Ryan Pfluger para The New York Times
Ryan Pfluger para The New York Times

Lakeith Stanfield, mais um cara esquisito em Hollywood

O novo símbolo de Hollywood, que está estrelando em 'Sorry to Bother You', se recusa a ser categorizado como parte de um movimento

Cara Buckley, The New York Times

25 Julho 2018 | 10h00

LOS ANGELES - Quando tinha 20 anos e trabalhava em uma estufa de plantação de maconha, concluiu que as plantas aos seus cuidados eram seres dotados de consciência. O fato de ter chegado a esta conclusão quando estava chapado não a tornou menos verdadeira. Lakeith adora plantas, sente por elas, porque, disse: “Elas são puras, e não falam”, e lamenta não poder ter nenhuma em casa. “Eu viajo demais”, afirmou.

Este sentimento talvez tenha brotado dos lábios de Darius, o sujeito estranho, mas sensível, que Stanfield interpreta em “Atlanta”, a série de TV de Donald Glover. Talvez, com outro diretor, Darius estivesse limitado ao personagem secundário de um cômico pateta. Na interpretação de Stanfield, ele foi enfático, cheio de nuances, complexo, uma raridade para personagens negros masculinos nas telas americanas.

Stanfield chega rapidamente à essência emocional dos personagens - uma razão fundamental pela qual ele conseguiu papéis em filmes dirigidos por Ava DuVernay, Oliver Stone e Jordan Peele, e desapareceu. Ele é também um tanto esquisito, o que o tornou perfeito em “Sorry To Bother You”, a fantasia ‘noir’ do realismo mágico de Boots Riley, que estreou este mês nos Estados Unidos e no Canadá. Em seu maior papel, até o momento, Stanfield interpreta um marqueteiro negro de televisão, Cassius Green, cujas vendas aumentam depois que ele começa a falar como um homem branco.

Stanfield, 26, adotou o sotaque britânico durante as festas e sentou no tapete vermelho com os olhos fuzilando na entrega dos Emmys do ano passado. Destin Daniel Cretton, que escolheu Stanfield em seu primeiro papel no cinema, disse que “ele considera tudo isto, com razão, um grande jogo”.

As palhaçadas são sua reação ao sentimento claustrofóbico que ele experimenta quando a mídia fala a seu respeito. Mas ele precisa de privacidade e não entende por que alguém estaria tão interessado em sua vida.

Stanfield passou a primeira parte de sua existência em San Bernardino, a cerca de uma hora de Los Angeles, onde sua mãe trabalhava no Del Taco, lutando para sustentar a família. Keith gostava de abraçar uma árvore que crescia no jardim de sua tia imaginando-se em um dos seus filmes favoritos, “FernGully: The Last Rainforest”, o filme animado para crianças de 1992.

Aos 11 anos, sua mãe se mudou para Victoryville, uma violenta cidade no deserto a 80 quilômetros mais ao norte. Lá, Stanfield foi jogado de carros pela polícia, levou choques das armas da polícia e foi preso por fumar maconha. No ambiente em que vivia, as gangues aliciavam os mais jovens, mas Stanfield não fazia o tipo delas. Ele conhecia os nomes científicos das plantinhas que cultivava no magro quintal da sua casa. Cobria as paredes de seu quarto com desenhos, poemas e antigos símbolos que mais tarde mandaria tatuar no seu corpo.

No colegial, Stanfield ingressou em um grupo de teatro, e, depois de conseguir um papel em “Honk! The Musical” interpretando uma rã, decidiu tornar-se ator. Quando sua mãe podia, o levava para Los Angeles para fazer alguns testes. E quando não podia, Stanfield procurava ganhar um dinheirinho para ir de trem. Finalmente, conheceu Cretton, que o escolheu para o papel de um adolescente em um filme amador com outros atores no projeto de sua tese de mestrado, “Short Term 12”, um curta de 21 minutos de duração. O filme impressionou no festival de Sandance em 2009. E por alguns anos, parecia que aquilo seria tudo o que ele conseguiria.

Por volta de 2012, Cretton conseguiu financiamento para transformar o seu curta em um longa metragem, e colocou novos atores - entre eles Brie Larson e Rami Malek - em todos os papéis. Mas nenhum deles ficou adequado ao antigo papel de Stanfield. Então, ele voltou para lá com a mãe. Leu algumas cenas, e quando olhou por cima do roteiro, viu Cretton em prantos.

A estreia do filme provocou um delírio, e Stanfield foi indicado para o Independent Spirit Award. Entretanto, ele rodava Los Angeles sem conseguir nada, dormia no seu carro ou no sofá de Cretton. 

“Alguém, por favor, reconheça o valor deste cara”, Cretton lembrou de ter pedido. E finalmente, alguém o reconheceu.

Em 2014, Stanfield apareceu em “A Purga: Anarquia”, e em “Selma: Uma luta pela igualdade”, da diretora Du Vernay. Em 2015, fez “Dope: Um deslize perigoso”, “Miles Ahead”, e “Straight outta Compton: A história do NWA”. Então vieram, entre outros filmes, “Snowden”, “Corra!” e “Crown Heights”. Nessa altura, “Atlanta” e Stanfield haviam conquistado as plateias e os críticos.

Ele disse: “Estou me fazendo”. Se as pessoas se surpreenderam com isto, afirmou, esta é mais uma prova de uma percepção míope, porque todos se sentem estranhos, admitam ou não.

É difícil captar em palavras o lugar para onde Stanfield vai quando está interpretando. Segundo Riley, Stanfield sente tudo o que o seu personagem sente, e também não liga para o que pode parecer.

Hiro Murai, que dirigiu a maioria dos episódios de “Atlanta”, disse que Stanfield  é o intérprete mais dotado de intuição com quem ele já trabalhou. “Ele se joga em queda livre naquela hora”, escreveu em um e-mail.

Antes do lançamento do filme seguinte de Stanfield, “Millennium: A garota na teia de aranha”, no outono, ele deveria ter uma pausa. Ele disse que não via a hora de voltar para a namorada, a atriz Xosha Roquemore, e o filhinho deles, que nasceu no ano passado.

“Você não pode fazer o papel de um sujeito que é totalmente esquisito na tela, com quem, de algum modo as pessoas podem se identificar, se não estiver ligado na sua própria humanidade”, disse Cretton. “E Keith realmente está”.

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