Maciek Nabrdalik para The New York Times
Maciek Nabrdalik para The New York Times

Legado de João Paulo II dá origem a nova disputa na Polônia

Nascido Karol Jozef Wojtyla, ele continua a ser uma referência positiva para a direita e a esquerda do país

Marc Santora, The New York Times

16 de janeiro de 2019 | 06h00

WADOWICE, POLÔNIA - Em uma nação cada vez mais dividida, uma figura ainda pode inspirar solidariedade entre os poloneses: o homem nascido Karol Jozef Wojtyla, que em 1978 se tornou João Paulo II, o primeiro pontífice não italiano em 455 anos. O filho predileto da nação ainda exerce uma enorme influência na Polônia, mais de 40 anos depois de ter sido eleito Bispo de Roma.

Desde uma estátua que o representa, com quase 15 metros de altura olhando para a cidade de Czestochowa, até as relíquias distribuídas às igrejas de todo o país - inclusive gotas de seu sangue em mais de 100 paróquias - a Polônia está repleta de tributos ao homem ao qual as pessoas comumente se referem como o "Nosso Papa".

Mas neste momento, quando a Polônia está dilacerada por conflitos políticos vistos, por todos os lados, como uma batalha existencial pela alma da nação, o que está sendo disputado é o legado de João Paulo II, o defensor da Polônia e de uma Europa integrada.

"Para todos indistintamente, ele continua sendo um ponto de referência positivo", afirmou Michal Luczewski, diretor de programas do Centro para o Pensamento de João Paulo II, em Varsóvia. "Mas outra luta está sendo travada em torno de seu legado, que cada lado defende como 'seu'".

Para os que estão na direita política, o papa é, segundo Luczewski, uma inspiração em sua batalha contra uma Europa cada vez mais secular. Os eleitores conservadores, como muitos do partido governista da Lei e Justiça, julgam-se encarregados da missão papal, particularmente na luta contra o aborto - uma questão que continua provocando uma profunda divisão.

Mas os poloneses que acreditam que o Partido Lei e Justiça está provocando um grande dano às instituições democráticas do país - minando o sistema judiciário e controlando a mídia estatal - encontram enérgicas críticas ao crescente autoritarismo na vida e nos ensinamentos do papa.

Em Memória e Identidade, seu último livro, publicado em 2005 (no ano em que ele morreu), o papa escreveu: "Um aspecto fundamental do espírito polonês é a multiplicidade e o pluralismo, não a limitação e o fechamento". E lembrou "uma república que abraça muitas nações, muitas culturas, muitas religiões".

O reverendo Jakub Gil, ex-estudioso do papa, disse que muitas pessoas nos círculos conservadores da Polônia acham que sua fé está sendo cerceada por forças externas. Segundo ele, a ideia de "tolerância" defendida pelos líderes em Bruxelas classifica os que falam contra a homossexualidade ou o aborto como indivíduos de mentalidade estreita. "Eles tratam os poloneses como crianças", afirmou.

Mas em uma Europa em que as forças nacionalistas se revoltam contra Bruxelas e ameaçam fragmentar o bloco, o papa oferece "importantes lições sobre patriotismo para os dias de hoje", disse George Weigel, o autor de Witness to Hope (Testemunha para Esperança, em tradução livre), uma biografia do pontífice. 

"O patriotismo do papa não era chauvinista e nem xenofóbico. Não era fechado em si mesmo, mas aberto ao 'outro'", afirmou. 

"Hoje a Polônia voltou a estar dividida", disse a beata Borowka, em frente à igreja de São Estanislau em Varsóvia. "Aparentemente, o que a história nos ensina é que a história não nos ensina nada".

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