Desiree Rios para The New York Times
Desiree Rios para The New York Times

Lidando com animais para melhorar o desempenho escolar

A Green Chimneys, nos EUA, oferece a crianças com problemas de socialização um método de ensino atrelado aos cuidados de uma fazenda

Richard Schiffman, The New York Times

10 de abril de 2019 | 06h00

Xander DeLeon, 8, não ficaria mais surpreso se tivesse entrado na arca de Noé. Havia camelos pastando, um gigantesco emu sem asas, pavões que gritavam, um curral com cavalos em miniatura e burrinhos. Havia corujas, falcões e um condor andino com uma envergadura de três metros de uma ponta à outra das asas, e ainda todo tipo de animais domésticos nos estábulos, em gaiolas e cercados no terreno do que poderia vir a ser sua nova escola.

Para sua mãe, Leslie DeLeon, aquela visita a Green Chimneys, uma escola para crianças com necessidades especiais em uma antiga granja, a cerca de 100 quilômetros ao norte de Nova York, parecia a resposta às suas orações. "Ele disse, 'olha, posso ver as galinhas pondo ovos'. Eu chorava, porque sabia que finalmente havia encontrado o lugar certo para meu filho", contou Leslie.

Xander, que sofre de déficit de atenção e distúrbio de hiperatividade e dislexia, ficou fascinado com Green Chimneys. Quando frequentava a escola em Manhattan, ele tinha ataques de fúria e simplesmente saía da classe. Agora, em Green Chimneys, só tira A e B. "A equipe da escola disse que ele não poderia trabalhar na fazenda se não continuasse tirando notas tão boas", falou Leslie. A perspectiva de ser separado de suas amadas cabras estimulou Xander como sua escola tradicional jamais conseguiu.

A Green Chimneys School for Little Folk foi inaugurada em 1948 pelo educador e filantropo Samuel B. Ross Jr., que amava animais. Ele foi o pioneiro no conceito de que crianças com problemas emocionais poderiam adquirir confiança e tornar-se socialmente adaptadas cuidando de animais. A instituição, que começou como um colégio interno com 11 estudantes, agora é uma escola comum e também oferece residência, com dois campus, 243 alunos e praticamente o mesmo número de animais.

A ideia de que os animais poderiam ajudar as crianças a aprender e a se curar emocionalmente era revolucionária na época de Ross, e hoje seus benefícios são aceitos normalmente. 

"Quando você é um psicólogo de formação tradicional, nunca pensa fazer algo fora da profissão", disse Steven Klee, diretor de serviços clínicos e médicos em Green Chimneys. "Terapia significa conversar - você nem sequer considera a ideia de incluir um animal no tratamento".

Mas em Green Chimneys, ele constatou que às vezes é mais fácil que crianças com problemas de comportamento aprendam a se relacionar ao lidar com animais. "O ser humano tem muito mais dificuldade para compreender", explicou Klee. "Os animais em certo sentido são mais puros, mais coerentes e mais dispostos a aceitar".

Para uma criança medrosa, Klee considera que a interação com um animal pode ser o primeiro passo para estabelecer um relacionamento com outras pessoas. O que talvez surpreenda é que esta interação funciona mesmo com crianças da cidade, menos acostumadas a sair de casa.

"Eu ficava no meu quarto sem fazer nada - faltava à escola e coisas assim", disse Austin Stark, do último ano em Manhattan. Inicialmente, ele resistiu à escola, e só conseguia dormir ouvindo uma música a todo volume nos fones de ouvido. Isso mudou quando criou um vínculo com um cavalo de pernas arqueadas chamado Nelson. "Eu sofria por causa do sofrimento dele. Dei a Nelson apoio moral", afirmou.

Para poucos

Com quatro assistentes para cada aluno no campus principal e com cuidados individualizados que poucas escolas podem oferecer, Green Chemneys estabeleceu um novo padrão. Todos os anos, cerca de mil candidatos são encaminhados para Green Chemneys. No ano passado, só foram admitidos 95 novos alunos. 

A escola custa US$ 50 mil ao ano para os estudantes que só frequentam as aulas, e muito mais para os que moram no local. A anuidade é parcialmente financiada pelo Departamento da Educação do Estado de Nova York. Edward Placke, o diretor-executivo da instituição, disse que o ensino é pago pelo distrito de ensino local de cada estudante.

Nem todas as crianças fazem progressos na escola. Os que têm graves dificuldades de aprendizado e problemas de comportamento podem resistir, e as transições de volta para as famílias e as escolas locais podem ser difíceis. No entanto, para as de Green Chimneys, o prognóstico é bom.

A maioria dos alunos assiste ao programa "Aprendendo e ganhando", em que executam determinadas tarefas na fazenda, trabalham com animais ou cuidam das hortas e jardins e ganham um pequeno salário.

A tarefa de Xander consistia em alimentar as cabras e limpar seu estábulo. "As cabras se ajudam reciprocamente. Também me ajudam quando estou zangado, porque são muito pacíficas", disse. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

Mais conteúdo sobre:
educaçãoanimal

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.