Ko Sasaki para The New York Times
Ko Sasaki para The New York Times
Michael Schuman, The New York Times

16 de outubro de 2018 | 06h00

TÓQUIO - Quando Hiromi Otsuzuki entrou para a empresa japonesa de software Isana.net no cargo de gestora de recursos humanos, quatro anos atrás, ela era a única funcionária que trabalhava meio período. 

Com apenas 15 horas semanais de serviço para ter tempo de cuidar do enteado, Hiromi era como uma pária num país conhecido pelas longas jornadas dos trabalhadores. Os colegas a chamavam de "part-no obasan", ou tia do meio período. Apesar de ser uma especialista em sua área, ela era incumbida de tarefas como organizar o lixo reciclável.

"Ninguém me aceitava dentro da empresa", disse Hiromi, 48 anos. 

Mas a situação melhorou. Ela não é mais a única funcionária que trabalha meio período no escritório e recebeu uma promoção.

As coisas estão melhorando para as mães na força de trabalho japonesa. De acordo com levantamento divulgado em julho, quase 71% das mulheres com filhos estavam trabalhando. É a proporção mais alta já registrada. Os números, no entanto, ocultam alguns problemas importantes.

Pressionadas para observar suas responsabilidades com os filhos, muitas mães optam por empregos de meio período. No Japão, isso significa aceitar benefícios insuficientes, pouca estabilidade no emprego, menos oportunidades de aumento e salários baixos. No ano fiscal mais recente, apenas uma de cada quatro mães tinha emprego em período integral no Japão.

"Todas as empresas acreditam que abrir suas portas para a contratação de mulheres é o objetivo final", disse Kaori Sasaki, diretora da Comissão da Conferência Internacional das Mulheres nos Negócios. "Mas, na verdade, esse é o ponto de partida".

Para muitas mães, o difícil equilíbrio entre as responsabilidades com o lar e o trabalho dificulta a permanência no emprego. Desafios desse tipo costumam prejudicar a carreira das mulheres e contribuem para uma diferença salarial entre gêneros que é a terceira maior entre os países integrantes da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico, perdendo apenas para a Coreia do Sul e a Estônia.

Fortes pressões econômicas estão produzindo algumas mudanças. Os gestores estão enfrentando a escassez de mão de obra em meio a um baixo desemprego e uma força de trabalho cada vez mais velha.

O primeiro-ministro Shinzo Abe fez da inclusão das mulheres no espaço de trabalho parte de sua campanha para injetar mais vida na economia do Japão. Prometeu mais acesso a creches melhores, e o parlamento apresentou leis exigindo que as grandes empresas afirmassem seu compromisso de contratar mulheres.

As defensoras dos direitos das mulheres dizem que é necessário fazer mais. Elas defendem leis mais duras para a promoção da igualdade de gêneros e o treinamento para abrir os olhos dos executivos homens para as necessidades de suas colegas.No momento, os avanços são observados numa escala menor.

Depois de contratar Hiromi, a Isana.net construiu uma equipe de oito mães que trabalham em meio período - de um total de 45 funcionários da equipe.

Isana Ishitani, que fundou a Isana.net em 2001, permite agora que os funcionários da Isana.net tragam os filhos para o escritório se necessário, alternando entre jornadas de meio período e período integral para terem tempo de cuidar dos filhos ou dos pais idosos.

"Queremos que os funcionários permaneçam na empresa até se aposentarem", disse ele. "Para tanto, as pessoas precisam se adaptar a muitas coisas ao longo de suas vidas".

Enquanto isso, para Hiromi, o restante do Japão não tem escolha a não ser incluir pessoas como ela.

"Por sorte, a escassez de mão de obra no Japão é tamanha, que até as 'part-no obasan' são bem-vindas", disse.

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