Giulia Marchi para The New York Times
Giulia Marchi para The New York Times

O vinho francês produzido na China que custa US$ 300

Um vinho de qualidade internacional ‘do qual os chineses podem se orgulhar’

Amy Qin, The New York Times

30 de novembro de 2019 | 06h00

PENGLAI, CHINA - Na China, as histórias a respeito do Château Lafite Rothschild são tão lendárias quando a famosa vinícola de Bordeaux. Há histórias de ricos empresários chineses bebendo Lafite misturado com Sprite. Ou a ocasião em que uma autoridade chinesa disse que pelo menos metade do Lafite vendido na China seria falso.

Mas, agora, a empresa por trás do famoso nome, Domaines Barons de Rothschild (Lafite), é produtora de um vinho de qualidade internacional feito inteiramente na China. Em setembro, a Lafite lançou seu primeiro vinho feito de uma safra cultivada em Domaine de Long Dai, sua vinícola na província litorânea de Shandong. Faz séculos que vinho é produzido a partir de uvas na China, mas a bebida nunca foi tão popular quanto outras, e o país não é conhecido por sua tradição na área.

“Quando fiz minhas primeiras visitas, muitos dos colecionadores mais exigentes estavam dizendo, ‘Nunca vamos beber vinho chinês’”, disse Saskia de Rothschild, sucessora do pai na presidência da Lafite, que assumiu no ano passado. “É a aposta que estamos aceitando: o desafio de criar um vinho chinês de alto padrão do qual os chineses possam se orgulhar.” A safra 2017 do Domaine de Long Dai é uma mistura de uvas cabernet sauvignon, cabernet franc e marselan. A uva marselan é um cruzamento entre cabernet sauvignon e grenache muito popular entre os consumidores chineses de vinhos.

Na resenha que escreveu a respeito da primeira safra, a enóloga inglesa Jancis Robinson o descreveu como “tão seco quanto a primeira safra de Bordeaux, absolutamente correto, ou até surpreendente". Com vinhedos que ocupam 75 acres, a produção da vinícola é modesta. Serão vendidas apenas 2,5 mil caixas dessa safra, a maioria para consumidores chineses.

As garrafas do Long Dai 2017 são vendidas a 2.388 renminbi, ou cerca de US$ 335. É um valor comparável ao de uma garrafa de baijiu da melhor qualidade, um destilado de grãos conhecido como bebida nacional da China, mas muito abaixo de safras mais antigas do Château Lafite Rothschild, que podem chegar a centenas de milhares de dólares.

O vinho de 2017 é o ponto culminante de um projeto iniciado dez anos atrás, quando a marca Lafite estava no auge de sua popularidade na China. O nome “Lafite” foi usado em condomínios e restaurantes na China, de acordo com Jim Boyce, fundador do blog de vinhos chineses Grape Wall of China (A Grande Vinícola Chinesa), publicado em inglês. “É algo ligado a uma ideia de estilo de vida de alto padrão", disse Boyce.

Mas um número de vinhos chineses de alta qualidade chegou ao mercado nos dez anos mais recentes, incluindo o Legacy Peak, de Ningxia, e o Ao Yun, feito de uvas cultivadas no pé das montanhas tibetanas em uma propriedade pertencente ao grupo LVMH Moët Hennessy Louis Vuitton, maior conglomerado de produtos de luxo do mundo. “O momento escolhido me parece estranho", disse Boyce a respeito do lançamento do Long Dai. “É como se fosse parte de uma tendência que já está entrando em baixa.”

Mas, para a Lafite, a vinícola de Shandong oferece um cabeça de ponte no crescente mercado chinês de vinhos caros. O local tem centro de visitantes e uma sala de aula para cursos de enologia, recurso inédito em uma vinícola da Lafite. Em Penglai, espera-se que a vinícola ajude a estimular o desenvolvimento de uma região turística semelhante ao Vale de Napa, na Califórnia. Já surgiram na região um empreendimento chamado Napa Village e um chateau de inspiração francesa.

Em uma tarde recente em Mulangou, vilarejo bem próximo de Long Dai, os moradores elogiaram a vinícola Lafite por ter criado empregos. Mas, indagado se beberia o vinho, Huang Chuanjun, 70 anos, balançou a cabeça. “É mais caro que o ouro!” disse Huang. “Não gastaria nem 100 renminbi com isso. Não consigo sentir a diferença.” / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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