Iman Al-Dabbagh / The New York Times
Iman Al-Dabbagh / The New York Times

Cafés sauditas agora reúnem homens e mulheres, o que era proibido

Restaurantes e cafés eram comumente divididos em seções para 'homens solteiros' e 'famílias', reservadas para mulheres e grupos familiares mistos; lei desobriga segregação

Vivian Yee, The New York Times

31 de janeiro de 2020 | 06h00

RIAD, ARÁBIA SAUDITA – Para se ter uma visão destes tempos atordoantes na Arábia Saudita, às vezes vale a pena ler as resenhas de cafés especiais no Google Maps. “Visitei este lugar e fiquei completamente chocado!”, comentou no aplicativo recentemente Tarak Alhamood, um cliente do Nabt Fenjan, café de Riad. “Vocês estão infringindo as normas do país. Espero que esse lugar seja fechado permanentemente”.

A questão foi a decisão que tornou o Nabt Fenjan um ousado posto avançado na nova Riad: originariamente aberto apenas para mulheres, o café começou a permitir, no fim de 2018, que homens e mulheres se misturassem.

A decisão fez com que o café se adiantasse à lei, em um país onde, em sua maioria, restaurantes e cafés são divididos em seções para “solteiros” homens e “famílias”, reservadas para mulheres e grupos familiares mistos.

No início de dezembro, entretanto, o governo anunciou que estes estabelecimentos não seriam mais obrigados a segregar os clientes – o avanço mais recente nas reformas sociais implantadas pelo príncipe herdeiro Mohammed bin Salman, o governante saudita de fato.

O Nabt Fenjan não foi o único café do reino a abandonar discretamente as seções separadas nos últimos anos. “Acho que o motivo pelo qual isto esta já se tornou uma tendência é o fato de que as pessoas estão mais abertas à mudança”, afirmou Shaden Aklhalifah, de 30 anos, que estava estudando no Draft Café em Riad.

A clientela nestes estabelecimentos começou a mudar em função dos jovens, refletindo um país em que dois terços da população têm menos de 30 anos. Os bares são proibidos, e os concertos e filmes começam agora a se tornar muito mais disponíveis. Os programas à noite costumam limitar-se ao consumo de comida e bebidas (não alcoólicas). “É porque nós não temos o que fazer”, justificou Abdulrahman, um motorista de Uber, de Riad, que não quis se identificar. “Apenas estes cafés”.

Recentemente, numa noite de sexta-feira, no Medd Café em Jeddah, o pátio do estabelecimento estava lotado de jovens, homens e mulheres. Muitas delas com a cabeça descoberta.

No entanto, Riad é mais rigorosa do que Jeddah. Foi somente depois de intenso debate interno que o Kanakah, um café de Riad que por três anos manteve orgulhosamente somente clientela feminina, reabriu no ano passado como um espaço misto. Clientes de ambos os sexos fazem seus pedidos aos baristas.

“Eu queria provar que podia fazer  tudo sozinha com uma equipe exclusivamente feminina”, afirmou Khawater Alismaeel, uma jovem de 23 anos que aos 19 abriu o Kanakah. “Agora, estamos provando que é possível que  homens e mulheres trabalhem juntos”.

A mudança afastou alguns clientes. A reação doeu, lamentou Alismaeel. Mas ela tinha outra visão mais inclusiva – não apenas mulheres trabalhando ao lado de homens, como também mulheres que usam o niqab, o véu que expõe apenas os olhos, trabalhando ao lado de mulheres com a cabeça descoberta. “Tenho sorte de pertencer a esta geração”, afirmou. “Cinco anos atrás, isto não teria sido possível”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

“Tenho sorte de pertencer a esta geração”, afirmou. “Cinco anos atrás, isto não teria sido possível”.

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