Jean Chung / The New York Times
Jean Chung / The New York Times

Pastor coreano lidera renascimento do conservadorismo

Jun Kwang-hoon, pastor presbiteriano de 63 anos, tornou-se uma força na Coreia do Sul contra o presidente Moon Jae-in

Choe Sang-Hun, The New York Times

27 de novembro de 2019 | 06h00

SEUL, COREIA DO SUL – Os partidários lhe atribuem a “liderança de Moisés e a sabedoria de Salomão”. Os detratores o chamam de “demagogo narcisista” e “falso profeta”. Qualquer que seja o epíteto usado contra o reverendo Jun Kwang-hoon, não se pode negar que o pastor presbiteriano de 63 anos tornou-se uma força na Coreia do Sul, espalhando a revolta contra o presidente Moon Jae-in. Recentemente, Jun atraiu enormes multidões aos seus comícios no centro de Seul, obrigando o ministro da Justiça de Moon, Cho Kuk, a se demitir. Ele exige também a renúncia de Moon, alegando que é “uma ordem do Senhor”.

Jun inflama o seu público, em geral cristãos de mais idade, repetindo slogans fáceis de lembrar, mas incendiários. Líderes progressistas como Moon estariam “comunizando” a Coreia do Sul, ele afirma. Segundo adverte, estes “seguidores da Coreia do Norte” estão “levando o país à ruina”, afastando-a dos Estados Unidos e fazendo com que ela se aproxime mais da Coreia do Norte e da China.

A ascensão de Jun tem muitos aspectos em comum com o crescimento do populismo de direita no Ocidente: o apelo ao patriotismo e ao nativismo; a tendência a usar ofensas ideológicas contra os imigrantes; a frequente invocação de Deus e da tradição; e o emprego de fontes alternativas de notícias na mídia social para espalhar o ressentimento e insuflar o medo de que o país se aproxime do “colapso”.

Economia fragilizada

Nos últimos meses, o pastor provocou um incêndio político explorando dois sentimentos fortes: o medo da Coreia do Norte, que é muito difundido entre os sul-coreanos mais velhos, e o crescente descontentamento com a economia fragilizada.

O gabinete de Moon inicialmente menosprezou o discurso irado de Jun contra o presidente como “não digno de comentários”. Mas em outubro, o Partido Democrático de Moon pediu à polícia que investigasse Jun, a quem acusa de incitar à sedição depois que este exortou os seus seguidores a se unirem a um bando de “mártires” que invadiu o gabinete presidencial da Casa Azul a fim de derrubar Moon.

“Os seus comícios talvez não agradem aos não cristãos porque parecem reuniões para o renascimento da Igreja, e algumas das suas declarações, como a de que Moon é um espião norte-coreano, soam exageradas e propagandistas”, disse Hwang Gui-hag, editor chefe do Law Times de Seul. “Mas ocorre que a sua estratégia funciona, o que o torna uma força que não pode ser ignorada”.

Igreja, uma organização política

Jun nasceu em Yecheon, na região central da Coreia do Sul, e é o filho mais velho de uma família profundamente religiosa. Ele  chegou a um momento de definição na sua vida quando foi enviado para morar com um parente que era pastor. Educado na convicção de que a Igreja pode servir como um instrumento de mudança social e política, ele entrou em um seminário. “Ao longo de toda a sua história, a Igreja sempre foi uma organização política”, afirmou Jun. Em janeiro, ele obteve um importante posto político. Foi eleito chefe do Conselho Cristão da Coreia, grupo representativo das igrejas conservadoras.

Quando realizou uma coletiva à imprensa com o seu novo título, em junho, para exigir a renúncia de Moon, pastores rivais o chamaram de “filho de víboras”. O Conselho Nacional das Igrejas da Coreia o denunciou por provocar nos seus seguidores uma “histeria coletiva”.

A maioria dos sul-coreanos não o levou a sério até que, em agosto, Moon nomeou Cho para o cargo de ministro da Justiça. Após uma série de artigos a respeito das falhas éticas da família de Cho, Jun passou para o ataque.

Os seus comícios nos fins de semana tornaram-se os maiores protestos contra o governo que a Coreia do Sul jamais viu. Jun tem correligionários fortes entre os canais do YouTube de extrema direita, que transmitem ao vivo streamings dos seus sermões. 

Ele tem seu próprio canal na plataforma e ajuda a financiar colegas youtubers que compartilham das suas ideias. Além disso, patrocina o Christian Liberty Party, que ambiciona tornar-se o primeiro partido político que se fundamenta na fé para conseguir uma cadeira no Parlamento em abril. “É obra do Espírito Santo”, afirmou Jun quando perguntaram a respeito do seu sucesso. “Não sou eu, é a revolta da população contra Moon que a leva aos meus comícios”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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