Caroline Tompkins/The New York Times
Caroline Tompkins/The New York Times

Katie Kitamura e a dissonância cognitiva de viver nos dias atuais

Seu novo romance, 'Intimacies', apresenta aos leitores a mente perceptiva e digressiva de um intérprete em Haia que está lidando com perdas, um relacionamento incerto e um mundo inseguro

Brandon Yu, The New York Times - Life/Style, O Estado de S.Paulo

03 de agosto de 2021 | 05h00

Katie Kitamura se lembra de ter ouvido Charles Taylor pouco antes da morte de seu pai. Ela estava dirigindo na Bay Bridge, na Califórnia, em 2009, e Taylor, ex-presidente da Libéria, estava sendo julgado por crimes de guerra em Haia. Ela o ouviu pelo rádio, e sua voz revelava uma força simultaneamente magnética e monstruosa à medida que se defendia.

Essa memória talvez seja uma resposta simples a como e quando começou o último romance de Kitamura, Intimacies (Intimidades, em tradução livre). "Tive a sensação muito clara de que ele estava em uma performance", contou ela em uma entrevista por chamada de vídeo em sua casa em Nova York.

Também foi atraída por "aquele tipo de maleabilidade e mutabilidade da linguagem" – a capacidade de moldá-la, de persuadir mesmo nos momentos mais duros, de defender o pior dos crimes. Logo depois, Katie Kitamura escreveu o primeiro rascunho de A Separation (Uma Separação), seu romance de 2017 centrado em um tradutor inflexível.

Intimacies também apresenta uma intérprete, dessa vez uma mulher que se mudou para Haia para trabalhar no Tribunal Penal Internacional. Depois da morte de seu pai, a protagonista, proveniente de Nova York, é designada para traduzir o depoimento de um ex-presidente em julgamento por crimes de guerra, trabalho que ela assume com precisão e ansiedade. Sua vida pessoal aumenta a complexidade da história, já que ela começa um relacionamento com um homem casado e se preocupa com o assalto violento sofrido pelo irmão de um amigo.

O romance, o quarto de Kitamura, assemelha-se a A Separation no sentido de que limita sua perspectiva à mente perceptiva e tortuosa de uma narradora em primeira pessoa não identificada em uma cidade que é desconhecida para ela. Mas Intimacies tem um sentimento diferente e mais expansivo, em parte por causa da época politicamente caótica em que ela o escreveu.

Kitamura disse que, embora tenha ficado alarmada ao ver que a turbulência dos últimos cinco anos criou um ambiente em que as pessoas estão arraigadas em suas crenças e opiniões, "a narradora tem uma compreensão muito parcial do que está acontecendo a seu redor. Senti que eu poderia falar de como algumas pessoas estão se sentindo agora, sob uma cascata de notícias".

A incerteza, especialmente na voz da narradora, permeia o romance. "O que me interessa de verdade é fixar no papel a confusão de um pensamento errante, de uma digressão, de uma contradição, e, assim, descentrar a autoridade que os narradores em primeira pessoa costumam ter", comentou a escritora, observando que essa característica se tornou parte de seu estilo, qualidade que descobriu lentamente por meio da escrita.

Kitamura, de 42 anos, começou a escrever ficção na casa dos 20 anos, depois de uma infância um tanto nômade: nasceu em Sacramento, na Califórnia, e cresceu na vizinha Davis, antes de partir para Princeton aos 17 anos. "Ela não é uma pessoa que costuma se gabar, mas era uma espécie de prodígio", afirmou seu marido, o romancista Hari Kunzru, em uma entrevista por telefone.

Aos 20 anos, Katie Kitamura já estava em Londres obtendo seu doutorado em literatura e trabalhando em projetos e palestras no Instituto de Arte Contemporânea. "Eu me lembro de me sentir intimidada por ela, mas Kitamura era muito simpática e fazia sempre o possível para deixar os outros à vontade", escreveu por e-mail a autora Zadie Smith, amiga de longa data.

A primeira tentativa séria de Kitamura de escrever ficção se tornou The Longshot (O tiro no escuro), romance sobre um lutador de artes marciais mistas. Essa estreia e sua sequência, a aguçada alegoria colonialista Gone to the Forest (Se Foi Para a Floresta), abordaram temas totalmente diferentes – uma maneira de Kitamura, que é nipo-americana, afirmar o tipo de liberdade criativa que via no trabalho dos seus colegas brancos. Mas as vozes de A Separation e Intimacies são uma "expressão mais próxima de como me sinto no momento, enquanto tento navegar por tudo que está acontecendo à nossa volta", explicou ela.

Intimacies reflete silenciosamente o absurdo de existir neste momento, no rastro de uma destruição constante. Segundo Kitamura, "há uma verdadeira dissonância cognitiva em como uma pessoa vive no mundo. Sua consciência não pode acomodar tanta coisa, e certamente tem sido incrível descobrir como posso estar ao mesmo tempo muito preocupada com o estado da democracia e também pensar: o peru ficou pronto?".

Embutido nessa dissonância há um tipo de cumplicidade, o ato de participar de sistemas responsáveis por coisas terríveis – noção que, para Kitamura, talvez seja a preocupação central do livro: "Estas coisas estão acontecendo, mas nunca são suficientes. O que quer que você faça, não será o bastante".

O sentimento pode ser aplicado a qualquer crise atual à escolha de cada um. Ela fez uma pausa. "A frase 'não em meu nome' – como pode não ser em seu nome? Como você pode separá-lo tão totalmente?"

No livro, o julgamento do ex-presidente obriga a narradora a enfrentar uma espécie de ambivalência moral em relação a seu trabalho no tribunal. Em 2016, Katie Kitamura visitou Haia e entrevistou intérpretes que, como no romance, falaram aos ouvidos de criminosos de guerra. Ela se lembra de que esses tradutores lhe disseram: "Logicamente, e pelas provas que você observou, essas pessoas fizeram as piores coisas que alguém pode fazer. Ainda assim, você pode se sentir aliviado quando são considerados inocentes".

Ela mesma sentiu alguns desses dilemas nos últimos anos. Enquanto o mundo está em chamas e o planeta esquenta, ela tem sido bastante feliz em sua vida pessoal, tendo encontrado estabilidade na criação de dois filhos com Kunzru. Intimacies muitas vezes reflete este ato de equilíbrio: o mal em julgamento e a burocracia banal que o administra, ou o desejo da narradora de encontrar segurança em um mundo aparentemente repleto de malícia.

The New York Times Licensing Group - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito do The New York Times

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.