João Silva para The New York Times
João Silva para The New York Times

Líderes da África do Sul estão matando uns aos outros

Cerca de 90 políticos foram assassinados no país desde 2016

Norimitsu Onishi e Selam Gebrekidan, The New York Times

08 Outubro 2018 | 06h00

UMZIMKHULU, ÁFRICA DO SUL - O medo diminuiu conforme se aproximaram de casa, e a garrafa de uísque ficava mais leve a cada curva da estrada. Logo, Sindiso Magaqa estava batendo palmas e dançando ao volante de seu amado Mercedes-Benz V8, entrando em território conhecido pouco antes do anoitecer. Minutos depois, homens armados com fuzis cercaram sua posição. Magaqa tentou alcançar a arma sob o assento - tarde demais. Um dos passageiros viu luzes faiscando, dúzias delas, vindas das balas que perfuraram as portas.

A emboscada era exatamente aquilo que Magaqa temia. Meses antes, um amigo foi assassinado por pistoleiros no jardim da própria casa. Então, quando outro amigo tentou abrir o portão da frente certa noite, um assassino saiu das sombras e o matou. Em seguida foi a vez de Magaqa, 34 anos, atingido meia dúzia de vezes.

Todos os alvos tinham algo em comum: eram membros do Congresso Nacional Africano (CNA) que tinham denunciado a corrupção dentro do partido.

Os assassinatos políticos estão aumentando na África do Sul, colocando em risco o sonho de Nelson Mandela de um país unido e democrático.

Mas, diferentemente de boa parte da violência política que trouxe o caos para o país nos anos 1990, os assassinatos não são motivados por batalhas entre partidos políticos rivais.

Agora, depois de quase 25 anos no poder, membros do CNA estão matando uns aos outros, contratando pistoleiros para eliminar colegas de agremiação numa disputa sem limites por dinheiro, território e poder, dizem integrantes do CNA.

Cerca de 90 políticos foram mortos desde o início de 2016, mais de duas vezes a média anual dos 16 anos anteriores, de acordo com pesquisadores da Universidade da Cidade do Cabo e da Iniciativa Global Contra o Crime Transnacional.

O novo presidente, Cyril Ramaphosa, lamentou que os assassinatos estejam manchando o sonho de Mandela. Ele está lutando para unir este fragmentado partido antes das eleições no ano que vem, mas pouco fez para sufocar a violência. Se governo resistiu às demandas por proteção policial para duas testemunhas de denúncias contra o CNA no caso envolvendo Magaqa.

Algumas vítimas eram membros do CNA que se tornaram alvo depois de denunciar a corrupção dentro do partido. Outros caíram em batalhas internas por cargos. Nas regiões rurais, onde o partido controla quase totalmente a economia, o conflito é intenso.

A província de Magaga, KwaZulu-Natal, é a mais mortífera de todas. Nela, 80 membros do CNA foram mortos entre 2011 e 2017, de acordo com o partido. Até assessores de baixo escalão dos subprefeitos têm guarda-costas, e muitos políticos andam armados.

"Era melhor antes de alcançarmos a democracia, pois conhecíamos o inimigo - o governo, sempre o governo injusto", comentou Mluleki Ndobe, prefeito do distrito onde Magaqa e cinco outros políticos do CNA foram assassinados no ano passado. "Agora, não sabemos quem é o inimigo", disse.

A morte de Magaqa, o político de mais destaque dentre os assassinados, chamou a atenção para a mortífera disputa dentro do partido.

Máfia política

Astro em ascensão dentro do CNA que já tinha adquirido envergadura nacional, Magaqa voltou à política local em sua cidade natal, Umzimkhulu. Depois de acusar membros do partido de embolsar milhões na reforma fracassada de um edifício histórico, Magaqa, que foi alvo da emboscada um ano atrás, e dois de seus aliados foram mortos num curto intervalo de tempo.

Muitos outros sofreram destinos semelhantes. No mês passado, em Pretoria, uma conselheira do CNA que tinha pedido um inquérito envolvendo programas de habitação do governo foi morta a tiros enquanto dirigia com os três filhos no carro. Alguns meses antes, um membro do partido de uma subprefeitura próxima foi morto perto de casa depois de denunciar a má qualidade das habitações construídas pelo governo.

"Os políticos se converteram numa espécie de máfia", explicou Mary de Haas, especialista em assassinatos políticos que leciona na Universidade de KwaZulu-Natal. "É a própria antítese da democracia, pois as pessoas ficam com medo de se manifestar".

E com razão. Após a morte de Magaqa, a outra testemunha, Thabiso Zulu, agora escondido, condenou a corrupção em Umzimkhulu. Dispondo de poucos recursos, o governo municipal gastou boa parte do orçamento para reformar um edifício histórico chamado Memorial Hall. No entanto, passados cinco anos e depois de gastar US$ 2 milhões do dinheiro público, o projeto se revelou um ralo de despesas questionáveis.

Por romper a lei do silêncio, Zulu e outro membro do partido agora correm grave perigo, de acordo com relatório publicado em agosto pelo Gabinete do Protetor Público, encarregado de investigar a corrupção.

