Diego Ibarra Sanchez para The New York Times
Diego Ibarra Sanchez para The New York Times

Líbano pressiona sírios a voltarem para casa

Depois de sete anos de guerra, um país quebrado dá sinais de cansaço

Vivian Yee, The New York Times

16 Agosto 2018 | 15h15

ARSAL, LÍBANO - O prefeito estava esgotado. Dormir às 3h e acordar às 6h era uma rotina que cansava. Cansava o fato de não poder ajudar, e ainda suportar anos de invasão dos combatentes do Estado Islâmico em sua cidade, que matam suas crianças e obrigam a uma quarentena. Cansado do número cada vez maior de refugiados sírios que acabaram eclipsando seu eleitorado - e de seu eleitorado também cansado dos refugiados a ponto de querer tomar de volta sua cidade pela força.

Tudo isso caiu sobre os ombros do prefeito de Arsal, no Líbano: os postos de controle  para negociar, refugiados para administrar, o povo do lugar para acalmar.

"De noite, volto para casa e mais uma vez ouço os problemas das pessoas", disse o prefeito, Bassil Hujeiri. "Meu expediente não acaba, preciso fechar a porta".

O prefeito tem motivos para acreditar que a provação pela qual sua cidade está passando em breve acabará. De sua parte, os refugiados ainda vivem um pesadelo.

Sete anos de guerra na Síria provocaram o deslocamento da metade da população do país, deixando milhões de refugiados à deriva entre o deserto de sua terra e o vácuo do exílio. Entre as muitas cidades libanesas e jordanianas que os receberam estava Arsal, onde quartos alugados e cidades de barracas transbordavam a certa altura com 120 mil sírios - quatro vezes a sua população libanesa.

O Líbano aceitou tantos sírios - mais de um milhão - que agora eles são 25% da população do país. Mas enquanto o governo sírio se aproximava da vitória, o presidente Bashar Assad declarou que o país estava seguro para os sírios. Agora, os anfitriões libaneses relutantes começam a pressioná-los a partir, e os refugiados se preparam para o difícil caminho de volta.

No mês passado, comboios com cerca de 2 mil sírios cruzaram a fronteira, devolvendo as famílias para os lares que abandonaram anos atrás - embora poucos saibam se suas casas sobreviveram às bombas e às granadas.

Muitos talvez permaneçam no Líbano. Milhares de sírios em Arsal pediram para regressar, mas foram impedidos pelo governo de Assad. Muitos outros acreditam que se Assad permanecer no poder,  resultado tacitamente aceito pelas potências globais que regateiam sobre o futuro da Síria, só voltarão para a prisão, a tortura, a morte ou o serviço militar obrigatório.

"Aqui, eu sou um refugiado", disse um ex-soldado sírio que se identificou apenas com seu nome de guerra, Abu Fares. "Na Síria, sou um traidor".

Todos os refugiados que estão deixando Arsal decidiram que, apesar de tudo, o lar é preferível a uma barraca sem futuro.

"Minha vida lá será melhor do que aqui", afirmou Mohsin Ishac, ex-motorista de táxi de Fleita, uma aldeia logo do outro lado da fronteira, antes de partir com o primeiro comboio. "Aqui tenho uma barraca. Se for preciso, armo uma barraca lá".

Quando o prefeito saiu do gabinete, um grupo de proprietários de lojas libaneses o abordou asperamente. Eles queriam saber o que ele pretendia fazer com os lojistas sírios que, afirmavam, vendiam abaixo do preço do mercado e os estavam tirando do ramo.

"E se pegássemos uns 50 sujeitos e fôssemos para uma loja síria?", disse um homem. "Então eles teriam de fechar as portas".

"Temos muitos planos prontos", interveio o prefeito. "Só que leva tempo".

Mais tarde comentou: "Nossos cidadãos têm razão, mas as pessoas que sofrem às vezes exageram. Os sírios são seres humanos também. Eles querem viver. Têm filhos. Só que não posso defender os sírios na frente deles".

Os sírios e os moradores de Arsal talvez concordem com uma coisa: está na hora de ir embora. Muitos sírios quase não têm trabalho. E estão cansados de viver em barracas.

"Se afirmarem que é seguro", disse Abu Fares, "mesmo que tenhamos de dormir debaixo de uma árvore, vamos voltar". / Hwaida Saad contribuiu para a reportagem.

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