a legalizar a maconha para recreação, o Canadá já a legalizou e o México está tomando medidas neste sentido.

Talvez nós não queiramos lojas que vendem heroína abertamente. Entretanto, além da legalização de drogas menos perigosas, seria preciso tomar medidas mais concretas a fim de permitir a reabilitação dos viciados; um estudo realizado em 2015 concluiu que quase 80% dos americanos que usam compulsivamente opiáceos não recebiam tratamento. Os programas que utilizam metadona também podem ajudar alguns viciados e fazer com que parem de financiar o assassinato em massa ao sul do Rio Grande.

Um primeiro passo seria admitir simplesmente que a política atual é um fracasso. Se ela continuar, em mais 25 anos provavelmente estaremos caçando um novo chefão, e publicando mais artigos sobre o dinheiro da droga, a corrupção da polícia e montanhas de cadáveres.

Ioan Grillo é o autor de “Gangster Warlords: Drug Dollars, Killing Fields, and the New Politics of Latin America”.

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