Christophe Pallot/Agence Zoom/Getty Images
Christophe Pallot/Agence Zoom/Getty Images
Brian Pinelli, The New York Times

14 de março de 2020 | 06h00

CRANS-MONTANA, SUÍÇA – A austríaca Elisabeth Reisinger tentava fincar seus esquis em uma curva fechada à direita, logo depois de um salto, no percurso montanhoso de Mont Lachaux. Enganada por uma compressão na neve, ela caiu para trás, perdeu o controle e bateu forte. Reisinger, de 23 anos, foi transportada de avião e tratada em um hospital próximo. Quebrou a tíbia e rompeu o ligamento cruzado anterior do joelho.

A lesão no joelho, que ocorreu no mês passado e acabou com sua temporada, foi mais uma de uma série alarmante na Copa do Mundo de esqui. É uma questão que o esporte precisa enfrentar. “Infelizmente, é a lesão padrão do nosso esporte”, disse Peter Gerdol, diretor de provas femininas da Copa do Mundo, sobre lesões no joelho como a de Reisinger. “Sempre me sinto mal quando isso acontece, mas infelizmente não podemos evitar. Faz parte do esporte”.

A eslovena Ilka Stuhec, bicampeã mundial de downhill, disse que a natureza fortemente competitiva desse esporte de adrenalina de 100 anos é um dos motivos para seu alto número de acidentes e lesões”. “Se você quer vencer, precisa chegar muito perto da linha que separa o esqui confortável e a perda do controle”, disse Stuhec. “Quando você tenta forçar essa linha, os erros acontecem e, às vezes, você não consegue lidar com a situação”.

Mas atletas correndo riscos a velocidades que chegam a 140 quilômetros por hora não são os únicos motivos para as lesões: também há o advento de esquis de formato alto, mais curto e mais largo, que aumentam a força e a tensão nos joelhos; o extenuante calendário de provas do final de outubro a meados de março; e o ônus de preparar circuitos seguros em clima imprevisível.

Nesta temporada, cerca de 20 homens e 30 mulheres foram desclassificados por lesões nas provas de esqui, mais da metade por rompimento do ligamento cruzado anterior ou outra lesão no joelho. Entre os atletas que se lesionaram estão Sofia Goggia, italiana que conquistou ouro nas Olimpíadas de 2018, e a alemã Viktoria Rebensburg. Ambas sofreram lesões no final da temporada em uma prova em Garmisch-Partenkirchen, Alemanha, no mês passado. Goggia quebrou o braço esquerdo depois de cair; Rebensburg machucou um joelho 24 horas depois de vencer uma bateria.

Do lado dos homens, Dominik Paris, 14 vezes vencedor da Copa do Mundo da Itália, rompeu o ligamento cruzado anterior enquanto treinava em janeiro. Adrien Théaux, da França, sofreu um destino semelhante. Thomas Dressen, da Alemanha, deslocou os dois ombros após uma queda em 2 de março.

Em uma tentativa de limitar lesões, a Federação Internacional de Esqui (FIS, na sigla em inglês) anunciou recentemente que um grupo de especialistas estudaria o assunto. “Temos um problema contínuo e precisamos admitir que esse grupo também não encontrará a resposta que irá resolver todos os problemas”, disse Atle Skaardal, da Noruega, ex-diretora de provas femininas da Copa do Mundo que agora trabalha no projeto de supervisão de lesões. “Queremos ficar de olhos bem abertos, verificar tudo e fazer investigações sistemáticas sobre a metodologia”.

As evidências estatísticas fornecidas pela FIS mostram que as lesões aumentaram na última temporada, depois de terem diminuído nas temporadas anteriores. “É muito difícil alcançar tolerância zero com as lesões”, disse Skaardal. “É como pedir para evitar acidentes de trânsito”.

Breezy Johnson, atleta dos Estados Unidos, disse que é preciso haver maior cooperação entre as nações. “Espero que um dia possamos chegar a um lugar onde os alemães, os americanos e todos os outros atletas possam compartilhar informações médicas, para que possamos nos reabilitar com rapidez e segurança, para que ninguém volte a sofrer com as mesmas lesões”, Johnson disse.

Tina Weirather, de 30 anos, do Liechtenstein, disse que a FIS deveria fazer mais para evitar as lesões. Ela propôs modificações nas roupas de corrida, para limitar as velocidades e impedir deslizamentos após as quedas. Ela disse que os representantes da FIS e alguns atletas rejeitaram a ideia.

“Eles não estão ouvindo”, disse Weirather. “Não querem mudar nada. Há muita política e pouco pensamento construtivo. Este é o problema da FIS. Você tem esses grupos de interesse, e a prioridade não é o esporte”. Gerdol, diretor de provas, disse estar “bastante otimista” com a possibilidade de se encontrarem soluções.

“Isso cabe principalmente aos especialistas, aos médicos neste caso, que podem nos ajudar e, assim que obtivermos alguma resposta, podemos agir, mudar regras ou fazer o que for preciso para limitar as lesões”, afirmou. “A prioridade, para nós, é ter competições seguras o tempo todo”. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

Tudo o que sabemos sobre:
esqui

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.