Michel deGroot para The New York Times
Michel deGroot para The New York Times

Lembranças reais e imaginárias podem narrar histórias de vida

Objetos referentes a uma viagem, por exemplo, podem revelar experiências da vida pessoal outrora esquecidas

Matt Wasielewski, The New York Times

22 Abril 2018 | 10h00

Se você já trouxe para casa uma pedra de um lugar onde passou as férias, saiba que está preservando uma tradição que já soma milhares de anos, quando os peregrinos religiosos traziam para casa fragmentos de lugares santos.

Mesmo conforme os viajantes começaram a coletar objetos como lembranças, destaca Rolf Potts em seu novo livro, "Souvenir", as coisas que eles traziam para casa ainda tinham ecos de objetos sagrados.

Thomas Jefferson, por exemplo, arrancou um pedaço de madeira de uma cadeira na casa de Shakespeare em Stratford-upon-Avon e voltou para casa, na Virgínia, trazendo o fragmento consigo. Para Potts, essa atitude é "tanto uma tentativa de comunhão com a aura do bardo quanto uma comemoração de um momento de viagem".

Embora esse tipo de saque não fosse incomum mesmo durante o século XX, os produtos baratos voltados para o mercado de massas suplantaram a lembrança obtida por meio do vandalismo.

Mas o objetivo é o mesmo.

"Quando guardamos objetos de lembrança, não o fazemos para avaliar o mundo, mas para narrar nossa própria história", escreve Potts. O objeto pode então se tornar parte da nossa história pessoal, "uma forma de dar ares de mitologia às nossas próprias vidas".

Os vendedores de lembrancinhas de hoje em dia foram além dos cartões-postais e se adaptaram a uma clientela cuja mentalidade é mais voltada para as experiências.

Um visitante na loja do Rijksmuseum de Amsterdã pode escolher entre uma boneca inspirada na "Leiteira" de Vermeer ou na "Ronda Noturna" de Rembrandt. Por € 6, podem até provar a "Natureza morta com marmelos, nêsperas e uma taça", de Martinus Nellius, com uma jarra de chutney feito com os ingredientes do quadro.

"As lojas dos museus não se preocupam mais apenas em vender coisas - elas tentam acrescentar algo àquilo que o museu oferece", disse ao Times Diane Drubay, diretora-executiva da consultoria europeia We Are Museums.

O Walker Art Center, de Minneapolis, Minnesota, leva essa ideia ao extremo. As lembranças de sua coleção "Intangibles" não existem necessariamente. Em vez disso, são apresentadas como "um acervo online de objetos que não têm forma física".

Por US$ 5,99, uma autora chamada Claire L. Evans envia um resumo em PDF das "mais importantes visões de ficção científica de hoje". Por US$ 150, um comprador pode interagir com um artista por 15 minutos num espaço público. O fotógrafo Alec Soth envia aos amantes da arte 25 mensagens de Snapchat por US$ 100.

O que todos esses suvenires têm em comum é o desejo de seu comprador de registrar um momento. O sistema metroviário de Washington parece ter ignorado isso ao abrir sua loja de lembranças no mês passado.

Quando o metrô começou a funcionar, em 1976, "ele realmente parecia algo saído de um episódio de os 'Jetsons': um sistema futurista", disse ao Times o vereador local Jack Evans. "Agora, tudo tem mais de 40 anos e está caindo aos pedaços". Com grandes problemas financeiros, atrasos que se acumulam e trens que estão sempre em manutenção, a abertura da loja foi recebida com desprezo.

O jornal Express, distribuído no transporte público, criticou a loja M Shop, um quiosque que oferece abotoaduras de US$ 190, calças para ioga por US$ 45 e toalhas de banho por US$ 46. "Cuidado para não perder as abotoaduras: se uma delas cair nos trilhos", alertou o jornal, "o resultado pode ser um atraso que afeta todo o sistema".

Resta acompanhar qual será o destino da nova loja M Shop, mas até aqueles que detestam a jornada diária até o trabalho acabam participando de uma experiência humana que remonta a milênios.

"Eu certamente compraria algo", disse Ashley Kempson, 32 anos, usuária regular do transporte, "logo antes de me mudar da cidade, como recordação de todos os momentos difíceis que o metrô me fez passar".

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