Kristine Madjare para The New York Times
Kristine Madjare para The New York Times

Letônia combate lavagem de dinheiro de bancos

País é um dos mais famosos centros de lavagem de dinheiro do mundo

Jack Ewing, The New York Times

10 de agosto de 2019 | 06h00

RIGA, LETÔNIA - Um deles era um assessor de investimentos desonesto que utilizou o esquema das pirâmides para fraudar russos desavisados em US$ 10 milhões. Outro foi um homem de negócios taiwanês que ajudou a Coreia do Norte a comprar instrumentos para o seu programa de armas nucleares. Outro ainda foi um político ucraniano corrupto que fez desaparecer milhões de dólares em dinheiro desviado do seu país.

Durante anos, segundo autoridades da Europa e dos Estados Unidos, alguns bancos de Riga, cidade portuária do Báltico, se especializaram em ajudar estes e outros criminosos a tirar suas impressões digitais do dinheiro sujo antes de transferi-lo para paraísos fiscais no exterior.

A publicidade desonesta afastou investimentos honestos, intensificando ao mesmo tempo a pressão dos Estados Unidos que tentam impedir que a Coreia do Norte e cidadãos russos que constam na lista negra se esquivem de sanções financeiras. Em resposta, as autoridades letonianas prometeram reprimir os bancos corruptos que tornaram o país um dos mais famosos centros de lavagem de dinheiro do mundo, principalmente dinheiro que saía da Rússia.

Para a Letônia, uma nação com dois milhões de habitantes, os riscos são enormes. Sua economia luta contra a queda dos investimentos, e o país poderá  acabar em uma lista cinzenta de centros de lavagem crônica de investimentos, como foi definida por uma força tarefa internacional.

Esta designação reduziria consideravelmente o acesso da Letônia ao sistema financeiro global, o que implicaria que empresas locais teriam ainda mais dificuldades para realizar transações com parceiros estrangeiros, e os letões não mais poderiam utilizar os seus cartões de crédito no exterior.

A perspectiva preocupa o governo letão a ponto de colocar a questão da limpeza da lavagem de dinheiro acima de outras tarefas, como a reformulação do sistema de saúde e a melhoria das escolas e universidades, que se encontram abaixo do padrão. “Trata-se da reputação do país”, afirmou Janis Reirs, ministro das Finanças. “É por isso que dissemos que esta é a prioridade número 1 do nosso governo”.

Observadores estrangeiros não duvidam da sinceridade de Reirs, mas se mostram céticos quanto à possibilidade de um país pequeno e relativamente pobre como a Letônia ganhar uma batalha travada essencialmente contra oligarcas russos e figuras do crime organizado, notórias por interferirem na política local.

Os vínculos com os sistemas financeiros americano e europeu começam a se esgarçar, e a Letônia está retrocedendo em sua persistente luta para desligar-se da Rússia e voltar-se para o Ocidente. Neste sentido, a lavagem de dinheiro contribui para o presidente russo Vladimir Putin alcançar o seu objetivo de desestabilizar a União Europeia enriquecendo os seus aliados.

No ano passado, o Departamento do Tesouro dos Estados Unidos decretou rapidamente o fechamento do ABLV Bank, o segundo maior da Letônia, alegando práticas duvidosas da instituição. O governo cortou substancialmente o número de contas bancárias que pertencem a não residentes, sua maior fonte de lavagem de dinheiro. Entretanto, eles constituem ainda uma grande parcela de clientes dos bancos do país.

Os banqueiros letões insistem que muitos dos seus clientes não residentes são empresários legítimos. “Chamamos a isto de negócios internacionais”, disse Oliver Bramwell, o diretor do PNB Banka, um conhecido banco de crédito contra o qual não há qualquer acusação. “O estereótipo é algum oligarca russo sujo que lava dinheiro através de holdings das Ilhas Virgens Britânicas”, afirmou Bramwell. “É possível que esta fosse a realidade de 20 anos atrás. Mas hoje as exigências são muito rigorosas”.

No entanto, um relatório das autoridades europeias revelou que a justiça continua relapsa. Ninguém jamais foi para a cadeia na Letônia por causa de lavagem de dinheiro, afirma o documento. As penalidades financeiras são modestas e são consideradas simplesmente o custo dos negócios.

O país tem cerca de sete meses para terminar a limpeza antes de ser incluído na lista das nações onde se faz lavagem de dinheiro, elaborada pela Financial Action Task Force, uma aliança internacional que conta entre os seus membros Estados Unidos, União Europeia e China. “Estamos fazendo todo o possível para não ingressar nesta lista cinzenta”, disse Liga Klavina, funcionária do Ministério das Finanças. “Acho que conseguiremos”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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