Matias J. Ocner/The Miami Herald, TNS, via Getty Images
Matias J. Ocner/The Miami Herald, TNS, via Getty Images

Legado de rapper assassinado levanta questões sobre violência e criatividade

Acusações de abuso de XXXTentacion coincidiram com sua ascensão à fama

Steve Knopper, The New York Times

20 Dezembro 2018 | 06h00

Segundo as palavras de seus amigos e colaboradores, o cantor e rapper XXXTentacion era uma lenda inspiradora, ainda em formação no instante de sua morte, aos 20 anos. No mês passado, para promover sua linha de roupas, a Bad Vibes Forever, a mãe do rapper apareceu em um vídeo no Instagram para dizer que “sua mensagem era essencialmente de cura” e que ele estava “espalhando amor e luz para todo o mundo”. Uma semana depois, o material de lançamento de seu single o chamava de “voz de sua geração”.

XXXTentacion, nascido Jahseh Onfroy, conquistou uma enorme audiência antes de ser morto a tiros, durante uma tentativa de assalto, na Flórida em junho. Seus dois primeiros álbuns foram ouvidos mais de 5,5 bilhões de vezes online, de acordo com a Nielsen Music, e ele tinha mais de 8 milhões de seguidores para seus posts no Instagram, que, assim como sua música, falavam de raiva e depressão.

Mas ele também estava aguardando julgamento por acusações de abuso, cárcere privado e coação de testemunhas. A acusadora - uma ex-namorada que, segundo os promotores, engravidou durante um dos supostos abusos - disse em depoimento que ele ameaçou matá-la “todos os dias”. Desde a sua morte, o que antes era um debate moral sobre a cumplicidade da indústria da música em sua ascensão ao estrelato se transformou em uma batalha sobre seu legado. Antes do lançamento de seu álbum ‘Skins’, em 7 de dezembro, sua equipe foi à imprensa para retratá-lo como mártir, não como monstro.

‘Skins’ conta com uma participação de Kanye West e uma impressionante campanha de marketing. A mãe de XXXTentacion, Cleopatra Bernard, juntamente com seu agente e advogado, receberam prêmios em seu nome e deram entrevistas para falar sobre seus dotes artísticos. A notícia das acusações coincidiu com sua ascensão à fama, e ele parece ter se defendido e criticado a acusadora em canções como ‘Moonlight’ e ‘Numb’. Após sua morte, surgiram gravações da época de sua prisão em 2016, nas quais ele assume a responsabilidade por esfaqueamentos e parece admitir que abusava da ex-namorada.

“Tenho nojo de mim todos os dias”, disse ele em uma gravação. “E quer saber de uma coisa? É até engraçado... eu adoro essa sensação”. Hilary Rosen, ex-presidente da Associação da Indústria Fonográfica dos Estados Unidos, disse que a música de XXXTentacion está “enraizada em uma realidade tão horrível e inseparável de seu comportamento pessoal que o simples fato de ouvi-lo já é um dilema moral”. E acrescentou: “Fico chocada que tenha havido tão pouca condenação do seu comportamento por parte da indústria”.

“É desanimador quando as pessoas idolatram quem tem histórico de praticar abuso”, disse Katie Ray-Jones, do Centro Nacional de Atendimento à Violência Doméstica. O comediante Eric Andre foi um dos muitos que criticaram o comportamento de XXXTentacion nas redes sociais, e o rapper Vic Mensa fez um improviso no BET Awards rimando “perdedor” com “abusador”. Os defensores de XXXTentacion têm se mostrado igualmente apaixonados: em um post no Twitter, o rapper Jidenna o comparou a Malcolm X, que também se envolvera em casos de violência na juventude, concluindo: “Acredito na mudança para os jovens”.

Em uma entrevista ao Miami New Times pouco antes de sua morte, XXXTentacion lembrou ter crescido em circunstâncias difíceis, dizendo que brigava na escola para chamar a atenção da mãe. Expulso do Ensino Médio, ele foi matriculado em um programa para jovens problemáticos. Jonathan Hay, relações públicas especialista em gerenciamento de crises, disse que a equipe de XXXTentacion está “fazendo a coisa certa no que diz respeito aos negócios e à promoção da marca”. Mas acrescentou: “Eles ainda têm a oportunidade de fazer algo de bom para as pessoas”.

Mais conteúdo sobre:
rapXXXTentacion

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.