José Sarmento Matos para The New York Times
José Sarmento Matos para The New York Times

Lar do Brexit, Reino Unido terceiriza cirurgias

Médicos franceses estão sendo pagos para realizar operações outrora sob comando dos serviços de saúde do Reino Unido

Kimiko de Freytas-Tamura, The New York Times

05 Abril 2018 | 15h15

CALAIS, FRANÇA - Serge Orlov, um britânico de 62 anos, gosta de criticar o que chama de tirania da União Europeia. Como a maioria dos defensores da retirada do seu país do bloco, ele quer que a Grã-Bretanha trate de agir por conta própria.

Mas Orlov engavetou o seu euroceticismo para aproveitar de um programa do Serviço Nacional de Saúde (NHS) pouco conhecido e pular para o final da linha - na França.

Depois de esperar um ano pela possibilidade de colocar uma prótese no joelho de que precisava com urgência, foi atendido no Calais Hospital, no norte da França, onde, em dez dias, ele já estava sobre a mesa de operação para o procedimento de três horas de duração,  contou. Diante disso, agora pretende colocar a prótese no outro joelho.

“A espera é horrível”, falou, contando que havia sido transferido para cinco hospitais diferentes na Grã-Bretanha. As salas de espera estavam “lotadas de gente doente”, afirmou, e acrescentou, como explicação: “Eu posso ser um velho bem rabugento”.

Orlov é um dos pacientes britânicos, cujo número aumenta rapidamente, que atravessam o Canal da Mancha para buscar tratamento médico - em geral cirurgias eletivas, sem caráter de urgência - na França.

Considerando que o Brexit foi aprovado em uma votação em grande parte baseada em questões emotivas sobre a soberania britânica, e a promessa enganosa dos políticos de que a saída do bloco representaria uma economia de 350 milhões de libras, ou cerca de$ 4590 milhões, por semana para financiar o NHS, o paradoxo de a Grã-Bretanha  de procurar a ajuda da França foi claramente percebido por Orlov. “Acho muito irônico tudo isto”, admitiu prontamente.

Depois de anos de austeridade, o Serviço Nacional de Saúde da Grã-Bretanha está capenga, e sofre fortes pressões com grave escassez de leitos e equipes médicas. Isto produz tempos de espera para procedimentos sem urgência que podem estender-se por meses, até mesmo por mais de um ano.

Para fazer frente às suas dificuldades, no ano passado, o Serviço foi muito discretamente terceirizando algumas cirurgias a três hospitais na França.Trata-se de uma parceria pouco conhecida, porque o NHS não faz questão de anunciar publicamente as medidas que está sendo obrigado a tomar.

Mas a novidade foi se espalhando. Orlov era apenas o 15º paciente do programa, mas recebeu 450 pedidos de informação de pacientes britânicos em seis semanas, depois de menos de dez por mês.

Ele se surpreendeu ao ter à sua disposição um espaçoso apartamento particular no hospital francês. O estacionamento é grátis, ele comentou várias vezes. “E a comida é muito boa”, acrescentou.

O acordo de terceirização do NHS da Inglaterra tecnicamente tem pouco a ver com a decisão da GB, há cerca de dois anos, de deixar a União Europeia. Ao contrário, tem mais a ver com a miríade de maneiras pelas quais os países da Europa estão ligados entre si, mas que frequentemente são ignoradas nas discussões públicas sobre as relações da GB com a Europa.

O NHS insiste que a parceira “é uma simples opção do paciente”. Mas segundo representantes do Calais Hospital, funcionários do NHS declararam que queriam entrar na parceria porque muitos dos seus hospitais eram velhos, e havia pouca possibilidade de serem modernizados ou reformados em um breve espaço de tempo.

As demoras são “um sinal de fracasso” do NHS, o orgulho nacional da Grã-Bretanha, afirmou Martin Trelcat, o diretor do Calais Hospital. A escassa publicidade em torno do acordo pode ser explicada pelo “constrangimento que certamente vem do fato de que os nossos hospitais são muito confiáveis”, acrescentou.

Orlov deu suas próprias explicações sobre a relutância do NHS a dar publicidade ao tratamento no exterior. “Eu não sei se se trata de um colapso das comunicações”, ele disse, “ou porque o NHS não gosta da ideia de deixar de receber dinheiro vivo e mandá-lo para a França”.

De qualquer maneira, afirmou, ”é chocante”.

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