AGÊNCIA CENTRAL DE NOTÍCIAS DA COREIA DO NORTE
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Kim Jong-un volta suas atenções para o crescimento econômico

Há muito em jogo para Kim, que busca consolidar seu poder

Choe Sang-Hun, The New York Times

01 Setembro 2018 | 10h30

SEUL, Coreia do Sul - Quando o líder da Coreia do Norte, Kim Jong-un, visitou uma barragem hidrelétrica atualmente em construção. Ele teria ficado “furioso” ao descobrir por qual motivo a represa ainda não estava pronta após 17 anos de obras.

Kim teria descoberto que a represa, fundamental para os esforços para aliviar os apagões crônicos no país, sofria com a falta de operários, equipamento e material, apurando também que as autoridades encarregadas da supervisão do projeto não tinham nem sequer visitado o local.

“O que me deixa mais furioso é pensar que esses funcionários não perdem uma oportunidade de mostrar suas caras sem-vergonha e receber o crédito quando há uma cerimônia celebrando a inauguração de uma usina elétrica", teria dito Kim, de acordo com a Agência Central de Notícias da Coreia do Norte. 

“Não tenho palavras.”

Desde o final de junho, Kim dedicou quase todas as suas atividades públicas à visitação de fábricas, fazendas e canteiros de obras, deixando de lado as unidades do exército e locais de testes de armas que visitou tanto no ano passado. Em vez de se gabar do poderio militar do seu país, ele está criticando a má administração dos locais que visita, destacando seu novo foco nas melhorias econômicas.

O recado é dirigido tanto aos Estados Unidos quanto ao seu próprio povo, disseram especialistas na política norte-coreana, já que sua promessa de trazer a prosperidade econômica depende da sua capacidade de convencer Washington a relaxar as sanções internacionais que tanto afetam o país.

“Está claro que Kim Jong-un busca desesperadamente um relaxamento das sanções, encontrando suas próprias maneiras de estimular a produção e melhorar a vida do seu povo", disse o professor Koh Yu-hwan, da Universidade Dongguk, em Seul. “Ao mesmo tempo, ele atribui a culpa aos seus subalternos, criticando funcionários preguiçosos.”

Em junho, quando Kim se reuniu com o presidente americano Donald J. Trump em Cingapura, os dois concordaram em trabalhar pela desnuclearização da península coreana. Mas a falta de progresso na implementação do acordo abafou as esperanças norte-coreanas de um alívio para as sanções, bem como o desejo americano de um rápido desarmamento.

Também foram prejudicados os esforços da Coreia do Sul no sentido de expandir os laços com o norte, tanto econômicos quanto de outra natureza. O presidente sul-coreano, Moon Jae-in, revelou uma ousada visão de cooperação econômica com a Coreia do Norte, incluindo a construção de zonas econômicas conjuntas ao longo da fronteira e unindo as ferrovias dos dois países, desde que o norte comece o processo de desnuclearização.

Há muito em jogo para Kim, que busca consolidar seu poder num país que sofreu uma fome devastadora nos anos 1990 e apenas recentemente viu o surgimento de um projeto de classe média.

“Os norte-coreanos se tornaram tão materialistas, gananciosos e insatisfeitos quanto já foram seus camaradas na União Soviética e na Alemanha Oriental, e como a maioria de nós é no Ocidente", escreveu Rüdiger Frank, da Universidade de Viena, especialista na Coreia do Norte.

Kim modificou sua economia socialista permitindo a existência de mais de 400 mercados, complementando a distribuição estatal de alimentos e bens de consumo que já foi a única fonte de subsistência dos cidadãos. Ele concedeu mais autonomia às fábricas e fazendas coletivas.

Mas as sanções tiraram o progresso dos trilhos. Embora a economia da Coreia do Norte tenha crescido ao ritmo anual médio de 1,77% entre 2012 e 2015, graças às atividades dos mercados, em 2017 a economia teve contração - um encolhimento de 3,5%, de acordo com o Banco Central da Coreia do Sul.

Para deixar claras suas prioridades, Kim usa suas “viagens de orientação" em campo - como a visita à problemática represa. Recentemente, a mídia norte-coreana publicou fotos de Kim usando roupas de baixo numa visita a uma fábrica de conservas de peixe em meio a uma onda de calor.

Mas, apesar desses esforços de propaganda, Kim pode estar mais vulnerável às crises econômicas do que seus antecessores, dizem os especialistas, conforme os produtos e a informação vindos de fora começam a chegar à Coreia do Norte - graças em parte às reformas do próprio Kim.

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