Lam Yik Fei para The New York Times
Lam Yik Fei para The New York Times

Casal vive em lados opostos dos protestos em Hong Kong 

Enquanto Sunny marcha junto aos manifestantes, seu marido policial está do outro lado da barricada

Cora Engelbrecht, The New York Times

13 de setembro de 2019 | 06h00

HONG KONG - Enquanto semanas de protestos transformaram Hong Kong em um campo de batalha entre manifestantes e a polícia, poucas famílias sentiram tanto os efeitos da polarização quanto a da jovem Sunny, de 26 anos. Ela é uma manifestante que toma as ruas para denunciar o que ela considera políticas opressivas do governo central de Pequim. O marido dela é um policial de baixa patente, que trabalha no período noturno, em jornadas de 12 horas, para confrontar as manifestações que sua mulher apoia.

Desde junho, eles têm convivido da seguinte maneira: ocupando lados opostos das barricadas durante as noites e cuidando juntos de suas duas filhas nas manhãs seguintes. Eles testemunharam a divisão cada vez mais profunda nas ruas, que veio a definir a luta pela alma de Hong Kong.

Essa briga está agora provocando divisão no interior de sua casa e dos lares de famílias como a deles - e até entre as fileiras da própria força policial. “No início, esses protestos não pareciam diferentes de outras manifestações que sempre tivemos ao longo dos anos”, disse Sunny. “Mas, agora, não conseguimos nem imaginar uma vida normal. As pessoas perderam a paciência.” Enquanto o governo de Hong Kong intensifica a pressão e o número de prisões aumenta, enfrentamentos cada vez mais violentos entre manifestantes e a polícia têm tornado cada vez mais tensa a atmosfera nas ruas. A divisão entre os dois lados é crescente.

As autoridades têm acusado os manifestantes de assediar os policiais - e, às vezes, seus parentes - na internet e pessoalmente. O tratamento que recebem dos manifestantes enfureceu muitos policiais, que agora enfrentam frequentes críticas nas ruas, onde até poucos meses atrás eles eram amplamente respeitados. Sunny e seu marido se conhecem desde a infância e se casaram há cinco anos. Ela pediu que seu nome completo não seja publicado por medo de retaliações. Ela se lembra de como o marido berrava de orgulho no dia em que se graduou na academia de polícia.

Agora, cada vez que o marido volta para casa, Sunny tenta usar a conversa para acalmá-lo e aliviar a tensão que ele absorve na linha de frente. “As conversas nem sempre são pacíficas”, disse ela. O marido de Sunny recusou-se a conversar com a reportagem pessoalmente e a informar seu nome, mas enfatizou que há um abismo entre as demandas do governo e a indignação dos manifestantes.

“Isso coloca muita pressão em mim e minha família”, afirmou ele em uma mensagem de texto, acrescentando que a polícia “não tem escolha” a não ser prender quem viola a lei. Ele disse, porém, que as autoridades poderiam melhorar a maneira como lidam com os protestos e afirmou que sua mulher o lembra disso. Por meio desse diálogo, Sunny veio a entender como, nas ruas, a polícia se tornou o representante de um governo que é cada vez mais odiado pelo povo. “O sentimento é que temos um inimigo em comum”, disse ela.

Para evitar conflitos no lar, Sunny disse que parou de assistir televisão e passou a discutir política com as filhas fora de casa. Entre os policiais que se sentem insatisfeitos com suas funções, poucos ousam falar disso abertamente. Cathy Yau, 36 anos, foi policial por 11 anos antes de se demitir, em julho, e decidir se arriscar a criticar a polícia.

Ela lembrou de um protesto, em junho, quando os manifestantes a chamavam de “policial suja” enquanto marchavam. Ela se identificou com a raiva deles e, naquele momento, começou a sentir que poderia estar do lado errado do conflito. “Eu sabia que a ação deles não era completamente de acordo com a lei”, disse Cathy. “Mas eu também os admirava pela maneira como pareciam aceitar que, se a coisa piorasse, eles estão dispostos ao sacrifício - dos seus planos para o futuro e até de suas vidas.”

De pé em seu minúsculo apartamento, Cathy tirou do canudo de formatura o certificado que recebeu ao se tornar policial. Segurá-lo agora traz um sentimento amargo, disse ela. “Isso me incomoda, sim”, disse ela, referindo-se ao uso da força contra os manifestantes por parte dos policiais. “Talvez seja difícil para eles não cumprir as ordens, mas eles podem escolher agir de maneira diferente.” Tiffany May colaborou com a reportagem. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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