Tom Brenner para The New York Times
Tom Brenner para The New York Times

Líderes mundiais adotam palavras e política de Trump

Em países como Nigéria e Síria, a retórica do presidente americano é usada para promover uma agenda centrada na violência e na desinformação

Megan Specia, Megan Specia

08 Novembro 2018 | 06h00

O presidente Donald J. Trump usou sua posição pública para espalhar uma mensagem populista com uma linguagem muitas vezes despida de sutilezas diplomáticas, e humilhando os adversários. 

Sua linguagem foi incorporada por líderes de outros países que a usam para justificar as próprias ações e promover políticas do mesmo teor.

Exército nigeriano abre o fogo contra manifestantes

Em uma coletiva no dia 1.º de novembro, Trump sugeriu que os soldados americanos poderiam atirar contra migrantes se estes os atacassem com pedras. "Se eles jogarem pedras contra nossos soldados, nossos soldados vão revidar", disse Trump. "Falei para eles que considerassem as pedras uma arma de fogo".

Mais tarde, Trump explicou o que queria dizer: "Isso não significa que atirarão neles".

Mas menos de 24 horas depois de suas primeiras declarações, o Exército nigeriano postou um vídeo dos comentários no Twitter a fim de justificar os tiros disparados por seus soldados causando a morte dos manifestantes que jogaram pedras, no início da semana. Posteriormente, o exército deletou a mensagem, mas um porta-voz defendeu seu uso.

A Nigéria informou que três manifestantes foram mortos no confronto ocorrido na capital, Abuja. Mas segundo grupos de defesa dos direitos humanos mais de 40 pessoas morreram naquele protesto e em outros dois.

Gritos de "Fake News"

Desde a campanha presidencial de 2016, Trump normalmente costuma minimizar as críticas gritando que não passam de "notícias falsas". Ele também usou o termo para semear a desconfiança em relação aos principais veículos de informação.

Em resposta a um relatório da Anistia Internacional de 2017, segundo o qual seu governo foi responsável por milhares de mortes ocorridas nas prisões, o presidente da Síria, Bashar al-Assad, disse à Yahoo News: "Vocês podem forjar qualquer coisa, hoje em dia. Estamos vivendo na era das notícias falsas".

Falando ao jornal "The New York Times", em dezembro, um representante do alto escalão da polícia de Mianmar negou a existência de um grande número de muçulmanos, a minoria rohingya. "Não existe nenhum rohingya", declarou o oficial U Kyaw San Hla, definindo a afirmação como "notícia falsa". Os militares realizaram ataques brutais contra os rohingya, e usaram o termo "notícia falsa" para esquivar-se de eventuais investigações.

O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu de Israel, forte aliado de Trump, agora recorre frequentemente à alegação de "notícias falsas" para denunciar seus críticos.

O governo de direita da Polônia também adotou a expressão. O presidente Andrzej Duda, que limitou a liberdade de imprensa, postou uma mensagem no Twitter em janeiro apoiando o uso do termo por Trump.

Extrema direita na Europa

Desde que centenas de milhares de pessoas entraram na União Europeia em 2015 pedindo asilo, a migração tornou-se uma das questões mais desagregadoras do Continente. Ao discuti-la, os políticos populistas e de direita da Europa descobriram muitos pontos em comum com Trump.

No dia 2 de novembro, Theo Francken, ministro da imigração da Bélgica, seguidor entusiástico de Trump nas redes sociais, destacou a sugestão de Trump de dar fim ao direito à cidadania com base no nascimento nos Estados Unidos como medida a ser copiada. "Muito se poderia dizer a favor desta ideia", inclusive na Bélgica, ponderou.

Matteo Salvini, líder da Liga, partido de direita da Itália, subiu ao poder com uma plataforma contra a imigração. Este ano, em sua campanha ele adotou o slogan "Italianos em primeiro lugar", retomando o "America First" de Trump.

Brasil e Israel

O presidente eleito do Brasil, Jair Bolsonaro, aumentou o número de correligionários com lemas como "Vamos fazer o Brasil grande" que lembra o slogan da campanha de Trump. Sua recente eleição assinalou uma guinada radical para a direita no país, uma das maiores democracias do mundo.

Bolsonaro, cuja posse acontecerá em 1.º de janeiro, afirmou que apoia uma das ações de Trump - e quer a transferência da embaixada brasileira em Israel de Tel Aviv para Jerusalém. E como Trump, Bolsonaro criticou asperamente a ONU por extrapolar suas atribuições.

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