Ivor Prickett para The New York Times
Ivor Prickett para The New York Times

O chefe supremo de Bengasi vigia um estado policial de estilo islâmico

'Estamos vivendo em uma prisão', disse Ahmed Sharkasi, um ativista liberal que fugiu para Túnis

David D. Kirkpatrick, The New York Times

01 de março de 2020 | 06h00

BENGASI, Líbia -- Dos inúmeros cartazes de propaganda, o marechal de campo olha para os escombros de Bengasi, enquanto a guerra civil que ele trava está estancada em um impasse sangrento. Seus agentes de segurança à paisana ouvem as conversas nos cafés. Ele entregou o controle das mesquitas  a extremistas. E derrama a sua proteção sobre um esquadrão da morte tribal chamado os Vingadores do Sangue.

“Estamos vivendo em uma prisão”, disse Ahmed Sharkasi, um ativista liberal que fugiu para Túnis.

Khalifa Hifter, conhecido como “o marechal”, é o governante militar da Líbia oriental. Há seis anos, ele luta para assumir o controle do país, liderando, há dez meses, um assalto à capital, Trípoli. Os Emirados Árabes, o Egito e outros se alinharam com ele, e a Rússia mandou mercenários.

O amplamente impotente governo de Trípoli, patrocinado pela ONU, é defendido por milícias regionais e, mais recentemente, pela Turquia, que enviou ao país centenas de combatentes sírios pagos.

Hifter cortou a produção de petróleo da Líbia há mais de um mês para que o governo de Trípoli deixe de receber as receitas. No final de fevereiro, começou a bombardear o seu porto civil, matando três pessoas, não acertando por pouco um navio carregado de gás natural liquefeito, e fez fracassar as conversações sobre um cessar-fogo patrocinado pela ONU.

Hifter prometeu construir uma Líbia estável, democrática, secular, mas em grande parte impediu a entrada de jornalistas ocidentais no seu território. Uma rara visita revelou um forte autoritarismo que, sob muitos aspectos, é mais puritano e mais ilegal do que o experimentado pela Líbia sob o último ditador, o coronel Muammar Kadafi.

Na Bengasi de Hifter, os moradores se queixam da corrupção. Extremistas islâmicos assumiram o controle das mesquitas e é possível que estejam infiltrados na polícia.

“Todos têm medo, medo até dos próprios concidadãos”, falou um morador.

Jonathan Winer, um enviado à Líbia no governo do presidente Barak Obama, afirmou: “Se você está com Hifter, está sob a sua proteção e pode fazer o que quiser. Se não está, é um inimigo e poderá ir para a prisão, ser morto ou exilado”.

Hifter governa de sua mansão nas montanhas mais a oeste, a uma hora de distância. Dois dos seus filhos são comandantes militares de alto escalão, assim como os seus guardas. A Bengasi de hoje não é muito diferente do que era em 2017,  quando  ele a tomou. Os bairros da periferia estão animados, mas as ruas do centro da cidade estão em ruínas.

A Líbia vive em tumulto desde que a revolta da Primavera Árabe e a intervenção da OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte) derrubaram o coronel Kadafi, há nove anos. O deserto ao seu redor abriga militantes, e nas costas do Mediterrâneo há milhares de migrantes.

Hifter serviu como oficial no exército do coronel Kadafi, mas posteriormente fugiu para os Estados Unidos onde viveu dezenas de anos como cliente da CIA antes de regressar durante o levante de 2011. Em 2014, quando as milícias islâmicas aterrorizavam Bengasi, prometeu livrar o país delas.

Armado por seus patrocinadores, recrutou combatentes nas tribos locais e admitiu  antigos oficiais de Kadafi. Então, ele recebeu o apoio dos salafistas, combatentes islâmicos de estilo saudita, que viam um inimigo comum nos rivais que ele estava combatendo. Jamais admitiu uma contradição entre a sua declarada hostilidade ao Islã político e as suas brigadas de salafistas.

Muitos moradores incensam Hifter por restaurar a segurança nas ruas. Uma rede de televisão a cabo transmite a sua propaganda. As manifestações nas ruas, organizadas pelo governo, lembram as exibições de entusiasmo forçado da era Kadafi.

Em julho do ano passado, Seham Sergiwa, 57, educada na Grã-Bretanha, que atuava na área política, questionou publicamente o assalto de Hifter a Trípoli. Na mesma noite, foi sequestrada por homens armados e picharam a sua casa com frases de advertência aos que criticam o exército. Os seus parentes contaram que a eletricidade foi cortada antes do ataque e que a polícia ignorou os pedidos de ajuda. A maioria acredita que ela esteja morta. Um porta-voz de Hifter declarou que o exército nada tinha a ver com o episódio.

Embora já não seja um campo de batalha, Bengasi não está livre da violência. Em agosto, um carro-bomba  matou três funcionários da ONU e duas outras pessoas. A ONU retirou os seus diplomatas da cidade. E alerta sobre frequentes sequestros, desaparecimentos forçados e assassinatos.

É impossível determinar os responsáveis por estes atos, mas muitos apontam para as milícias tribais que combateram ao lado de Hifter. Membros da tribo Awaqir, grande fornecedora de combatentes, se gabam da sua impunidade. Eles criaram os Vingadores do Sangue em 2013, e se tornaram conhecidos como os executores das ordens de Hifter.

Segundo o seu porta-voz, os Vingadores são civis desarmados que recolhem informações sobre “terroristas”.

Mas durante o sequestro de Seham Sergiwa, os que a atacaram rabiscaram o nome dos Vingadores do Sangue na parede. “Todas as evidências apontam para Hifter”, afirmou seu irmão, Adam Sergiwa, um médico que mora em Indiana. “Nós sabemos disso. Todo mundo sabe disso. Ele quis dar uma lição”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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