John Wessels/Agence France-Presse
John Wessels/Agence France-Presse

Líder do Congo deixa presidência, mas não o poder

Após 17 anos, chega ao fim o mandato do presidente Joseph Kabila, que espera retomar a liderança do país dentro de cinco anos

Kimiko de Freytas-Tamura, The New York Times

22 de dezembro de 2018 | 06h00

KINGAKATI, REPÚBLICA DEMOCRÁTICA DO CONGO - Seu prato favorito é perca do Nilo “à congolesa”, preparado por um cozinheiro flamenco em sua fazenda num parque safári particular povoado por leões, rinocerontes e, surpreendentemente, camelos. Gosta de acompanhar as partidas do basquete americano da NBA e dorme pouco. Lê "absolutamente tudo", segundo um assessor, que comenta em seguida, "com exceção de Maquiavel". Gosta de andar de motocicleta em Kingakati, na República Democrática do Congo, onde fica sua fazenda. Uma entrevista recente com o presidente Joseph Kabila ofereceu um vislumbre do universo do líder congolês que segue enigmático mesmo depois de 17 anos no poder.

Obrigado a deixar o cargo pelos limites constitucionais à reeleição (a votação é esperada para o dia 23 de dezembro), a primeira transferência pacífica do poder desde a independência do país, em 1960, Kabila, 47 anos, tem sido discreto ao comentar seus planos para o futuro. Isso deu margem a perguntas em relação a suas ambições políticas, levando em consideração a imensa fortuna que ele acumulou ao longo dos anos nesse país de imensa riqueza mineral. Agora, todos esperam que ele aguarde o período de cinco anos antes de voltar ao poder.

A constituição do Congo o impede de se candidatar pela terceira vez seguida, regra que ele insiste ter respeitado, apesar de ter atrasado a eleição em dois anos.

"Não vou excluir qualquer possibilidade", disse ele, bebendo água durante uma recepção a jornalistas no palácio presidencial da capital, Kinshasa.

"Se estarei em atividade e disposto a realizar o que houver para ser alcançado?", indagou o presidente. "Sim, com certeza. Quero estar disponível para o meu país. Há muito trabalho a fazer".

Dias antes, pelo menos três pessoas foram mortas em confrontos com a polícia em meio a um comício da oposição, e um incêndio teve início num edifício da capital, onde são mantidos materiais ligados à eleição. Cerca de 8 mil das 10 mil urnas eletrônicas que seriam usadas foram destruídas, de acordo com as autoridades, que acrescentaram que a eleição não seria adiada.

Ao longo do verão, Kabila surpreendeu o país ao nomear como seu sucessor preferido Emmanuel Ramazani Shadary, ex-ministro do interior cujo nome é pouco conhecido fora da esfera política nesse país que tem dois terços do tamanho da Europa Ocidental. Considerado um linha-dura, Shadary teria sido escolhido por ser maleável e manter fracos laços com o exército e os serviços de segurança, duas forças leais a Kabila. Shadary é um dos 21 candidatos à presidência.

Para os críticos, Shadary vai apenas manter a cadeira presidencial quente para a volta de Kabila. O presidente é amplamente considerado responsável pelo restabelecimento da estabilidade num país que foi dilacerado durante o conflito conhecido como "Grande Guerra da África", sangrentos combates no final dos anos 1990 que deixaram milhões de mortos e um número ainda maior de desabrigados. Kabila herdou a presidência em 2001, aos 29 anos, depois do assassinato de seu pai, Laurent-Désiré Kabila, ex-combatente rebelde convertido em líder autoritário. O pai tinha derrubado a cleptocracia presidida por Mobutu Sese Seko.

O jovem Kabila tem treinamento como soldado e convidou empresas estrangeiras a investir na exploração de minerais como cobre e cobalto, ajudando a economia a crescer 500% durante seu mandato.

Ainda assim, num país dotado de grandes riquezas naturais, uma parcela muito pequena desse lucro chegou à população.

O crescimento estagnou por causa da corrupção, dos episódios de violência e uma crise de contágio por Ebola.

Na recepção aos repórteres, enquanto a mídia tentava descobrir mais a respeito de Kabila, perguntaram a ele qual era seu filme favorito. Apocalypto, respondeu, referindo-se a um filme de ação que conta a história de um caçador maia que empreende uma fuga ousada depois de ser capturado para um ritual de sacrifício.

"E, no final, ele sobrevive, não é?", disse Kabila.

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