Kevin Winter/Getty Images para Aba
Kevin Winter/Getty Images para Aba

Kanye West e sua entrada (já conhecida) no universo gospel

O artista compreende o poder de um coro gospel, e o utiliza desde a abertura de 'Jesus is King', seu mais novo álbum

Jon Caramanica, The New York Times

21 de novembro de 2019 | 06h00

As pessoas podem ficar perplexas com o fato de Kanye West , aos 42 anos, ter dado uma difícil guinada para a música religiosa. Mas West nunca deixou de fazer música religiosa, tanto por adotar literalmente iconografia e temas religiosos, quanto porque está convencido de que as canções deveriam ser o veículo para desafios morais, opiniões filosóficas e louvores arrebatados. A única coisa que mudou foi a embalagem.

Jesus Is King, seu nono álbum, lançado em outubro, é típico da obra de West. Mais vívido do que Ye, do ano passado, embora não tão vigoroso quanto The Life of Pablo de 2016, é essencial, eficaz, emocionalmente forte e estruturalmente fraco. Tem o sabor da pressa, e também da urgência.

Desde 2008, quando ele desconstruiu sua fanfarronice em 808s & Heartbreak, mas particularmente desde a mudança tectônica, industrial de Yeesus em 2013, West tem se preocupado bem mais com a textura da sua paleta do que com a rima, o tema ou a melodia. Seus versos se tornaram mais limpos e rápidos, e suas melhores canções funcionam em níveis viscerais.

O resultado é Yeezus em lugar de Jesus, embalado em duros solavancos sônicos. West compreende o poder de uma arma como o coro gospel, e o utiliza desde a abertura do álbum, Every Hour – muito simples, um despertador que sacode todo o esforço dos dois últimos anos.

O coro recorre está presente ao longo deste breve álbum de 27 minutos – West anunciou recentemente que lançaria um álbum completo com o seu coro do "Serviço Religioso" do domingo, em dezembro – mas não é este o único tema. Ele alterna suas canções com o rap – seus vocais são vacilantes e às vezes meigos, como uma criancinha que dá os primeiros passos. Às vezes, o seu rap é ácido.

Em outras partes, seu rap menos ambicioso é sacudido por cantores convidados transcendentes – Ant Clemons no excepcional Water, e Clemons e Ty Dolla Sign em Everything We Need.

Fé e religião

A fé fundamental de West em Deus mostrada recentemente não é muito diferente da fé constante em si mesmo. O que é diferente é a moldura, a insistência em que esta era é uma virada mais difícil do que uma suave evolução. Em parte, é uma resposta aos últimos anos da vida pública de West, em que seu apoio aberto ao presidente Donald J. Trump e aos seus comentários anti-históricos sobre a escravidão afastaram boa parte dos seus fãs. O seu despertar para a religião é visto com ceticismo, até mesmo desdenhado, como uma tentativa de se corrigir.

O artista está amplificando a intensidade do seu compromisso com as suas colocações. Há um filme Imax, com o mesmo título Jesus Is King, que também foi lançado em outubro. E West tem realizado apresentações no serviço religioso dos domingos durante os quais fica sentado atrás do seu coro, que se apresenta com standards gospel juntamente com sucessos pop e R&B reelaborados para a finalidade religiosa.

'Jesus Is King'

O filme Jesus Is King é mais leve do que o álbum, embora funcione de maneira semelhante, privilegiando a textura e a imagem em grande escala em relação ao detalhe narrativo. Trata-se de uma série de vinhetas de apresentações filmadas no Roden Crater, o austero projeto de Land Art de James Turrell no deserto do Arizona.

West começou hospedando serviços religiosos parto da sua casa na Califórnia em janeiro, e mais recentemente, em cidades de todo o país, às vezes até na igreja. Está claro que atualmente a música toma uma mera fração da atenção de West – ele tem cinco filhos, uma companhia bem-sucedida no ramo de vestuário e calçados e está explorando o campo do projeto de casas sustentáveis - mas ele descreveu a composição musical como uma responsabilidade cósmica, um símbolo de sua fé.

“Acredito que pelo fato de Deus ter me dado um dom pelo qual eu rezei e que tantas pessoas amam, se eu parar de compor, ele poderá me tirar outras coisas”, afirmou.

Em outras palavras, a música é sua âncora. Se a guinada de West para o gospel foi vista com ceticismo, isto não é diferente da dúvida com que ele se defrontou quando chegou ao hip-hop, no início dos anos 2000. Naquela época, ele era uma anomalia com carisma e força de vontade, e foi adotado com relutância. Mas, com o tempo, sua heresia acabou se assemelhando à fé. Engraçado como isto funciona. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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