Sergey Ponomarev para The New York Times
Sergey Ponomarev para The New York Times

Kremlin celebra escritor russo que criticava o país

Falecido em 1883, Ivan Turguêniev expressava opiniões negativas sobre sua terra natal

Andrew Higgins, The New York Times

28 de março de 2019 | 06h00

MTSENSK, RÚSSIA - O presidente Vladimir Putin costuma se gabar da majestade da cultura russa, especialmente de gigantes da literatura como Ivan Turguêniev, cuja mansão no interior foi recentemente reformada pelo governo russo como amostra de orgulho nacional.

Mas Turguêniev, um inquieto liberal cosmopolita que morreu nos arredores de Paris em 1883, tinha uma visão sombria do próprio país. “Ele nunca idealizou nada, descrevendo a realidade como a via", disse Elena Levina, diretora do patrimônio da família Turguêniev, reaberto ao público em janeiro. “Às vezes, o quadro apresentado não era belo.”

Dentro da mansão dele, pertencente ao estado e localizada perto de Mtsensk, cidadezinha provinciana 320 quilômetros ao sul de Moscou, a celebração da Rússia enquanto potência cultural autoconfiante se depara com lembretes de outra Rússia, menos segura, que lutava para pertencer ao Ocidente. Muitos dos livros na biblioteca de Turguêniev são em francês ou alemão, dois dos sete idiomas que ele conhecia além do russo.

Pinturas e desenhos evocam os muitos anos em que ele viveu fora da Rússia - cursando a universidade em Berlim e vivendo na cidade alemã de Baden-Baden antes de ir para a França, onde manteve um caso de amor fracassado com Pauline Viardot, uma cantora de ópera casada de ascendência espanhola.

Enquanto estava distante, Turguêniev sentia saudades da pátria, mas também a deplorava. “Os russos são um povo preguiçoso e lento, não estão acostumados ao pensamento independente e não agem com consistência", escreveu ele em 1857 a uma condessa russa conservadora. “Mas a necessidade - grande palavra! - vai tirar da toca até mesmo esse urso.”

Nascido em 1818, Turguêniev era particularmente duro ao descrever a vida nos vilarejos ao redor de sua mansão perto de Mtsensk. Em um de seus primeiros romances, Memórias de um Caçador, dura crítica à servidão, Turguêniev escreve que o camponês “tem o vulto inclinado, a expressão deprimida e o comportamento desconfiado; vive em casebres imundos de madeira, trabalha como servo nos campos e nunca se envolve com o comércio, come miseravelmente, e usa sapatos de palha".

No debate entre defensores do Ocidente e eslavófilos que dominou a Rússia do século 19 e cujos ecos ainda se fazem ouvir, Turguêniev se colocou ao lado daqueles que acreditavam que a Rússia era parte da Europa, rechaçando o que ele considerava serem fantasias tolas de um caminho russo distinto.

Mas, quando a editora britânica Penguin Books usou uma citação não creditada de um personagem seu em uma campanha pubicitária no metrô de Londres, o ministro das relações exteriores se queixou de uma “russofobia nojenta” por parte da Grã-Bretanha.

A citação - “Aristocracia, liberalismo, progresso, princípios… Palavras inúteis! Um russo não precisa delas.” - era tirada de Yevgeny Bazarov, um rebelde niilista do romance Pais e filhos, de Turguêniev. O que o ministério das relações exteriores chama agora de “russofobia” é um termo criado em 1876 por um diplomata russo eslavófilo para descrever o que ele enxergava como opiniões abertamente críticas em relação à pátria por parte dos russos.

As críticas de Turguêniev às bebedeiras e à negligência dos russos deixaram o autor Fyodor Dostoyevsky, seu contemporâneo, tão exasperado a ponto de insistir para que Turguêniev comprasse um telescópio para ver a Rússia com olhos mais simpáticos. Turguêniev contrariava tanto o estereótipo dos russos que “nunca bebia vodca, preferindo sempre o vinho", disse Elena, diretora do patrimônio. “Era um autor russo extraordinário, e isso é tudo que importa".

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