National Archives e Records Administration
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Lembrando o lugar da ciência americana na Primeira Guerra Mundial

Novas tecnologias para matar, e também para proteger, no campo de batalha

Theo Emery, The New York Times

19 Novembro 2018 | 06h00

WASHINGTON - Sob a copa das árvores, uma equipe de geofísicos analisava o chão da floresta em busca  de relíquias da época da guerra. Um scanner eletromagnético fora posicionado em cima do tapete de folhas para colher dados sobre objetos que poderiam encontrar-se embaixo da superfície.

Em 1918, morteiros e projéteis da artilharia descreviam um arco na direção deste lugar, perto do Reservatório Dalecarlia, uma das maiores fontes de água da capital americana. Mas nenhum exército combateu aqui. Os projéteis eram lançados da American University, onde os cientistas criavam armas químicas, explosivos e máscaras antigás para serem usados na Primeira Guerra Mundial. 

Neste centenário do fim da guerra, a equipe que trabalhava nos bosques era um lembrete de que a Grande Guerra teve outro nome - “a Guerra dos Químicos”, refletindo o papel fundamental da ciência no conflito.

Alex Zahl, um gerente de projetos do Corpo de Engenharia do Exército dos Estados Unidos, refletia sobre a possibilidade de descobrir restos de experimentos de 1918. “Há 100 anos, eles usavam tecnologia de ponta na produção de armas químicas”, disse Zahl, 62. “Era a alta tecnologia da época, e aqui estamos nós, 100 anos mais tarde, usando alta tecnologia novamente garimpando o material que ficou para trás.”

A Primeira Guerra Mundial, que acabou com o armistício no dia 11 de novembro de 1918, foi infame pelas condições horrorosas dos campos de batalha. Cerca de 8,5 milhões de soldados foram mortos e mais de 21 milhões feridos. Muito menos é lembrado a respeito do papel da ciência.

A guerra acelerou o progresso tecnológico com a óptica, o rádio e o sonar. Os submarinos alemães  navegavam sob as ondas. A aviação, em sua infância no início da guerra, chegou à uma estrondosa maturidade no fim dela. Thomas Edison emprestou seus conhecimentos científicos à Marinha dos Estados Unidos.

Antes mesmo que os Estados Unidos entrassem na guerra, a Academia Nacional de Ciências antecipou a necessidade de colaboração entre os cientistas, universidades, indústrias e forças armadas. O presidente Woodrow Wilson criou o Conselho Nacional de Pesquisa em 1916, e, depois de assinar a declaração de guerra em 1917, o secretário do Exterior da Academia Nacional, George Hale, enviou um telegrama aos colegas na Grã-Bretanha, França, Itália e Rússia. “A entrada em guerra dos Estados Unidos une os nossos homens de ciência aos vossos em uma causa comum”.

Os maiores físicos, químicos e engenheiros apresentaram-se como voluntários. Entrando no conflito dois anos depois que a Alemanha lançara um ataque com gás cloro em Flandres, na Bélgica, o Exército dos Estados Unidos não tinha equipamentos de proteção e nenhuma capacidade para produzir ou usar armas químicas. Os médicos não tinham qualquer experiência para tratar soldados vítimas de gás ou com queimaduras químicas.

Para corrigir estas deficiências, o Departamento da Guerra criou um laboratório chamado Estação Experimental da American University. Até o final da guerra, cerca de 2 mil soldados, cientistas e civis trabalharam no campus. O exército alugou fazendas próximas para usar o terreno como campo de testes, parte do qual os soldados chamaram de “Vale da Morte”. O serviço tinha postos avançados em todo o país - uma iniciativa comparada por alguns ao Projeto Manhattan, que criou as bombas atômicas da Segunda Guerra Mundial.

Quando a guerra acabou, os cientistas revelaram ter criado uma nova arma chamada lewisite, um agente à base de arsênico. Ele seria lançado sobre os alemães em 1919, se a guerra ainda não tivesse terminado.

A estação experimental voltou à American University no fim do conflito. Ao longo das décadas, os desenvolvedores transformaram a terra ao seu redor em um bairro residencial de classe alta, transformando o “Vale da Morte” em “Spring Valley”. O legado da Primeira Guerra Mundial foi em grande parte esquecido até 1993, quando incorporadoras escavaram uma quantidade de morteiros, desencadeando um longo processo de limpeza.

No ano passado, Elliot Gerson e sua esposa, Jessica Herzstein, adquiriram a casa em que os pais de Jessica moraram durante dezenas de anos. O Corps investigou amplamente e despoluiu a propriedade, e afirma que no local não há nenhum risco para a saúde.

Mas permanecem de pé três estruturas originais da Estação Experimental. Na encosta coberta de árvores acima da rodovia, o mato esconde uma plataforma de concreto com, no meio, uma canaleta angular - a plataforma de lançamento de morteiros de alcance experimental. Atrás da casa, dois bunkers cobertos de hera erguem-se no meio das árvores. Gerson, 66, os apelidou de “sítio arqueológico na floresta”, a prova das realizações científicas de um século atrás.

No seu interior, ele apontou para os buracos nas paredes onde os cientistas devem ter bombeado o gás na câmara. Embora atualmente seja inócua, a estrutura é uma lembrança das armas terríveis testadas neste local.

“Estes são os restos fascinantes de um capítulo pouco conhecido, mas importante da história americana”, disse Gerson. “Alguns dos melhores químicos dos Estados Unidos foram reunidos aqui no esforço urgente de salvar os Aliados depois que os alemães lançaram armas químicas”.

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