Durante décadas, antes do fim do apartheid, diferentes facções sob o guarda-chuva do CNA - comunistas, defensores do livre mercado e sindicalistas - disputaram entre si enquanto lutavam contra o governo branco. Mas o aumento nos assassinatos dentro do CNA é um lembrete do quanto o partido se distanciou da meta de criar uma ordem política com base no estado de direito a partir das cinzas do apartheid.

A inação do governo é, segundo integrantes e ex-integrantes do CNA, reflexo da incapacidade - ou falta de vontade - do partido de conter os conflitos internos com medo que isso exponha o alcance da corrupção e da criminalidade entre seus membros.

Do idealismo à violência

No espectro do CNA, Magaqa e seus amigos são parte da geração que inclui os netos de Mandela. Jovens demais para se envolverem com atividades politicas na época do governo branco, eles amadureceram num novo país - forjado pelo partido.

Imitando a trajetória do CNA após o apartheid, suas vidas políticas começaram cheias de um idealismo juvenil, ao que se seguiu a perda da inocência e, finalmente, a violência fratricida. Zulu, 36 anos, sempre quis fazer parte do CNA. No fim da adolescência, formou um grupo de jovens com ideias políticas semelhantes. Um deles se destacou: Magaqa, um adolescente magro e teimoso de sorriso cheio de luz. Ele logo se tornou o líder do grupo.

Les Stuta, outro que testemunhou contra o CNA e agora está com a vida ameaçada, também era parte do grupo. Ele se lembrou de quando eles prometeram ganhar dinheiro para ajudar suas mães, que trabalhavam longe como empregadas em tempo integral na casa de famílias brancas.

Já em 2006, Magaqa e seu círculo de amigos conseguiram empregos governamentais de bom salário em Umzimkhulu.

Quando a união da juventude do CNA foi criada em Umzimkhulu, Magaqa se tornou o presidente, iniciando uma rápida ascensão dentro do grupo - tradicional trampolim para a ascensão à liderança do próprio CNA.

Propinas e uísque

Mas algo incomodava Zulu. A busca por cargos e dinheiro consumiu seus pares. Subitamente, alguns deles passaram a aceitar propinas e beber uísques caros.

Zulu perdeu seu emprego no governo e dedicou-se ao combate à corrupção. Mas a vida era muito diferente para Magaqa. Aos 27 anos, deixou a província para entrar no palco nacional em Johannesburgo. Tornou-se secretário-geral da união da juventude do CNA, terceiro na hierarquia, em 2011. Assim que foi nomeado, ele comprou um ícone da classe endinheirada da África do Sul: um esportivo utilitário da Mercedes-Benz, modelo ML 500 4Matic.

Sua ascensão durou apenas meses. Magaqa foi derrubado em uma das incontáveis reformas dentro do CNA e perdeu o cargo. Foi de Mercedes direto a Umzimkhulu e investiu a maior parte de seu dinheiro num clube de uma das divisões inferiores do futebol.

"Então, seu dinheiro acabou", disse o técnico, Mduduzi Ngubane.

Sem dinheiro, Magaqa voltou ao que sabia fazer melhor: política. Magaqa mergulhou de cabeça na questão que definiu o CNA: corrupção. Ele se tornou vereador em Umzimkhulu e membro de seu corpo decisório, tornando-se na prática o líder de uma facção insurgente dentro do CNA. O retorno de um astro político foi visto como uma ameaça a seus rivais em Umzimkhulu.

"Ele era ambicioso demais", disse o prefeito, Zweliphansi Skhosana.

Logo depois de entrar para a câmara de vereadores, Magaqa começou a investigar a problemática reforma do Memorial Hall. Juntamente com seus aliados na câmara de vereadores, ele exigiu uma auditoria independente - solicitação arquivada pelo CNA.

Corrupção e assassinatos

Skhosana afastou qualquer possibilidade de corrupção. Ele disse que Magaqa buscava semear a discórdia para obter o controle do governo local.

Zulu tinha se convertido num conhecido combatente contra a corrupção na província. Assim, Magaqa entregou a ele o que descreveu como documentos oficiais a respeito do Memorial Hall. Os documentos mostraram que, depois que a empreiteira venceu a licitação da reforma em 2013, no valor de US$ 1,2 milhão, o município pagou à empresa e à sua terceirizada quase dois terços do dinheiro, mesmo com o projeto atrasado. Dois anos mais tarde, depois que a empresa e sua terceirizada deixaram de entregar a obra, o município contratou outra empreiteira por mais US$ 1 milhão.

Zulu disse que ficou com os arquivos e prometeu levar o caso à polícia. Mas, nos meses que se seguiram, Magaqa mostrou os documentos na câmara de vereadores e questionou os líderes da facção dominante dentro do CNA, levando Zulu a se perguntar se o antigo colega não estaria usando a questão para obter vantagens políticas pessoais. Então, começaram os assassinatos.

Hoje, Zulu passa cada noite num lugar diferente. Há dois guarda-costas sempre com ele. Os três embarcam em seu pequeno Volkswagen enquanto Zulu trava sua guerra solitária contra a corrupção.

"Estou vivendo como um animal caçado", disse Zulu.

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