Djeneba Aduayom/The New York Times
Djeneba Aduayom/The New York Times

Para Alexandra Kleeman, a realidade é muito surreal

Seu último romance, "Something New Under the Sun", imagina uma Califórnia tão devastada pela seca e incêndios florestais que apenas os ricos podem sobreviver

Lauren Christensen, The New York Times - Life/Style, O Estado de S.Paulo

18 de setembro de 2021 | 05h00

Fazia 42 graus no Deserto de Mojave em uma noite de sexta-feira em julho, depois que a temperatura havia chegado aos 49 graus. Alexandra Kleeman tinha visto pessoas jogando água no concreto para vê-la evaporar e um pardal caçar uma cigarra viva, matando-a e comendo-a diretamente de sua casca.

"Parece um mundo diferente. O calor se comporta de maneira diferente aqui. Quando você sai de casa, é como trombasse com uma parede", disse durante uma ligação por vídeo diretamente de seu quarto de hotel em Palm Springs, na Califórnia. Ela estava de volta aos Estados Unidos depois de uma residência de seis meses na Academia Americana em Roma, onde a paisagem era comparativamente exuberante, com ruas e edifícios desmoronando pela ação do tempo.

É quase exatamente o cenário de seu novo romance, Something New Under the Sun (Algo de Novo Sob o Sol, em tradução literal). A história segue Patrick, romancista de meia-idade da Costa Leste dos EUA, enquanto ele viaja à região de Los Angeles para participar da adaptação cinematográfica de um de seus livros. De volta a Nova York, sua esposa e sua filha se refugiaram em uma ecovila no interior do estado, e ele está dividido entre provar seu valor no trabalho e salvar sua família do cenário apocalíptico que criou para si.

O romance de estreia de Kleeman, You Too Can Have a Body Like Mine (Você também pode ter um corpo como o meu), de 2015, escrito enquanto a autora fazia um mestrado na Universidade Columbia, era uma sátira das identidades modernas, retratando uma mulher de 20 e poucos anos conhecida apenas como A e sua colega de quarto, B, que é tão obcecada em se parecer com A e em ser como esta que as duas se tornam virtualmente intercambiáveis – particularmente para o namorado frívolo de A.

Something New Under the Sun parte dessa sensação de desorientação e se afasta, usando múltiplas linhas de enredo para revelar um mundo que se parece muito com o nosso, com algumas diferenças assustadoramente plausíveis. O livro se passa em um futuro próximo, e sua versão da Califórnia é tão seca, quente e inflamável que a água deixou de circular. Portanto, as pessoas precisam comprar o WAT-R, produto sintético que imita algumas propriedades da água.

O primeiro conto publicado de Kleeman, na revista The Paris Review, em 2010, foi o aterrorizante Fairy Tale (Conto de fadas), sobre uma mulher colocada diante de uma série de pretendentes, nenhum dos quais ela reconhece, todos afirmando ser seu noivo. O homem que ela é forçada a escolher tenta matá-la. Faz parte de sua coletânea surrealista Intimations (Intimações), publicada em 2016, cujas histórias foram inspiradas por Samuel Beckett, segundo a autora.

Em contraste com seu trabalho anterior, Something New Under the Sun está mais próximo da vida real, inclusive em relação à falta de água. "Tenho uma relação engraçada com a ideia de realismo", afirmou Kleeman, de 35 anos, quando ainda estava em Roma.

Ela começou escrevendo poesia, porque não era necessário criar personagens totalmente formados. "Escrever ficção realista parecia um nível alto demais para mim. Para isso, era preciso entender as pessoas muito bem, e eu não acreditava que pudesse chegar lá."

Portanto, ela busca refúgio na ficção científica, no pós-apocalíptico, nas histórias de detetive. Alexandra Kleeman conheceu o marido, o romancista Alex Gilvarry, em uma leitura de Don DeLillo, em 2013, e os dois ainda compartilham livros de Raymond Chandler e Patricia Highsmith em casa, em Staten Island, Nova York.

Filha de professores – sua mãe, nativa de Taipei, Taiwan, ensinava literatura japonesa; seu pai, nascido em Miami, era especialista no Leste asiático –, ela cresceu em Berkeley, na Califórnia; Tóquio; Paris; Filadélfia; Williamsburg, na Virgínia; e Boulder, no Colorado, entre outros lugares. Em 1995, quando Alexandra Kleeman estava no quinto ano, ela e a mãe moravam em Riverside, na Califórnia, e ela se lembra da "fronteira acentuada" entre o gramado bem cuidado do seu condomínio fechado e as trilhas logo adiante. "Era muito estranho que houvesse essa enorme diferença entre a parte que as pessoas fizeram e a parte que já estava lá, e que passássemos tanto tempo ignorando a parte que estava ao redor, deixando-a sempre de fora".

