Jennifer Kingson
Jennifer Kingson

Nova estratégia terapêutica: lhamas que se deixam acariciar

Lhamas estão se tornando mais comuns nas casas de repouso, mas especialistas afirmam que não há provas consistentes do seu valor terapêutico

Jennifer A. Kingson, The New York Times

01 de janeiro de 2020 | 06h00

STOCKDALE, TEXAS - Lhamas de 140 quilogramas andavam tranquilas pela casa de repouso, abaixando a cabeça para serem acariciadas pelos residentes emcadeiras de rodas e parando pacientemente para que os enfermeiros tirassem selfies. “Tomou banho hoje?”, perguntou uma residente, Jean Wyatt, a Tic, um lhama branco de Zoe Rutledge (Ele tinha tomado). 

Zoe, caloura do secundário, estava lá com os pais, Jeff e Carol Rutledge, que mantêm 13 lhamas e alpacas em sua casa, em Stockdale, uma cidade satélite de San Antonio. Três delas foram aprovadas no exame de qualificação para se tornarem lhamas de terapia, um teste que inclui serem tocadas por pessoas estranhas e permanecerem imóveis quando as pessoas fazem alguma pergunta a elas.

“A gente procura as que não fogem das pessoas e são calmas”, disse Zoe, explicando como a família escolhe os animais que podem ir para casas de repouso para enfermeiras e veteranos, centros de reabilitação e caminhadas para grupos como a Associação da Síndrome de Down do Sul do Texas.

Lhamas e alpacas estão se tornando mais comuns em ambientes terapêuticos. Enquanto algumas são registradas no Pet Partners, um centro de animais para fins terapêuticos, na maior parte se trata de animais que convivem com famílias, e são levadas pelos proprietários a hospitais, escolas e centros para idosos onde são de grande ajuda para aliviar o estresse das pessoas. 

O fator novidade faz parte do apelo, e particularmente aqueles imensos olhos que despertam empatia. Entre os animais aos quais os biólogos se referem como megafauna carismática - tigres, elefantes, pandas gigantes e afins - as lhamas são uma das poucas espécies que as pessoas podem acariciar.

“Para algumas pessoas, os cachorros são um pouco demais, ou elas afirmam que a sua experiência com eles não foi das melhores”, disse Niki Kuklenski, que há muito tempo cria lhamas em Bellingham, Washington, um dos primeiros a usar os animais para um trabalho terapêutico.

Ela disse que as suas lhamas, principalmente uma fêmea chamada Flight, “consegue ler as pessoas. Por isso, quando ela vai para algum destes lugares onde alguém se mostra muito entusiasmado e excitado para vê-la, ela abaixa a cabeça para receber carinho”. Mas se a pessoa parece apreensiva, “Flight fica imóvel. Ela é muito calma”.

Os donos das lhamas costumam dizer que os seus animais têm um sexto sentido em relação às pessoas necessitadas. Carol Rutledge afirma que a sua lhama para terapia, Knock, um macho, vai voluntariamente até o leito do paciente de uma casa de repouso e permanece em silêncio enquanto a pessoa procura tocá-lo. Mona Sams, terapeuta ocupacional de Roanoke, Virginia, tem oito lhamas e cinco alpacas para usar em sua prática, para atender crianças com autismo e outros distúrbios, e também adultos com problemas de desenvolvimento.

Uma menina com uma forma grave de paralisia cerebral que tem ataques, vem duas vezes por semana. “Tenho uma lhama que literalmente senta com ela uma hora inteira, cara a cara”, disse Mona. “Ela chama Woolly de ‘conselheiro’, e costuma passar a primeira parte da hora contando a Woolly as dificuldades que está tendo, e ele fica sentado ao seu lado o tempo todo”.

Mona é a principal autora de um estudo, aparentemente o único publicado sobre o emprego de lhamas como animais para terapia. O artigo, que saiu em 2006 na revista American Journal of Occupational Therapy, descreve um reduzido teste clínico em que crianças com autismo praticaram terapia ocupacional padrão ou terapia que envolvesse cuidar de lhamas.

Os resultados “indicaram que as crianças apresentaram um uso muito mais amplo da linguagem e uma interação social consideravelmente maior nas sessões de terapia ocupacional que incorporavam animais do que nas sessões comuns de terapia ocupacional”, escreveram os autores. Hal Herzog, professor emérito de psicologia da Western Carolina University, disse que estes resultados não surpreendem, embora não provem a eficácia da terapia assistida com animais. 

“A evidência de efeitos de curto prazo, provavelmente transitórios, da interação com animais nas clínicas de tratamento para crianças autistas são excelentes - acariciar um cachorro, ou interagir com uma lhama, ajuda a baixar os níveis de estresse”, disse Herzog. “Mas quando pensamos em terapia, pensamos em um tratamento a longo prazo, e eu acho que as provas neste caso não são muito convincentes”.

No estudo de Mona Sams sobre as lhamas, ele disse, as crianças que receberam a terapia comum faziam “atividades chatas”, em comparação com as crianças que podiam brincar com as lhamas. “Não tenho objeções ao estudo da lhama, se ela faz com que os pacientes se sintam melhor por algum tempo, mas não a chamaria de terapia”.

No entanto, Bobbie West, a diretora de atividades da casa de repouso de Stockdale, afirmou que não divulgava quando as lhamas fariam as visitas, para que os residentes não ficassem excessivamente excitados. “Eles amam as lhamas”, disse. “Uma senhora, que pode estar de péssimo humor, quando chega a lhama fica com uma aura nova ao seu redor”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

Tudo o que sabemos sobre:
LhamaTerapia Alternativa

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.