Lena Mucha para The New York Times
Lena Mucha para The New York Times

Banca de salsicha mais famosa de Berlim conta parte da história alemã

Durante 43 anos, Waltraud Ziervogel presidiu a Konnopke's, a icônica empresa de salsichas que seu pai iniciou em 1930 no que se tornou Berlim Oriental

Christopher F. Schuetze, The New York Times

22 de janeiro de 2020 | 06h00

BERLIM - Na noite da queda do Muro de Berlim, em novembro de 1989, Kurt, o marido de Waltraud Ziervogel, foi para casa e pediu à esposa que o acompanhasse nas comemorações. “Eu disse: ‘Está maluco?’ e fui para a cama porque no dia seguinte o trabalho começaria cedo”, contou Waltraud. Quando ela abriu a banca de salsichas, às 4h30, na esquina em geral movimentada, a apenas 35 metros do muro, estava ainda mais barulhenta do que de costume.

“Parecia uma grande festa. Todos estavam acordados e felizes, festejando, e muitos queriam uma salsicha, mas eu não podia aceitar dinheiro do lado ocidental”. Trinta anos mais tarde, depois de dezenas de milhares de salsichas de porco e de centenas de quilos de ketchup com curry, Konnopke’s, a banca de salsichas embaixo de um viaduto do metrô, no coração de Prenzlauer Berg, que começou em 1930, ainda existe, um monumento a uma Berlim de operários que quase foi obrigada a sair, enquanto os bares abertos à noite toda foram substituídos por bancos, lojas de cozinhas de última geração e restaurantes veganos.

Como muitos outros cidadãos da Alemanha Oriental que tiveram de enfrentar despreparados os desafios de um sistema capitalista, Waltraud, com 53 anos quando o muro caiu, foi obrigada a adaptar-se. Mas, ao contrário da maioria, já é uma comerciante de sucesso responsável por mais de doze empregados.

Mas a transição foi difícil. Seus fornecedores deixaram de existir da noite para o dia; e novos impostos e novas regulamentações da prefeitura. Em 2010, as autoridades tentaram convencê-la a mudar de ponto. Depois de uma longa luta, ela conseguiu uma autorização para reconstruir completamente a sua banca em 2010, e reabriu logo no início do ano seguinte. Apenas alguns comerciantes do bairro sobreviveram nas últimas três décadas.

Konnopke’s, que fica mais ou menos a 15 metros na intersecção de três avenidas importantes, continua o coração da área. Celebridades, políticos e turistas a visitam regularmente. Max Konnopke, o pai de Waltraud, começou o negócio em 1930. Ela assumiu formalmente os negócios em 1976, quando o pai se aposentou.

O maior desafio foi em 1990, com a reunificação da Alemanha Oriental com a Ocidental. Novos clientes esperavam comidas diferentes. Konnopke’s começou a vender batatas fritas. O currywurst, que era servido com um pãozinho com uma caneca de caldo quente, hoje é fatiado e servido em um prato de papel. E há também currywurst veganos.

As festas de casamento agora podem reservar mesas no terraço do edifício. “Coloquei toalhas de mesa e alguns buquezinhos de flores”, disse Waltraud. “Ela lutou como um touro para manter este ponto”, disse Dieter  Kohl, um cliente regular desde antes da queda do muro.

Ele não é o único berlinense antigo que mantém o hábito de voltar. Do lado de fora da loja há um cartão postal em preto e branco pendurado, dos anos 1960. Na imagem, um menino olha para cima, para a lanchonete. “Pelo menos uma vez por semana”, disse a proprietária, alguém fala: ‘Aquele menino sou eu’”. “Todo mundo estava lá, feliz, festejando, e muitos queriam comer salsicha”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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