Rozette Rago for The New York Times
Rozette Rago for The New York Times

Lições do colapso das criptomoedas

Investidores que sofreram prejuízo devem se mostrar desconfiados por algum tempo

Nathaniel Popper e Su-hyun Lee, The New York Times

31 Agosto 2018 | 15h00

SAN FRANCISCO - Pete Roberts, de Nottingham, Inglaterra, foi um dos muitos que enfrentaram o risco de investir seu dinheiro em criptomoedas quando os preços aumentavam rapidamente no final do ano passado.

Agora, passados oito meses, os US$ 23 mil que ele investiu em diferentes Tokens digitais valem cerca de US$ 4 mil, e ele tem uma ideia clara de como isto ocorreu.

“Deixei-me levar pelo medo de ficar de fora e tentei ganhar dinheiro rápido", disse ele recentemente. “O prejuízo me deixou praticamente arruinado.”

Há muitos como Roberts, 28 anos. O valor da soma de todas as moedas digitais teve queda de aproximadamente US$ 600 bilhões, ou 75%, desde o auge observado em janeiro, de acordo com dados do site coinmarketcap.com.

Os mercados de moedas virtuais já passaram por ciclos de prosperidade e quebra - recuperando-se em seguida para um novo boom. Mas a quebra mais recente pode ter um impacto mais duradouro na adoção desta tecnologia, por causa do número de pessoas comuns que investiram em Tokens digitais ao longo dos doze meses mais recentes, para quem as criptomoedas devem evocar a ideia de falência ainda por um bom tempo.

O estrago deve ser pior em países como Coreia do Sul e Japão, onde investidores menos experientes aderiram sem reservas à nova moda.

Na Coreia do Sul, as principais bolsas abriram fachadas para facilitar os investimentos de pessoas que não se sentiam à vontade com as operações online. Recentemente, nos escritórios da Coinone, um único cliente veio visitar num período de duas horas no momento mais movimentado do dia. “O preço das moedas digitais caiu tanto que as pessoas parecem frustradas", de acordo com o funcionário Yu Ji-Hoon.

Boa parte da fúria dos investidores está ligada às moedas digitais menores, também chamadas de alt coins, vendidas pelos empreendedores nas chamadas ofertas públicas iniciais de moedas. Essas moedas deveriam servir como mecanismo de pagamento para novos softwares desenvolvidos pelos empreendedores.

Mas quase nenhuma dessas empresas entregou o software prometido, deixando assim essas moedas sem utilidade além da especulação. Várias delas foram denunciadas como fraudes.

O Bitcoin reteve melhor sua reputação entre os investidores. Seu valor está atualmente 70% abaixo do auge, enquanto Tokens menos conhecidos tiveram perdas na casa dos 90%. Mas até o Bitcoin enfrenta dificuldades para se tornar mais útil do que um mero investimento especulativo.

Apesar da queda nos valores, as redes sociais nas quais os fanáticos pelas criptomoedas trocam informações estão cheias de pessoas que comentam suas intenções de ater-se a suas moedas, na esperança de nova valorização quando a tecnologia se desenvolver mais.

No segundo semestre do ano passado, o analista financeiro Tony Yoo, 26 anos, de Los Angeles, investiu mais de US$ 100 mil da sua poupança. Em seu pior momento, o portfólio dele teve perda de quase 70% do seu valor.

Mas Yoo ainda acredita na ideia segundo a qual essas moedas digitais podem oferecer novas maneiras de realizar transações online, sem os grandes intermediários corporativos dos quais dependemos atualmente.

“Há muito mais em jogo nessa nova onda de tecnologia e inovação, que certamente tomará conta da nossa sociedade com o devido tempo", disse Yoo.

Com a queda nos preços, ele se disse interessado em investir mais dinheiro nesses mercados. Esse raciocínio é incentivado pelas pessoas que investiram no Bitcoin em 2013, quando o valor da moeda virtual ultrapassou pela primeira vez a marca dos US$ 1 mil. Esse momento de prosperidade foi seguido por um colapso no qual o preço teve queda superior a 80%. Mas, depois de um longo período de vacas magras, o valor teve recuperação. 

Roberts, o investidor britânico que viu a maior parte de seus US$ 23 mil desaparecer, está guardando suas moedas virtuais para o caso de uma reversão na tendência. Mas, no momento, ele deixou de operar esses mercados e agora procura outro emprego.

“Estou sobrevivendo com o que restou da minha poupança", disse Roberts. “Cometi um erro e, infelizmente, terei que arcar com seu custo pelos próximos anos.”

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