Dmitry Kostyukov para The New York Times
Dmitry Kostyukov para The New York Times

Leonardo da Vinci, o mestre da transformação, brilha no Louvre

Acervo de 160 obras, incluindo pinturas, desenhos e cadernos, mostra a mão e a mente do grande artista em ação constante

Holland Cotter, The New York Times

15 de novembro de 2019 | 06h00

PARIS - Em se tratando de artes visuais, a retrospectiva de Leonardo da Vinci no Louvre é o equivalente a uma saudação com salva de tiros de 21 armas acompanhada da fanfarra de trompetes e trombones. Mas, em suas tonalidades, a mostra, em honra aos 500 anos da morte de Leonardo, é mais silenciosa, menos súbita e melhor.

É também o rastro de fumaça de um talento que tem sido usado como ideal romântico de como deve ser um Grande Artista, mas que se descolou muito desse ideal; que se identificava acima de tudo como um homem de ciência; que passou tanto tempo escrevendo quanto produzindo arte e que ignorava (e perdia) prazos de obras encomendadas quase até o dia de sua morte.

Esse dia foi 2 de maio de 1519. E sua morte, aos 67 anos, ocorreu na França, onde ele passou seus últimos anos como artista da corte do rei Francisco 1º. A residência de Leonardo lá ajuda a explicar por que uma porcentagem tão alta das obras que sobreviveram - entre 15 e 20 pinturas são atribuídas a ele, geralmente - acabaram na coleção do Louvre, o que, por sua vez, ajuda a explicar por que esse tributo está acontecendo na França e não na Itália, sua terra natal.

Sabemos algo a respeito da trajetória de vida do artista a partir de fontes contemporâneas, principalmente pela fascinante (mas por vezes deturpada) minibiografia de Giorgio Vasari. Aprendemos que Leonardo nasceu da união extraconjugal entre uma jovem filha de fazendeiro e um tabelião em ascensão que nunca o reconheceu como filho. Vasari nos conta que o jovem Leonardo era belo, magnificamente habilidoso na matemática e, após ter sido publicamente acusado de abusar de um rapaz mais novo, se mostrava discretamente (e até enfaticamente) gay.

Ele era um sujeito complicado. Alegre e obscuro, generoso e sovina, autoconfiante e inseguro. Junte tudo e temos o retrato de um carismático outsider. A mostra, que exibe cerca de 160 trabalhos e vai até 24 de fevereiro, mergulha fundo no começo de sua carreira, como aprendiz na oficina do pintor e escultor Andrea del Verrochio. E, no centro da galeria de entrada, é exibida uma das principais obras de Verrocchio, a escultura de bronze em tamanho maior que real Cristo e São Tomé.

Forjada quase em um só pedaço de metal e considerada uma maravilha da engenharia em sua época, a obra é uma lição concreta da mescla entre realismo e graciosidade que define a arte florentina do século 15; assim como os cerca de dez estudos de tapeçaria instalados nas paredes ao seu redor - alguns de Verrocchio, o mestre; alguns de Leonardo, o estudante.

Por cerca de 40 anos, a carreira de Leonardo perpassou a Florença dos Medici, a Milão ascendente e a Roma papal para, finalmente, levar o artista à França. As encomendas apareceram cedo, rapidamente. Para cada projeto, Leonardo esticava o prazo de entrega até o limite - e muito além. Havia certas pinturas que eram finalizadas, às vezes por assistentes. 

A pintura de retábulo Virgem das Rochas, produzida em duas variações, foi uma delas. A versão do Louvre, mais antiga, pintada entre 1483 e 1485, da qual o artista participou totalmente, estabeleceu a “aparência" básica as obras de Leonardo: um tipo de super-realismo mágico e fantástico, ainda que minucioso à observação.

Leonardo manteve a Mona Lisa - obra que parecia estar aparentemente em progresso - consigo, bem como outras pinturas, como São Jerônimo no Deserto, emprestado do Vaticano. Os curadores da mostra também incluíram dezenas de desenhos de estudos do artista.

Neles, vemos a mão e a mente de Leonardo em ação. E vemos essa ação em busca constante pelo movimento, em uma galeria devotada ao seu trabalho científico experimental, que ele considerava sua mais significativa realização, o legado pelo qual ele queria ser lembrado.

Esse material foi registrado em grande parte em cadernos de notas que a mostra dividiu em categorias disciplinares: anatomia humana, botânica, zoologia, cosmologia e engenharia. As imagens desenhadas são ao mesmo tempo precisas e poéticas - um crânio humano cheio de personalidade; uma confusão de filhotes de gato; uma ondulante flor de estrela-de-Belém; o primeiro helicóptero do mundo - todas as imagens acompanhadas de textos, ou completamente envolvidas pelas palavras.

E então, essa exposição profundamente conceitual, que sofre para tornar clara a vida e arte de Leonardo, é encerrada com mistério, nas imagens finais que acompanham o espectador na última sessão. Uma delas é um retrato de perfil de Leonardo, feito com giz vermelho pelo artista Francesco Melzi, seu assistente de longa data. A partir dele, Leonardo olha impassível para a sala, na direção de um desenho de sua autoria chamado O Dilúvio.

Feito provavelmente um ou dois anos antes de sua morte, o desenho é uma explosão gestual, uma imagem turbulenta - catastrófica? Em êxtase? - de um mundo devastado pelo vento e inundado pela chuva, possuído pelo processo de vir a ser ou se despedaçar. Não sabemos qual. Para ele, ambos eram a mesma coisa. A transformação - da luz à sombra e de volta à luz - era uma manifestação de Deus e o motor de sua arte. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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