Chad Bakta para The New York Times
Chad Bakta para The New York Times

Justin Bieber e as transformações pessoais inseridas no novo álbum

Ele sofreu as dores da fama durante metade da vida. Agora, a maior estrela masculina do pop quer fazer música R&B

Jon Caramanica, The New York Times

23 de fevereiro de 2020 | 06h00

A última vez que Justin Bieber lançou um álbum - Purpose, em 2015 - estava arrependido. Retornando depois de alguns anos de desmoronamento público, ele foi humilhado ou queria aparecer assim: um rapaz obrigado a repudiar a pessoa em que a fama o havia transformado, cantando músicas em que pedia desculpas.

Ocorre que, além disso, ele era prisioneiro desse arrependimento. Abandonou uma turnê no meio do caminho, com as baterias descarregadas. Isto aconteceu há cinco anos, quando o ecossistema de um florescente ícone pop era muito diferente. Agora, os astros brotam da internet por conta própria, e assumem formas inesperadas. Mas não faz muito tempo, a fama era hierárquica e claustrofóbica, e não havia uma saída aparente. Bieber foi condenado quando cedeu ao sistema e condenado quando se rebelou contra ele.

Então tomou a única decisão razoável: desapareceu. Não foi pouca coisa considerando que ele vivia na boca faminta da histeria dos tabloides e da obsessão do pop adolescente desde que tinha mais ou menos 12 anos. Nos últimos três anos, Bieber lançou uma dezena de canções; não fez nenhuma excursão. A música pop nunca o substituiu, mas ela continuou seguindo em frente.

Bieber não se tornou menos famoso. Com 12 milhões de seguidores, ele é o músico mais popular no Instagram. E no momento, ele é o último de um certo tipo de astro pop adjacente ao estilo R&B, branco - um furacão que provoca uma mania cujo poder é maior do que a arte que ele faz.

Este tipo de fervor não desaparece; apenas hiberna. O que significa que Bieber tem um público à sua espera. Hoje ele tem 25 anos, está casado, e aparentemente nem um pouco preocupado em alimentar as chamas da hiper-fama. A onipresença dos seus primeiros anos foi substituída por algo muito mais temperado.

Você pode ser um super astro e também estar se escondendo? É o que ele tenta em Changes o seu quinto álbum de estúdio, sinuoso, meditativo e em grande parte impressionante, e também com Justin Bieber: Seasons, um seriado documental destinado a captar o que há nos bastidores do seu retorno.

Em ambos os projetos, Bieber se mostra relutante, até quieto. Ele não consegue controlar a recepção de tamanho Bieber que encontra sempre que faz alguma coisa. Entretanto, está consciente de que o que quer que faça será consumido arrebatadoramente pelos fãs desesperados por saciar a própria sede. Em Changes, ele finalmente aprimora uma estratégia vocal suave e terna, embora talvez ligeiramente experimental. É um álbum eficiente e também deliberadamente contido.

Ao escolher R&B, e uma versão em surdina disso, Bieber se recusa a participar da corrida destrutiva no centro e se atém a um estilo pessoal. O seu desejo é evitar que a análise possa ser vista como uma espécie de fraqueza, mas é também uma conclusão lógica para alguém que, nos anos da adolescência e mais além, foi uma das celebridades mais julgadas e muitas vezes ridicularizadas do mundo. Ele foi famoso pela metade dos seus 25 anos. Os efeitos ficam claros no seriado Seasons de dez episódios.

Percebe-se como é reduzido o seu círculo de confiança: sua esposa, Hailey Baldwin Bieber, seu colaborador de muitos anos, Poo Bear; o seu produtor, Josh Gudwin; o seu agente, Scooter Braun; e uns outros dois que trabalham muito próximos a ele. Bieber descreve os vários anos de abuso de drogas. “Eu tomava ‘lean’ (codeína com refrigerante entre outras coisas), detonava comprimidos, ecstasy, você sabe, cogumelos halucinógenos, tudo”. Ele não conseguia mais controlar a própria saúde. “Estava quase morrendo”.

Os fãs sentem em parte o desejo de proteger o seu herói  - este é o segredo da motivação das tropas de seguidores - embora este desejo não se baseie necessariamente na ideia de que o super-astro seja fraco. Combatido, sim, mas não que precisasse de um estímulo interior.

Mas é exatamente assim que Bieber se apresenta agora. Os primeiros episódios da série falam do que há por trás das aparências. Mas os seguintes são outra coisa completamente diferente - uma imagem do que quase não há nada por trás. “Não parece tão difícil para alguns sair da cama de manhã”, diz Bieber, “mas para mim é realmente duro sair da cama, e eu sei que muita gente se sente assim também. Por isso quero dizer também que vocês não estão sozinhos”.

E se Bieber fosse alguém como nós? No velho modelo hierárquico da fama que o incubou, isto teria sido uma proposição risível. Mas o seu realinhamento parece coadunar-se com a maneira como os astros são criados hoje: uma escolha criativa idiossincrática cultivada seriamente, em particular, é captada por milhões.

Quando a sua fama cresce desse modo, você está livre para dizer 'não' às exigências criadas fazendo as coisas da maneira antiga. Neste caso, ele pode cantar, ficar com os fãs que querem continuar a protegê-lo, e esperar que o resto do mundo não se importe muito com ele. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

Tudo o que sabemos sobre:
Justin Bieber

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.