Eric Ryan Anderson para The New York Times
Eric Ryan Anderson para The New York Times

Além de escrever livros, Ann Patchett administra sua própria livraria

Um mundo feito de letras, café, cachorros e que logo terá a concorrência da Amazon no shopping local

Sarah Lyall, The New York Times

09 de outubro de 2019 | 06h00

NASHVILLE, Tennessee - Embora o objetivo desta conversa seja promover o seu novo romance, The Dutch House, Ann Patchett não tem muita pressa de falar de si mesma.

“Acho que este livro poderia realmente salvar o mundo”, afirma, segurando The Resisters, de Gish Jen, que tem previsão de lançamento para o ano que vem. Ann já encomendou antecipadamente uma grande caixa de exemplares que distribui aos seus conhecidos. “O livro fala de beisebol, e é escrito em um tom tão tranquilo, natural; achei particularmente maravilhoso,” acrescenta.

É um dia quente de final de agosto. Além de falar da obra literária de outros autores, Ann, 55, acrescentou um passeio de carro a Parnassus, a livraria cheia de cachorros, crianças e café de cortesia que ela tem em sociedade com Karen Hayes.

Ela discutiu com o gerente da livraria o problema irritante de Goober, um cão boiadeiro de origem suíça que vem trabalhar com uma funcionária e cuja natureza doce não contribui para solucionar o fato de que ele deixa uma esteira de baba por onde passa.

Agora, ele está na sua casa e quem a recebe é Sparky, um vira-lata que ela pegou em um abrigo que também “trabalha na livraria”, como ela diz. O almoço está na mesa - vários pratos comprados pelo marido de Ann, Karl.  (Leitores espertos reconhecerão Karl por causa do livro de contos de Ann Patchett, This Is the Story of a Happy Marriage.)

Este parece um bom momento para falar de The Dutch House. O seu oitavo romance conta a história de Danny e Maeve Conroy, irmãos que sofrem pela perda - dos pais, da casa e de compreensão do seu passado. Como outros livros de Ann, por exemplo Bel Canto e Commonwealth, este se baseia profundamente na especificidade dos seus personagens, mas parece universal em seus temas. Se Commonwealth, que explora os danos colaterais de que sofrem os filhos com o divórcio dos pais e respectivos novos casamentos, era semi-autobiográfico, The Dutch House é, em certo aspecto, quase anti-autobiográfico, uma história que pretende ser um alerta. Ann Patchett começou a trabalhar na ideia depois de entrevistar Zadie Smith a respeito do romance Swing Time em um evento autoral.

“Uma coisa que me impressionou foi o fato de que a autoficção não fala do que aconteceu para a pessoa”, diz Ann. “Ela fala do que ela teme que possa acontecer. Comecei a escrever um livro sobre o tipo de madrasta que tenho medo de ser”. (Ela tem dois enteados com o seu marido.)

Ann Patchett iniciou The Dutch House em 2016; dois anos mais tarde, jogou fora o esboço. Mudou a narrativa para a primeira pessoa, mas não adiantou. “Pensei: ‘É quase como a morte’,” diz. E montou o livro com a ajuda de amigos escritores.

Ann usa pouca tecnologia - nada de Twitter, de Instagram ou de TV. Comprou um celular novo depois que o que ela tinha já há 15 anos foi solicitado de volta pelo fabricante, e costuma usá-lo mais para chamar Karl.

O que ela mais ama - além da casa, do marido, do cachorro, dos amigos e de escrever - é a livraria Parnassus.

“Tudo o que queremos fazer é ler e conversar a respeito dos livros e usar chinelo de dedo”, afirma. “Estou muito feliz por termos este lugar juntas para ir. Somos como os caras da série Cheers que sentam no bar”.

A livraria dentro em breve terá de se defrontar com a chegada de uma loja da Amazon no shopping ao lado. Ann tenta não deixar que isto a aborreça. Ela considera a promoção de livros e a sua publicação parte do seu trabalho.

Depois da entrevista, ela destaca as atrações de Nashville. “Telefone se precisar de alguma coisa, se você tiver algum problema ou se tiver uma reação anafilática negativa!’ (Esta última observação provavelmente é uma alusão a Commonwealth.) E depois ela dá a partida no carro. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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