François Olivier para The New York Times
François Olivier para The New York Times

Leonard Cohen como o novo santo de Montreal

Mais de um ano após a morte do poeta, romancista e cantor-compositor, sua história está passando por um ressurgimento cultural na cidade

Dan Bilefsky, The New York Times

14 Março 2018 | 10h00

MONTREAL - Em uma sala octogonal do Musée d’Art Contemporain de Montreal, um espectador em uma espécie de transe cantarola o “Hallelujah” de Leonard Cohen, enquanto alguns números sobre uma tela digital saltam para o 631. É assim que muitas pessoas ouvem a versão de Cohen do hino secular nesse momento, cada uma delas representada por uma voz gravada que cantarola a canção.

Em um bairro próximo fica o Bar Suzanne, um novo local clandestino que tem o nome de uma das mais famosas musas e canções de Cohen. Olivier Farley, o proprietário, disse que escolheu o nome porque “todo mundo em Montreal tem orgulho de Leonard Cohen - franceses e ingleses; ele é uma figura sagrada aqui”.

E há ainda o imponente mural em cores fantásticas em que estão representadas nove histórias completas na parede lateral de um edifício no bairro Plateau-Mont-Royal. Os visitantes vêm diariamente homenagear o retrato de Cohen, de olhar melancólico por baixo do chapéu Fedora, que era a sua marca inconfundível. No centro da cidade, há um segundo mural, ainda mais imponente, inspirado em Cohen.

Montreal é um autêntico exemplo da mania inspirada por Cohen. Mais de um ano após a morte deste poeta, romancista e cantor-compositor, aos 82 anos, ele se tornou uma espécie de profeta urbano da cidade.

Há uma mostra no museu, intitulada “Leonard Cohen: a Crack in Everything”, sobre a sua vida e obra. 

Os moradores obcecados por Cohen fazem visitas a Moishes, a famosa churrascaria, para experimentar as costeletas de cordeiro que eram as suas favoritas.

No panteão dos mais importantes expoentes do panorama cultural de Montreal, o cantor sentimental e abnegado ocupa um espaço em que predomina uma grande exaltação.

Mas juntando-se com o homem dotado de uma profunda sensibilidade espiritual, cuja arte foi alimentada tanto pelo judaísmo, quanto pelo catolicismo e o budismo, Cohen atrai uma forma de devoção que beira o messiânico.

Gideon Zelermyer, o cantor da sinagoga Shaar Hashomayim da cidade, onde Cohen celebrou o seu bar mitzvah, disse que as melodias litúrgicas da sua formação trouxeram um alívio a Cohen quando começou a sofrer de câncer. Foi enterrado no cemitério da sinagoga ao lado de três gerações da família. “O túmulo de Cohen tem sempre visitantes, não importa a altura da neve”, disse Zelermeyer.

Andrew McClelland, também conhecido como Li’l Andy, um cantor country de 35 anos, de 1,9 metro de altura, afirmou: “a reverência por Cohen tornou-se uma verdadeira mania cívica”. Recentemente, ele conduziu um grupo de cantores pelas trilhas de “The Futures” (1962), um dos álbuns mais pungentes e cerebrais de Cohen. O público composto de hippies de meia-idade e de jovens de pouco mais de 20 anos na sala de concertos Gesù, lotada, ouviu arrebatada a apresentação.

Em uma cidade por vezes dividida, com uma minoria de língua inglesa e de maioria francesa, McClelland observou que, após a morte, Cohen, assim como em vida, se tornou “um santo patrono secular venerado por todos”.

As ligações inextricáveis de Cohen com Montreal se intensificaram em janeiro, depois que ele recebeu o primeiro Grammy póstumo por sua apresentação solo em “You Want It Darker”, uma triste elegia que ele cantou com o back coral da sinagoga Shaar Hashomayim.

No museu, a reverência pelo autor atinge um crescente em uma instalação em vídeo em canais múltiplos da artista sul-africana Candice Breitz, no qual 18 homens idosos cantam simultaneamente as letras de todo o álbum da volta de Cohen “I’m Your Man”, acompanhado pelo coral. À medida que as vozes gravadas surgem individualmente e os homens dançam, balançam ou choram, o reflexo de uma masculinidade mais velha e de um super-fanatismo é ao mesmo tempo cômica e emocionante.

A fixação cultural em Cohen reflete um homem que adorava fazer parte de um submundo literário e artístico da cidade. Nascido em 1934 de uma afluente família judaica, Cohen descia as colinas do seu bairro exclusivo, Westmount, para tocar música country nos cafés reais do centro de Montreal, quando ainda era adolescente. Tornou-se parte de um círculo literário de vanguarda da cidade e recitava os seus poemas nos clubes de jazz.

Embora tenha vivido parte de sua vida em Nova York, Londres, na ilha grega de Hydra e em Los Angeles, Cohen observou: “preciso continuar voltando para Montreal a fim de renovar meus vínculos neuróticos”.

Ele tinha uma casa em Plateau-Mont-Royal, perto do Boulevard Saint-Laurent, uma vibrante rua de imigrantes onde ver Cohen de relance era o passatempo favorito nas lojas de especialidades locais.

O empresário aposentado, Edward Singer, 71, escreveu um romance baseado na canção “Suzanne” de Cohen, e guardava sobre a sua mesa uma montagem com a foto dele ao lado do seu ídolo.

“Ele era um tipo único, um judeu em uma comunidade de língua inglesa em Montreal, que se tornou amado no mundo inteiro”, afirmou. “Alguns perguntam: ‘O que fazia Jesus?’ Eu me pergunto: ‘O que Leonard fazia?’”

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