É difícil fazer o mesmo na Califórnia. "Parte da aposta que você faz ao viver naquele lugar é estar à beira do desastre o tempo todo", disse a agente de Kleeman, Claudia Ballard.

Quando Kleeman começou a escrever Something New Under the Sun, em 2018, sua primeira certeza foi de que o pano de fundo seria a produção de um filme; ela gostava da "ideia de realidades fabricadas que são mais atraentes do que existir no aparato real que em que se baseiam".

Enquanto em You Too Can Have a Body Like Mine os próprios corpos eram de plástico e mudavam de forma até perder todos os traços de sua forma original, em Something New Under the Sun a plasticidade é algo estranho e ameaçador. Ninguém, incluindo seus fornecedores, sabe o suficiente sobre o WAT-R para prever suas verdadeiras consequências. Como Alexandra Kleeman descreve no livro, ele nasce do desejo capitalista de lucrar com a escassez causada pelo homem. "Coisas de que sempre precisamos, como terra, um lugar para morar, recursos, foram privatizadas e transformadas em propriedades desde o princípio", comentou ela.

No romance, apenas os ricos que vivem nas colinas de Malibu têm acesso a interiores com temperatura controlada e água de verdade, que bebem enquanto observam o WAT-R causar estragos biológicos e topográficos nos menos afortunados, lá embaixo. De volta a Nova York, a esposa de Patrick, Alison, sofre um ataque de pânico; sua sensação de que uma desgraça está prestes a acontecer é irreconciliável com a ignorância intencional de todos ao seu redor. "Ela é a personagem com quem mais me identifico. Muito de mim está nela", contou.

A filha de nove anos de Patrick, Nora, representa o otimismo precoce e cauteloso de uma geração mais jovem. "É difícil viver uma vida sem contradições, mas não é impossível saber quais são essas contradições e continuar em busca de uma saída ou de uma situação um pouco melhor", disse Kleeman.

Ela acredita que, com frequência, a ficção distópica pessimista acaba reforçando o status quo, em vez de remediá-lo. Citou Fredric Jameson: "É mais fácil imaginar o fim do mundo do que imaginar o fim do capitalismo." Kleeman escreve como se dissesse: observe-me.

Professora assistente na The New School, Kleeman dá aulas de pós-graduação sobre o gênero distópico. Sua colega, a romancista Marie-Helene Bertino, costuma receber alunos que já passaram pelas aulas de Kleeman. "Eles vão à loucura com sua inteligência e com sua capacidade de abordar a literatura de uma forma surpreendente", comentou Bertino.

Um dos contos que Kleeman ensina é The Savage Mouth (A boca selvagem), do escritor japonês Sakyo Komatsu, em que um homem amputa e consome sistematicamente partes do próprio corpo para não tirar a vida de outros seres. Ela tirou o livro da estante de sua mãe e o leu com horror e fascinação quando tinha 11 anos. "Se não quiser causar danos ao mundo, você realmente tem de se voltar para dentro?", perguntou.

Embora as raízes de Alexandra Kleeman sejam taiwanesas e americanas, ela cresceu imersa na língua e na literatura japonesas devido ao trabalho de sua mãe, bem como às experiências de sua família durante a Segunda Guerra Mundial. "Meus avós falavam japonês por causa da ocupação", contou ela. Sua primeira lembrança é de acordar em seu quarto em Tóquio, quando criança, sentir tudo tremendo e ver sua avó correndo e gritando a palavra japonesa para terremoto.

Mas ela diria que sua identidade como escritora não pertence a nenhuma linhagem, gênero ou estilo. "Tenho medo de escrever o mesmo livro duas vezes." Quando se afastou do modo onírico de Intimations, algumas pessoas lhe pediram que voltasse a ele. "Literalmente, não sei como. A ideia de tentar ser como eu mesma e fracassar me assusta muito", confessou Kleeman.

Ela não é surrealista, satírica ou mesmo anticapitalista. É uma contorcionista, afirmou, "mais voltada para meu desejo de ser outra coisa".

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