Jason Henry para The New York Times
Jason Henry para The New York Times

Documentário sobre Linda Ronstadt mostra lado corajoso da cantora

'Ouço música realmente com paixão', diz Linda, figura central do filme "Linda Rondstadt: O Som da Minha Voz"

Jim Farber, The New York Times

20 de setembro de 2019 | 06h00

No começo do documentário Linda Ronstadt: The Sound of My Voice (Linda Rondstadt: O Som da Minha Voz, em tradução livre), a ganhadora de 10 Grammys fala sobre o motivo que leva as pessoas a cantarem. “Cantamos para que as futuras gerações não se esqueçam do que a atual geração passou ou sonhou - ou com o que se encantou”, diz Linsa.

Documentar as lutas, as esperanças e os prazeres que Linda Ronstadt expressou ao longo de sua longa carreira tem um significado especial em razão de sua experiência com o mal de Parkinson, que a impossibilitou de cantar há aproximadamente uma década. “É estranho ter um projeto em andamento - especialmente um que não está sob meu controle”, disse ela.

Foi o controle que permitiu a Linda, agora com 73 anos, quebrar tantas regras do estrelato na música pop como ela quebrou. Ao mesmo tempo, ela é autodepreciativa a respeito de suas conquistas. Em entrevista, fez questão de mencionar cantoras que, segundo ela, cantaram as canções mexicanas que ela adorava na infância com mais excelência do que ela mesma. 

Você falou sobre a influência vinda da maneira como seu pai cantava. O filme nos permite finalmente escutá-lo.

A voz dele soa como um cruzamento entre Pedro Infante e Frank Sinatra. Aprendi a maioria das canções em espanhol quando era criança. Eu nunca havia escutado as gravações, ouvia apenas meu pai cantando.

Seu primeiro hit de sucesso foi Different Drum, de 1967. A canção fala de uma alma indomável. Você era essa pessoa, naquela época?

Eu me achava jovem demais para um casamento ou qualquer coisa do tipo. E continuei a me sentir dessa maneira até que tive meus filhos. Ter filhos faz a gente crescer.

Você se deparou com muitas mulheres talentosas, como Emmylou Harris e Karla Bonoff, mas, em vez de competir com elas, vocês colaboraram.

Nunca vi a música como uma competição. Ela é uma conspiração. A palavra “conspiros”, do grego, significa respirar ao mesmo tempo, juntamente. José Abreu, que foi tão bem-sucedido em ensinar música a crianças na Venezuela, afirmou que a música é uma conspiração para produzir beleza.

A cena na qual você emergiu era dominada por cantores-compositores. Mas você só cantava. Sentia-se constrangida por isso?

O mundo estava repleto de tantos compositores bons, e eu gostava da ideia de poder interpretar canções de outras pessoas.

Muitas pessoas no filme mencionam o quanto você é crítica em relação às suas gravações.

As versões que eu gravei soam muito rígidas para mim. Eu pensava: “Cantei aquela canção melhor em Cleveland, dia 6 de fevereiro!”.

Você começou a cantar temas clássicos em 1983, muito antes disso de tornar uma tendência rentável. Quanta resistência você encontrou?

Meu Deus! O presidente da gravadora veio até a minha casa e disse: “Você vai destruir sua carreira”.

Você vendeu milhões de álbuns gravando canções mexicanas. Ainda assim, quando os críticos falam de algum artista pop que tenha trazido sonoridades de fora do eixo EUA-Reino Unido ao mainstream do mercado da música pop, eles mencionam Paul Simon e Peter Gabriel, mas nunca você. Isso lhe causa frustração?

Quem se importa? Minha música não é a cura do câncer. Ela desaparecerá logo. Há melhores intérpretes que eu posso recomendar, como Lola Beltrán, Lydia Mendoza e Chavela Vargas.

Antes de você lançar as canções mexicanas, muita gente não conhecia sua origem.

Em 1968, eu declarei que tinha ascendência mexicana e alemã. Mas eu tinha pele branca e um sobrenome alemão, então não era considerada mexicana. É assim, em parte, que os mexicanos são tratados nessa cultura.

Obviamente, cantar era sua paixão desde a infância. Onde reside essa paixão agora?

Ouço música realmente com paixão. Consigo escutar música mais detalhadamente. Escuto ópera no YouTube, onde as imagens e o som são ruins. Mas posso assistir a Anna Netrbko cantando La Traviata e, logo depois, ver Maria Callas cantando-a também, e depois alguém mais. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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