Geoffroy Van Der Hasselt|Agence France-Presse - Getty Images
Geoffroy Van Der Hasselt|Agence France-Presse - Getty Images

Ladrões do mundo real estão de olho em moedas virtuais

Detentores de grandes quantidades de Bitcoins e semelhantes se tornam alvos interessantes para criminosos

Nathaniel Popper, The New York Times

27 Fevereiro 2018 | 16h24

SAN FRANCISCO - A moeda que eles queriam era virtual, mas as armas que portavam eram bem reais.

No balneário de Phuket, na Tailândia, em janeiro, os assaltantes empurraram a vítima, um jovem russo, para dentro de seu apartamento e o mantiveram ali, vendado, até que ele entrasse em seu computador e transferisse cerca de US$ 100 mil em Bitcoins para uma carteira virtual controlada por eles.

O diretor de uma bolsa de Bitcoin na Ucrânia foi sequestrado e só foi libertado depois que a empresa pagou um resgate de US$ 1 milhão em Bitcoins. Em Nova York, um homem foi mantido refém por um amigo até transferir para ele mais de US$ 1,8 milhão em Ethers, outra moeda virtual.

Os ricos sempre temeram os roubos e a extorsão. Agora, detentores de grandes quantidades de Bitcoins e seus semelhantes se tornaram alvos interessantes para criminosos, especialmente depois que o valor das moedas virtuais entrou na estratosfera no ano passado.

As moedas virtuais podem ser facilmente transferidas para um endereço anônimo criado por um criminoso. Enquanto os bancos podem deter grandes transações eletrônicas feitas contra a vontade do correntista, não existe um banco de Bitcoins centralizado que possa deter ou reverter uma transação.

Os ladrões se aproveitaram desse sistema num impressionante número de casos recentes.

"Isso está se tornando mais comum, envolvendo mais divisões do policiamento que lidam com o crime organizado e os crimes violentos no nível local", disse Jonathan Levin, fundador da Chainalysis, que trabalha com agências de policiamento na solução de crimes envolvendo moedas virtuais.

A empresa de Levin é especializada em rastrear transações criminosas no blockchain, registro computadorizado público de todas as transações realizadas com Bitcoins.

Mas, mesmo quando é possível rastrear uma transação, o design do Bitcoin significa que os criminosos não precisam associar sua identidade com seu endereço de Bitcoin, como seria o caso da maioria das transações bancárias tradicionais. Isso limitou o alcance da polícia.

"Para esse tipo de atividade, o Bitcoin oferece a vantagem da dificuldade de se verificar a identidade dos envolvidos", disse Chanut Hongsitthichaikul, investigador da delegacia de polícia de Chalong, responsável pelo caso. "Perguntamos às vítimas como podemos rastrear os Bitcoins, já que eles conhecem essa tecnologia melhor do que nós. Perguntamos a eles como fazer para verificar a identidade do receptador. Eles responderam que não há como".

A polícia da Tailândia localizou o laptop da vítima, que também foi roubado, em Kuala Lumpur. Foi aí que perderam o rastro do criminoso.

Jameson Lopp, que trabalha há anos como engenheiro do Bitcoin e detentor de moedas virtuais, disse que a comunidade deveria ser proativa ao confrontar as ameaças.

Faz tempo que Lopp mantém suas moedas virtuais nas chamadas carteiras multiassinatura, criadas pela empresa para a qual ele trabalha, BitGo. Essas carteiras exigem a aprovação de várias pessoas para cada transação.

Quando Lopp se mudar para um novo apartamento este ano, ele planeja "ficar no escuro", sem revelar a ninguém o endereço.

"No caso de pessoas ricas que possuem imóveis, ou ações de uma equipe esportiva, o ladrão não pode roubar sua equipe", disse ele. "Quando a pessoa tem ativos líquidos em criptomoeda, ela se torna um alvo muito mais atraente para esse tipo de ataque criminoso".

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