Diego Ibarra Sanchez para The New York Times
Diego Ibarra Sanchez para The New York Times

Fidelidade dividida entre os manifestantes xiitas no Líbano

Parte da população acredita no líder do Hezbollah, ainda que não apoie suas política

Vivian Yee e Hwaida Saad, The New York Times

13 de fevereiro de 2020 | 06h00

KAFR RUMMAN, LÍBANO - Há uma expressão libanesa que se traduz aproximadamente como ‘levar um tapa na cara’. Ao que tudo indica, foi o que aconteceu com os manifestantes que protestavam contra o governo, como mostrou a TV, denunciando Hassan Nasrallah, o líder da milícia fundamentalista islâmica e do Partido Hezbollah, nos primeiros dias do levante libanês.

O tapa que eles receberam de um partido que não tolera o que considera um retrocesso, e exerce uma enorme influência no governo do Líbano, pode ter sido físico ou verbal. De qualquer modo, eles voltaram a aparecer na TV dias depois - desta vez, para pedir desculpas.

“Sayyid significa muito para mim. Milhares de pessoas o admiram, e eu sou o nº 100 da lista”, disse um homem, usando um título honorário para Narsallah, que acusara anteriormente de deixar a própria comunidade morrendo de fome. O pedido de desculpas foi o prelúdio de vinganças mais violentas contra os manifestantes da comunidade xiita, a maior das 18 seitas religiosas reconhecidas do Líbano, que há décadas recorrem ao Hezbollah buscando proteção, empregos, serviços sociais e a ideia de luta comum contra os inimigos como Israel.

No Líbano, a agitação entra no seu quinto mês, e os protestos reúnem pessoas de todos os níveis, no desprezo pelos líderes que não atendem às suas necessidades básicas: eletricidade 24 horas por dia, uma economia funcional ou um bom governo. Muitos xiitas estão diante de um dilema: Como conciliar a fidelidade ao Hezbollah com o apoio deste ao status quo? “Eu sou a favor da resistência contra Israel”, afirmou Ali Ismail, um manifestante em Kafr Rumman, uma cidade no sul do país que há muito tempo é dominada pelo Hezbollah e pelo Amal, o outro importante partido xiita. “Mas também apoio a resistência contra a corrupção”.

A história recente de Ismail é igual à de outros manifestantes. Ele se endividou para pagar as mensalidades escolares dos filhos, e sua esposa, Farah, não consegue mais trabalho como professora por não ter ligações com os partidos. O homem que pediu publicamente desculpas a Nasrallah se arrependeu do insulto, mas não deixou de fazer um apelo. “Por favor, ajudem-nos”, ele pediu no vídeo em que se desculpava. “Estamos realmente morrendo de fome. Não conseguimos emprego”.

Entre os xiitas, os protestos são provocados em parte pelos sucessos militares do Hezbollah e pela negligência dos problemas internos, disse Randa Slim, uma analista libanesa do Middle East Institute. As ameaças à segurança que motivavam a base do grupo diminuíram em termos de urgência. Mas quando o Hezbollah ingressou na política libanesa, em 2005, para proteger o seu status de exército clandestino, sustentou a incompetência e a corrupção do governo.

“O Hezbollah nunca deu prioridade às questões básicas, mas de repente se defrontou com uma comunidade que está afirmando fundamentalmente: o pão é a prioridade”, disse Randa. “Agora o partido faz parte de um governo corrupto, e não pode acusar os outros de corrupção; ele faz parte da equação da corrupção”.

A certa altura, Nasrallah, que muitos xiitas reverenciam sinceramente, passou a criticar os protestos e pediu aos que os apoiavam que fossem embora. Muitos que não pertencem ao Hezbollah atribuem a Nasrallah a expulsão de Israel do sul do Líbano depois de 18 anos de ocupação. Seu filho morreu combatendo os israelenses, e ele é considerado incorruptível. Embora ele não exerça um cargo, o Hezbollah e os seus aliados dominaram  o último governo, que renunciou em outubro, bem como o novo gabinete formado em janeiro.

Os partidários do Hezbollah e do Amal, liderado por Nabih Berry, o presidente do Parlamento considerado por muitos corrupto, agrediram os manifestantes inclusive com bastões, embora os partidos não tenham encorajado os ataques diretamente.  Os manifestantes informaram que têm recebido ameaças por telefone, advertências anônimas pelo WhatsApp de “consequências negativas para a sua vida” ou de visitas de representantes do partido exigindo que acabem com os protestos.

Talvez as táticas mais eficientes do Hezbollah sejam insinuar que estes protestos são o produto de uma conspiração externa contra os xiitas. Mas quando os manifestantes são amigos, vizinhos e parentes, a coisa se torna difícil. Jad Jarjoni, um manifestante de Tiro que entrou como voluntário no Hezbollah na Síria e agora está desempregado, disse  que não foi ameaçado diretamente, mas que um dos que o atacaram o feriu com uma faca no braço. “Meu pai perguntou por que eu estou me metendo em encrencas”, ele disse, “mas  eu falei que estou fazendo a coisa certa”.

No entanto, quanto mais os protestos continuarem sem nenhuma mudança substancial, maior será o desgaste. Ihab Hassane, de 29 anos, um manifestante xiita de Tiro, disse que perdeu as esperanças e pretende deixar o país. Mas ele acredita que os manifestantes conseguiram pelo menos uma coisa. “As pessoas assistiam aos discursos de Nasrallah ouviam sem fazer perguntas”, falou Hassane. “Agora não mais, embora ainda o apoiem, começam a fazer perguntas”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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